Dentro de Graceland - Capítulo 4



RECORDAÇÕES

Embora a palavra "normal" nunca parecesse fazer parte da vida de Elvis, na verdade havia uma rotina habitual ao longo dos anos em Graceland.
Era uma casa, e não apenas um negócio. Enquanto as decisões financeiras e comerciais eram feitas diariamente, Elvis queria ser ele mesmo, ser capaz de relaxar e se descontrair em Graceland. Era a sua fuga das muitas preocupações do mundo.
Como qualquer pessoa que tenta relaxar, ele amava ficar sentado de pijama o dia todo, o mais confortavelmente possível – seja lá em cima, lendo em seu quarto, assistindo TV, ou tomando o café da manhã na sala de jantar.
Uma vez ele me disse: "Eu não quero ser tratado como uma ‘estrela’ em minha própria casa”. "Ok”, respondi, “então vou tratá-lo como se fosse o meu irmão."
Era o que ele queria, e isso foi muito bom para nós dois. Isso também ajudou com as nossas rotinas diárias em Graceland. Como qualquer pessoa da casa, ele passava seu tempo fazendo todo tipo de coisas diferentes.
Quando comecei a trabalhar para ele, notava que ele às vezes ficava sentado por horas na sala de TV, no porão, ouvindo discos. Ele ocasionalmente escutava seus próprios discos, mas, na maioria das vezes, ele preferia ouvir cantores negros como Fats Domino, Memphis Slim, Rufus Thomas e BB King. Ele escutava frequentemente também álbuns de Frank Sinatra e Tom Jones. Eu adorava ouvir as músicas desses discos saindo pelo interfone enquanto eu trabalhava. Isso parecia fazer o dia passar muito mais rápido.
Ele também era viciado em televisão. Havia aparelhos de TV por toda a casa. Ele tinha dois televisores separados, instalados sobre sua cama, embutidos no teto, e havia um terceiro modelo de console ao pé da cama, assentado num suporte elevado e acarpetado. Dessa forma ele podia assistir todas as três principais redes de TV ao mesmo tempo. Usando seu controle remoto, ele alternava os canais, ficando com o que mais atraísse sua atenção. Aquelas TVs no quarto dele geralmente ficavam ligadas 24 horas por dia, com o som inaudível. Ele realmente adorava assistir TV.
Alguns de seus programas favoritos eram Kojac, Wild, Wild West, Hawaii Five-O, e vários outros programas populares da época. Ele também gostava de futebol, e assistia os jogos sempre que eram exibidos. Sua equipe favorita era o LA Rams.
Havia um programa local gospel que era transmitido ao vivo nas manhãs de domingo, chamado "Otis Mays Show”. Otis foi uma celebridade negra local do gênero, e Elvis sempre gostava de assistir seu programa. Ele costumava brincar dizendo que um dia ele iria até o estúdio participar do programa. Todos nós sabíamos, claro, que isso teria causado um pandemônio. Mas Elvis também sabia disso, então nunca mais fez qualquer "ameaça” desse tipo.
Ele me disse em várias ocasiões o quanto ele apreciava os músicos negros, e disse que crescera tentando imitar o estilo musical deles.
Muitas vezes me perguntei se já vi algum sinal de preconceito nele. Hoje posso afirmar honestamente que nunca vi. Ele nunca deixou a cor da pele das pessoas afetar a maneira como ele as tratava.
Muitos dos seus fãs provavelmente ficariam surpresos de saber, por exemplo, que, em meados dos anos 1970, ele namorou uma bela jovem negra de pele clara chamada Maggie. Ela tinha sido contratada por Vernon, a 5 dólares por hora, para atender os telefonemas em Graceland; em pouco tempo, uma forte atração romântica se desenvolveu entre ela e Elvis. Como muitos dos romances de Elvis, este foi relativamente curto e eles seguiram caminhos diferentes. Mais tarde ela morreu tragicamente em uma festa num clube noturno.
Como você pode imaginar, a vida sempre foi interessante em Graceland. Às vezes, no entanto, Elvis também poderia ser um pouco sereno e tranquilo. Elvis gostava de ler. Ele sentava-se calmamente, ainda de pijama, e lia o jornal local. Também tivemos assinaturas das revistas Life,Time, e Newsweek.
Ele passava horas descansando próximo à piscina durante os dias quentes de Memphis. Geralmente era minha a incumbência de providenciar tudo para ele na piscina. Sua rotina incluía: loção de bronzeamento Hawaiian Tropic, duas grandes toalhas de banho, muita água gelada, e bolas de algodão para cobrir os olhos. Eu sempre providenciava sanduíches e batatas fritas para ele.
Ocasionalmente, ele pedia para eu ligar um pequeno ventilador que ficava ao lado de sua espreguiçadeira. Ainda o vejo relaxando em sua espreguiçadeira, à beira da piscina, com o ventilador ligado para mantê-lo fresco.
Ao mesmo tempo, no início dos anos 1970, ele tinha uma barreira de privacidade em torno da piscina, para impedir espiadas indiscretas dos vizinhos. Eles estavam sempre tentando espiá-lo quando que ele queria nadar ou descansar em volta da piscina. Por alguma razão, e eu não sei por que, mais tarde a cerca foi removida.
Quando ele queria ir para a área da piscina, a sua trajeto normal seria andar pela sala de música, até a sala de troféus, e sair pela porta no final da sala de troféus, para a piscina.
Ele era muito calorento e gostava que tudo em torno dele fosse o mais frio possível. Ele tinha um aparelho de ar condicionado instalado na janela ao lado de sua cama, para poder sentir o ar frio soprando diretamente sobre ele, o que também fornecia um pouco de ruído para ajudá-lo a dormir. Havia um outro ar condicionado na outra extremidade da casa, em seu camarim. Ele foi retirado antes da casa ser aberta para as excursões. O que ficava no quarto dele ficava visível nas excursões, sendo posteriormente retirado da janela. O do quarto dele ficava ligado o tempo todo, até mesmo no inverno.
No inverno era sempre muito divertido por conta das festividades de Natal. Elvis sempre fazia de tudo nessa época. Começávamos a colocar os enfeites antes das comemorações do dia de ação de Graças. A frieza do clima ficava imediatamente  aquecida  pelos vários monitores,  instalados por cima de toda Graceland.
O jardineiro alinhava toda a calçada da frente com luzes, e várias árvores iluminadas eram colocadas em torno da propriedade. Um presépio iluminado era posicionado na frente, com animais e anjos. Estátuas de renas eram posicionadas lá fora.
Dentro da casa, luzes de Natal, ornamentos e coroas de flores eram colocados em toda a área, no andar de baixo. Uma coroa verde com luzes brancas incorporadas ficava pendurada em cima do corrimão na escada. Uma enorme árvore decorada sempre era colocada na sala de jantar, à direita, atrás da cadeira de Elvis. Quando era montada na sala no dia de Natal, ficava tão cheia de presentes que às vezes era difícil chegar até à árvore.
Chegavam presentes de todas as partes do mundo. Às vezes, haviam tantos que Elvis deixava que os funcionários pegassem e levassem o que quisessem. Mas todos os bichos de pelúcia (pelo menos os que Lisa não queria) acabavam sendo enviados para um dos hospitais infantis da cidade.
Elvis se vestia de Papai Noel para Lisa; outras vezes, era Vernon. Lisa ficava tão animada que às vezes ela começava a abrir os presentes dias antes do Natal. Tentávamos impedi-la, mas quando Elvis descobria ele dizia, rindo : "Ela só vai ser criança uma vez na vida. Deixem ela fazer o que quiser”.
O Natal [em Graceland] também significava toneladas de fogos de artifícios lançados no quintal em todas as horas do dia e da noite. Elvis uma vez mandou um dos seus amigos para Arkansas com 1.000 dólares apenas para comprar fogos de artifícios. Eu acho que ninguém no bairro Whitehaven conseguiu dormir naquela noite. Também havia muitas festas na casa para a família e os amigos. Bebidas e  álcool corriam livremente e todos se divertiam muito. Elvis mesmo não bebia, e às vezes ele advertia a alguns dos empregados que não bebessem demais. "Eu preciso de você no trabalho amanhã”, explicava, rindo.
O Natal também significava o tempo em que os funcionários ganhavam presentes. Vernon distribuía os presentes habituais. Elvis tinha, à disposição, estabelecimentos comerciais abertos exclusivamente para ele fazer compras à meia-noite. Ao longo dos anos eu recebi todo o tipo de presentes agradáveis, além de generosas doações em dinheiro.
O presente mais especial que Elvis me deu foi uma Bíblia folheada a ouro. Ele me deu no último Natal de sua vida, em 1976. Um presente que vou guardar para sempre. Foi mesmo um presente muito especial, pois eu sei que ele o escolheu pessoalmente para mim. Eu a lia todos os dias, sabendo que foi um presente dado de coração. As decorações de Natal eram mantidas [em Graceland] até depois de seu aniversário, em Janeiro.
Foi sempre difícil retirar as decorações, porque isso sinalizava o retorno para as atividades normais da mansão. A volta às coisas rotineiras.
Como sua empregada, todos os dias eu limpava o quarto dele. Eu trocava os lençóis e os quatros travesseiros diariamente. Ele tinha vários conjuntos de lençóis feitos sob encomenda,  a maioria deles brancos. Ao contrário do que alguns pensam, ele não tinha lençóis ou travesseiros bordados. Ele ocasionalmente tinha colchas de cama com as iniciais de seu nome sobre elas. Os lençóis ficavam guardados num pequeno armário ao lado da cama, próximo do aparelho de ar condicionado na janela. Ele também tinha uma boa quantidade de toalhas de banho e de rosto, sendo o vermelho sua cor favorita.
Ele costumava pôr sua roupa suja em uma cadeira, no canto do quarto. Eu então as levava para a lavanderia no porão, onde eram lavadas com detergente da marca “Tide”.
Ele comia muitas vezes em seu quarto, sentado na  cama, assistindo TV ou lendo. Lhe entregávamos a comida na sua bandeja branca favorita de TV. Ele bebia água gelada de um jarro semelhante àqueles em que se coloca suco de laranja, mantido num dos frigoríficos no andar de cima. Ao terminar sua refeição, ele deixava a bandeja ao lado de sua cama, onde eu a recolhia e levava de volta à cozinha.
Há um pequeno corredor principal do quarto para o banheiro, com armários am ambos os lados. No da esquerda ficavam seus pijamas, roupões e chinelos (Elvis não usava camisetas). Suas cuecas eram guardadas com as meias num baú branco que ficava em seu camarim. O armário à direita do corredor guardava uma pequena geladeira embutida, onde colocávamos picolés, tortas geladas, frutas cortadas e etc. Também mantínhamos uma garrafa de água gelada para ele beber sempre que quisesse.
Normalmente era Tia Delta quem fazia as compras da casa. Ela podia ser vista de uma forma regular, quando às vezes desejava comprar alguma coisa diferente.
[Como Elvis era ativo à noite], podia tomar seu  café da manhã às quatro horas da tarde, ou a sobremesa às três da manhã.
Às vezes ele pedia um cachorro-quente com repolho à meia-noite, de forma que sempre devíamos manter as geladeiras e as dispensas estocadas, à espera de um pedido dele, fosse o que fosse. E, claro, nós também ficamos na expectativa de alimentar mais alguém faminto a qualquer hora do dia. Um dos seus amigos adorava entrar na cozinha e nos pedir para lhe fritar um quilo de toucinho, o que sempre fazíamos. Esse dito amigo ficou tão gordo nessa época que, na área de pastagem, que fica na parte de trás da casa, um cavalo em quem ele tentava montar caiu sobre ele. No final dos anos 1960, tia Delta uma vez me disse que  estava gastando mais de 500 dólares por semana, somente com comida.
Por ocasião do aniversário de Elvis, em Janeiro, sempre fazíamos um bolo caseiro gigante para ele e o decorávamos com uma grande nota musical no topo. O bolo era carregado para a sala de jantar, acompanhado pelos parabéns de todos os presentes, e então ele apagava as velas sob os aplausos de todos ao redor.
Houve muitos momentos divertidos envolvendo Elvis e comida. Mas em algumas ocasiões não era tão divertido assim. Na maioria das vezes, ele era fácil de agradar. No entanto, quando ele ficou mais fortemente envolvido com medicamentos, ele tornava-se, às vezes, mais exigente com as coisas, incluindo sua comida.
Houve vezes em que eu ia levar-lhe a  refeição no quarto, apenas para ser enviada de volta e informada de que a comida não estava quente o suficiente, e que precisávamos cozinhá-la um pouco mais.
Lembro vividamente de um incidente onde ele pensou estar chamando por nós do interfone para avisar que  estava pronto para sua refeição. Na realidade, devido a um problema técnico no interfone, não recebemos o chamado dele.
Depois de pensar por quase 20 minutos que nós o estávamos "ignorando”, ele disparou até à cozinha, onde várias de nós estávamos descansando, imaginando por que ele ainda não tinha nos chamado para servir sua refeição.
Escutamos a sua reclamação já do topo da escada, e quando ele chegou à área da cozinha, a maioria de nós tinha se afastado por segurança. Desviei para a escada em direção ao porão e, por sorte, ele não me viu. Lembro de ver Mary saindo pela porta de trás para o pátio. Elvis entrou gritando na cozinha; ele estava tão louco como eu nunca o tinha visto. Ele estava furioso e com muita raiva. Ouvi um estrondo: ele (descobri isso mais tarde) pegou uma cadeira que estava encostada no fundo do balcão e quebrou-a na parede, e também bateu com força na parede um dos telefones.
"Quando eu ligar pedindo a minha refeição, eu quero agora!”, gritou. Olhando em volta para os rostos assustados e "azarados" que não puderam “fugir” da cozinha, ele subiu novamente, após ser-lhe assegurado que  sua comida seria enviada imediatamente.
Eu fui a "sortuda escolhida" para levar-lhe a comida, assim que ficou pronta. A esta altura ele já se acalmara, e pude explicar-lhe que não tínhamos recebido seu chamado na primeira vez, e que isso não tinha sido intencional.
Ele imediatamente se desculpou comigo e, logo depois de terminar sua refeição, desceu e pediu desculpas às demais.
Todas sabíamos que ele não fizera por mal; os efeitos da medicação que ele tomava é que causaram a explosão. Era típico de Elvis. Nós podíamos esperar ele se desculpar no dia seguinte ou no mesmo dia para saber se ele realmente se arrependia de ter agido assim conosco.
Na maioria das vezes, ele era como um urso de pelúcia ao nosso redor. Ele adorava fazer brincadeiras com todo mundo. Nenhum dos funcionários em Graceland era imune às brincadeira, incluindo esta que vos fala. Eu fui "vítima" de suas "travessuras", mais vezes do que eu gostaria de lembrar.
Um dia, eu estava arrumando a cama de Charlie Hodge em seu quarto, no andar de baixo no porão (localizado atrás da sala de TV). Eu estava cantarolando, não prestando atenção em nada, exceto no que eu estava fazendo, quando escutei Elvis na sala ao lado. Eu não pensei muito sobre isso e continuei fazendo meu trabalho quando, de repente, com o canto do olho, eu vi a mão de Elvis aparecendo e depois desaparecendo rapidamente na porta. Quase no mesmo instante ouvi ele gritar "pato!";  então, um pequeno fogo de artifício veio pulando para o quarto e explodiu a cerca de 10 pés de mim!
Eu pulei e gritei ao mesmo tempo. Não lembro o que falei, mas foi o suficiente para Elvis entrar no quarto e se desculpar comigo, do melhor jeito que pôde, tendo em conta o fato de que ele riu tanto, que caiu sobre a cama de Charlie. Eu logo acabei rindo também.
Como qualquer verdadeiro fã de Elvis sabe, ele adorava brincar com todo o tipo de fogos de artifícios. Ele enviava um dos seus amigos da "Máfia de Memphis" a todos os lugares do estado do Arkansas para comprar uma quantidade enorme de fogos para eventos especiais de feriados. De uma hora pra outra, ele decidia o momento de "brincar de guerra" com fogos de artifícios e, para aqueles de nós que não participavam ativamente, sabíamos ser a hora de encontrar um bom esconderijo em Graceland, para não ser atingido.
Uma tarde, durante um desses "jogos de guerra”, um rojão se extraviou, (como sempre acontecia), e passou por uma das janelas da casa, iniciando um pequeno incêndio nas cortinas no lado de dentro da janela. Vernon estava sentado na sala quando isso aconteceu e ele deu um pulo da cadeira e disse algumas palavras do tipo “seu filho ia matar todo mundo". Enquanto ele começou a bater para apagar o fogo, gritou me pedindo uma mangueira com água. Corri para fora, peguei a primeira mangueira que vi no gramado, levei para dentro e entreguei a ele. Então corri novamente para fora e liguei a água. Em poucos segundos o ouvi gritar ainda mais alto. Correndo de volta para dentro, percebi que tinha entregado a ele uma mangueira de irrigação com pequenos furos em toda a mangueira, usada para regar pequenos canteiros de flores. Não era essa a mangueira que ele queria!
Eventualmente a mangueira certa foi encontrada e o fogo apagado. Depois recebi um “sermão” de Vernon sobre a diferença entre uma mangueira normal e uma mangueira de irrigação.
Outra ocasião envolvendo fogos de artifícios teve lugar num início de tarde. Eu estava preparando algo na cozinha quando Elvis e alguns dos seus amigos decidiram se divertir um pouco. Eles foram lá fora, no quintal, e começaram atirando fogos de artifícios uns nos outros. Como de costume, um dos fogos de artifício errantes explodiu contra a parte de trás da sala de selva, sacudindo tudo dentro da casa com um ruído ensurdecedor. Todo mundo saiu correndo para fora, mas não conseguimos identificar onde o rojão tinha caído. Tudo o que podíamos ver era um pouco de fumaça saindo de trás dos aparelhos de ar condicionado. Um dos caras pegou uma mangueira (a certa, desta vez ) e molhou a área abaixo durante vários minutos até cessar a fumaça. Confiante de que o problema tinha sido resolvido, Elvis e os caras continuaram com suas "batalhas" por várias horas, até finalmente desistirem.
Mais tarde, naquela noite, todos decidiram sair, deixando o resto de nós na casa fazendo nossas atividades de sempre. Em algum momento, por volta da meia-noite, alguém veio correndo para dentro gritando que havia chamas saindo na parede do lado de fora, do aparelho de ar condicionado.
Todos corremos para fora e, de fato, toda a área estava praticamente em chamas. Felizmente, George Coleman estava na casa fazendo reparos elétricos, e conseguiu manter as chamas sob controle desviando para o lado seguro da parede. No entanto, ele alertou que seria preciso chamar o corpo de bombeiros. Eu saí e fui me certificar se o fogo não ardia sob o gesso.
Dentro de alguns minutos, chegaram o que parecia ser cerca de mil caminhões de bombeiros, com suas luzes vermelhas piscando e iluminando toda a área traseira de Graceland. Os bombeiros foram muito agradáveis e, após vários minutos de verificação, eles constataram que os esforços de George foram o suficiente para resolver o problema. Eles saíram, após acordar todas as pessoas do bairro com suas sirenes.
No dia seguinte, Elvis se aproximou de George, que estava sentado no balcão bebendo uma xícara de café. Elvis piscou para George e disse: "Eu ouvi dizer que vocês tiveram um pouco de susto na noite passada!" E isso foi tudo o que ele pôde comentar sobre sua casa quase ter sido queimada!
Apenas mais uma noite interessante na residência Presley.
Um dia eu estava ocupada limpando o banheiro de Priscilla, no andar de cima, localizado fora do quarto usado como escritório de Elvis. Ele entrou no escritório, sentou-se à mesa, e começou a trabalhar em algo. Ele não devia estar com disposição para trabalhar naquele dia porque ele me chamou no escritório e disse: "Nancy, venha aqui e cante comigo”.
(Antes de continuar com esta história, devo dizer a vocês que isso finalmente tornou-se, depois de algum tempo, uma rotina bastante agradável para mim – eu, Nancy Rooks, cantando junto com Elvis Presley. Isso acontecia tão regularmente - assim como com qualquer outra pessoa que estava por perto quando ele queria cantar e não queria fazê-lo sozinho -, que eu finalmente me senti bastante confortável cantando com ele. Incrível, mas é verdade!).
Elvis se aproximou e sentou-se em seu piano e me pediu para ficar ao lado dele. Eu estava em pé à esquerda dele e ele começou a tocar e cantar "Precioso Senhor, Segura a Minha Mão”. Conseguimos cantar juntos essa música completa. Ele começou a tocar e a cantar outra música (não lembro qual), mas ambos conseguimos cantar várias partes dela, quando então tivemos um "lapso de memória" ao mesmo tempo e não conseguíamos lembrar as próximas palavras [da canção].
Depois de “brincar” com isso por alguns segundos, ele começou a cantarolar partes da música e em seguida cantava quando  conseguia lembrar as partes dela, então começava a cantarolar novamente quando ele esquecia as palavras seguintes. Eu comecei a fazer a mesma coisa e, nós dois, estávamos cantando e cantarolando, cantando e, em seguida, cantarolando, quando, de repente, Charlie Hodge entrou na sala e, com espanto, perguntou: "Em que mundo vocês dois estão cantando isso?”
Elvis, sem perder o ritmo, respondeu: "O que você acha que estamos fazendo? Nós estamos cantando!" Charlie parou por um segundo, e então disse: "Bem, vocês estão matando essa canção”.
É fato amplamente conhecido que Elvis adorava armas e não hesitava em usá-las nas circunstâncias mais banais.
Lembro de estar na cozinha quando um dos homens da manutenção entrou bruscamente e disse ter visto uma pequena cobra subindo em uma das árvores no jardim da frente, perto da casa.
Elvis, numa de suas "ideias muito típicas" para solucionar problemas, decidiu sair e ver por si mesmo. Naturalmente, as poucas de nós que estavam na cozinha, o seguimos para ver o que ele faria.
Ele foi até à árvore e, dando uma rápida olhada na cobra,  gritou: "Nancy, vá pegar uma arma!”
Eu, já acostumada com essas coisas,  perguntei: "Qual arma, Sr. Elvis?" Ele riu e disse: "Qualquer arma, eu não me importo! Apenas se apresse antes que esta serpente fuja”. Corri para seu escritório no andar de cima e peguei uma arma de cano longo em sua maleta de armas, voltei e entreguei a ele. Enquanto isso a cobrinha fugiu para algum lugar do Mississippi; mas, tendo percebido que Graceland estava sendo invadida por cobras, Elvis pegou a arma, alertou a todos que ficassem longe e, depois, com um barulho ensurdecedor, deixou a árvore cheia de buracos. (Eu só posso imaginar o que o grupo habitual de fãs em torno do portão da frente naquele dia deve ter pensado!) Em seguida, com o cano de sua arma fumegando como em um de seus filmes de faroeste, ele riu, e disse para todos que o solo de Graceland estava seguro novamente, e calmamente caminhou de volta para sua mansão, confiante de que pelo menos a cobra (que, claro, ele nunca matou) não voltaria novamente.
Outros problemas de pragas faziam parte da rotina de Graceland.
Falando em cobras, no final dos anos 1960, ocasionalmente encontrávamos uma pequena cobra verde ou serpente no porão. Dodger chegou ao ponto de se recusar a descer ali, porque ficava com muito medo de encontrar uma cobra lá em baixo.
Numa manhã, eu mesma matei uma cobra verde muito pequena, na parte inferior das escadas que conduzem para o quarto da selva. A matei com uma vara de metal que encontrei nas proximidades da lavanderia. [Essas aparições de cobras] não eram tão incomuns, eu acho, porque que o porão naquela época era apenas uma sala aberta inacabada, com aberturas nas janelas, antes de Elvis mandar reformar tudo.
Os homens da manutenção finalmente encontraram as cobras e fecharam todas as aberturas, acabando, assim, com os bichos no porão. Mas Dodger nunca se livrou do trauma; até onde eu sei, ela nunca mais desceu ao porão novamente.
Voltando às armas em Graceland, lembro-me outra vez que eu estava ocupada fazendo alguma coisa na cozinha quando, de repente, ouvi um tiro muito alto na outra sala. Calculei ser um ruído muito alto para um fogo de artifício, então fui correndo para a sala de estar, localizada logo abaixo do banheiro de Elvis no andar de cima, a tempo de ver uma névoa fina de pó branco saindo do reboco, seguida por um vazamento. No primeiro momento e, em seguida, um dilúvio de água se derramou do teto perto da porta da frente, acima da sala. Saí pelo corredor até um pequeno armário onde guardávamos as toalhas de mesa, agarrei a maior quantidade de toalhas que pude e voltei, jogando-as no chão, na tentativa de absorver a água.
Depois corri para cima, gritando: "Sr. Elvis, você está bem?" Após atravessar apressadamente as duas portas, acabei me deparando com Elvis, parado em pé, ainda vestido com o pijama, com uma arma fumegante na mão e um sorriso tímido no rosto.
Com o coração aos pulos tentei, tão educadamente quanto pude, perguntar-lhe o que tinha acontecido. (Claro, tudo o que eu teria que ter feito era olhar para o vaso sanitário quebrado em um milhão de pedaços, para perceber que ele tinha atirado lá mesmo!) Ele sorriu, murmurando algo sobre como ele nunca gostara de vasos sanitários, e voltou calmamente para seu quarto, onde se jogou na cama e começou a assistir TV.
Eu nunca descobri o que o deixou louco o bastante  para estourar o vaso sanitário em pedaços. E, claro, nunca lhe perguntei novamente.
Tia Delta acabou pedindo a Mike McGregor e a Earl Pritchett para irem urgente à loja de materiais de construção, comprar um novo vaso sanitário preto, e instalá-lo como se nada de anormal tivesse acontecido. (Ainda hoje se pode ver onde o reparo foi feito no teto do hall de entrada, quando se entra pela porta da frente - olhando para cima e ligeiramente para a direita, perto da entrada, indo para a sala de estar.)
Posteriormente, Elvis decidiu que Priscilla precisava aprender a usar uma arma. Eu não acho que ela já tivesse usado uma antes, mas isso não importava para Elvis. Quando ele decidia que algo precisava ser feito, isso tinha que ser feito ali mesmo. Para começar, ele assegurou a Priscilla, que estava um pouco apreensiva sobre armas de fogo, que isso era algo fácil de aprender, e que ele poderia fazer dela uma exímia atiradora a qualquer hora.
Elvis e seus amigos tinham usado por muito tempo a antiga casa, conectada ao escritório na parte de trás, como um campo de tiro ao alvo. Earl Pritchett e Mike McGregor tinham vários postes grandes de telefone e colocaram-nos à direita no interior da porta da casa. Os alvos de papel, então, eram colocados contra os postes e o tiroteio começava.
O palco, então, estava montado. Elvis e cerca de dez dos seus amigos reuniam várias armas e as colocavam em cima de uma mesa no quintal, logo atrás da sala da selva. Priscilla, um pouco nervosa, estava de pé ao lado da mesa com eles. O resto de nós, como uma torcida, tomávamos posição em ambos os lados dos atiradores, que estavam alinhados em todo o caminho do escritório para a casa. E então começava o show.
Elvis começou gastando vários minutos, atirando com cada uma das armas tentando acertar no alvo que estava na casa velha, para certificar-se de que ele tinha a "arma certa" para ensinar Priscilla. Depois de se decidir por uma 45 de cano longo, ele a entregou a Priscila, que quase a deixou cair devido ao  peso em sua mão. Nós percebemos isso, porque todos se moveram um pouco para trás.
Depois de escolher uma arma de fogo mais cômoda para sua pequena mão, ela estava pronta para se tornar uma atiradora profissional. Elvis passou um bom tempo tentando explicar-lhe a maneira correta de segurá-la, como mirar, e como lenta e seguramente apertar o gatilho de modo a não receber um recuo. Tendo dito tudo isso, Priscilla apontou a arma em direção ao alvo, fechando os olhos, apertou o gatilho e enviou um ricochete de tijolos que voou em direção a todos nós; a bala se perdeu completamente na porta da casa e atingiu aproximadamente três pés à esquerda da mesma.
Não seria tão ruim se ela só tivesse disparado um tiro. Mas ela deve ter entrado em pânico porque ela continuou a puxar o gatilho, pulverizando a área da parede inteira e novamente choveram tijolos, todos dentro de cerca de 30 pés de onde ela estava, ficaram cobertos com partículas de tijolos.
Houve uma debandada em massa, todo mundo subindo de volta para a casa, tentando sair do alcance de quaisquer futuras surpresas.
Elvis imediatamente agarrou a mão de Priscilla e tirou-lhe a arma. Depois de um breve minuto de silêncio atordoado, começou uma explosão de aplausos e assobios depois que percebemos que ninguém tinha sido atingido.
Para seu crédito, Priscilla acabou aprendendo a arte da arma, mas não depois de rasgar alguns buracos de bala na antiga casa. Eu ainda posso ver Priscilla disparando e Red West em pé atrás dela gritando: “Dez pés para a direita!"
Ainda pode-se ver alguns pedaços de tijolos e concretos que faltam. Eles foram pintados por cima. Basta virar e olhar acima da soleira da porta.
Todos acabaram tendo um grande momento naquele dia.
Os animais desempenharam um grande papel na vida de Elvis. ele amava animais e, ao longo dos anos, sempre havia vários e diferentes animais em volta de Graceland.
Nesta época ele tinha um pavão que vivia no quintal e tinha pleno acesso a todos as partes da propriedade, desfilando com toda a sua majestade e esplendor (eu ainda tenho algumas penas dele). Elvis sempre dizia a todos que tivessem cuidado para não machucar o pavão, especialmente quando estivessem dirigindo através do estacionamento e ao redor da área da garagem. Ele se preocupava com a possibilidade de  algum de nós acidentalmente machucar o pavão, com o qual ele, obviamente, se importava muito.
Esse carinho com a ave desapareceu com rapidez quando ela, vendo o seu reflexo no acabamento brilhante de um dos carros favoritos de Elvis, começou a bicar o carro, danificando a pintura. O pavão foi rapidamente doado a outra pessoa. Levou semanas até que finalmente paramos de ouvir sobre a “nota” que custou a restauração do carro.
Ao longo dos anos, Elvis também teve mulas, pássaros, porcos, cabras, galinhas, perus e uma grande variedade de cães.
Eu nem me dou ao trabalho de adivinhar quantos cães existiram em Graceland, durante os anos em que estive lá. E, claro, como cães que eram, eles mantinham o lugar bastante animado.
Havia um chamado "Muffin". Ele gostava de mastigar sapatos. Uma vez uma senhora foi visitar tia Delta e sentou na cadeira perto do balcão da cozinha. Irrefletidamente, ela retirou os pés dos sapatos enquanto estava sentada.
Quando ela se levantou para ir embora, olhou para baixo e gritou. Fui correndo ver o que tinha acontecido e ali, a seus pés, estavam os restos mastigados do que tinha sido um caríssimo par de sapatos de jacaré.
Elvis, claro, acabou comprando-lhe um novo par. Outro cão, chamado "Stuff”, tentava levar para longe as bolsas de tia Delta quando ela entrava na casa. Depois houve "Babbie”, uma linda cadela descendente de cães pastores. Ela não gostava de homens, e rosnava para qualquer um que passasse. Não as mulheres, apenas homens.
Elvis comprou dois cães pastores e nós nunca conseguíamos mantê-los limpos. Um dos seus dois grandes cães dinamarqueses me encurralou um dia no porão, e eu tive que chamar tia Delta para vir e me tirar de lá.
As histórias dos cães [em Graceland] não têm fim.
Em uma época havia lá dois galos, que costumavam brigar tão fortemente, que tiravam sangue um do outro. Tia Delta e eu tínhamos que usar varas para acabar com as brigas e mantê-los separados.
Estranhamente, no entanto, não tivemos muitos gatos em Graceland. Os gatos que lembro foram os que ocasionalmente entravam na propriedade vindos dos bairros vizinhos, ou, claro, dos estábulos que ficavam na parte de trás. Os empregados acabavam sempre encontrando um bom lar para eles.
Tia Delta me enviava para ir à "loja Sears" comprar gaiolas de gato, e então começávamos a procurar pessoas que adotassem os gatos. Eu mesma levei vários para a casa da minha mãe. Ela vivia em uma pequena fazenda fora do Condado e tinha um celeiro na propriedade e ela sempre tinha problemas com os ratos no celeiro. Depois de eu ter levado para ela uns 8 ou 9 gatos, ela educadamente me perguntou se nós poderíamos encontrar outra pessoa para levar os próximos.
O único gato que lembro ter sido bem recebido em Graceland  foi um que Lisa tinha depois que ela se mudou para Los Angeles com Priscilla. Era um gato pequeno, que ela tinha escondido numa bolsa e carregou com ela em um voo comercial de volta para Memphis para visitar o pai dela. Eu sempre me perguntei o que teriam feito se a tivessem pego com o gato. Não era, obviamente, a época das vistorias de bagagens em todos os aeroportos.
Também havia um macaco chamado "J Hug”. Ele era mantido em uma gaiola, no quintal. O alimentávamos com maçãs, bananas e leite. Às vezes, ele saía da gaiola e agarrava meus tornozelos e eu tinha que gritar para alguém me “salvar” dele. Fiquei aliviada quando Elvis se livrou dele.
E depois, também, tivemos o "Scatter”, o famoso chimpanzé. Dizer que ele foi um "mão-cheia" seria o mínimo. Nunca sabíamos o que ele ia fazer. Honestamente acredito que ele pensava que era "humano”. Ele bebia como um marinheiro e sempre podia-se contar com ele para tornar as nossas vidas miseráveis. Elvis acabou construindo uma pequena residência para ele no quintal, com aquecedor e um aparelho de ar condicionado na janela. Ficávamos todos com medo de ficar perto dele. Ele poderia agarrar você quando você passasse, ou assustá-lo com um ruído estridente quando você menos esperasse.
Nos revezávamos para alimentá-lo enquanto ele estava trancado na jaula; todos o temíamos. Um dia eu o vi puxar a peruca de uma das empregadas enquanto ela tentava alimentá-lo. Ela começou a gritar enquanto corria em direção à casa, escorregou e caiu na lama. Finalmente conseguimos acalmá-la, mas ela nunca mais chegaria novamente perto da jaula.
Em seguida, Elvis decidiu que precisava de alguns cavalos. Tudo começou inocentemente, quando ele comprou um para ele, depois outro para Priscilla; então, de repente, parecia que todo mundo tinha um cavalo. Ele também comprou um pequeno pônei para Lisa montar quando ela era mais jovem. Aquele pônei tornou-se mais uma lembrança para mim, que eu nunca esqueceria.
Pouco tempo depois de comprar o pônei, Elvis estava conduzindo-o ao redor do quintal, com a pequena Lisa sentada na parte de trás. Eu os observei pela janela do quarto de selva enquanto fazia algumas tarefas e não liguei muito para o fato.
Todavia, vários minutos depois, ouvi a porta traseira de acesso à sala da selva sendo aberta. A próxima coisa que vi foi Elvis, sorrindo até o canto da orelha, levando o pônei e Lisa direto para a sala da selva, para dentro! Eu o ouvi dizendo para Lisa: "Vamos mostrar a Dodger seu novo pónei!” Eles passaram por mim (eu estava boquiaberta, tenho certeza), ele levando o pônei e Lisa através da pequena abertura debaixo das escadas, em frente ao hall de entrada, e à direita, no quarto de Dodger.
Os acompanhei (a uma distância segura) pela sala, a tempo de ver Dodger, sentada em sua cadeira de balanço perto da porta. Ela virou-se e, ao ver o pônei parado em seu quarto, gritou: "Senhor! Filho, o que você está fazendo?"
Não sei quem estava rindo mais, se Elvis ou sua filha.
Dodger levantou e gritou: "Filho, leve esse animal para fora daqui, ele não pertence à casa!"
Elvis, em seguida, levou o pônei de volta pela casa. Quando ele chegou no meio do caminho da grande entrada entre a cozinha e a sala da selva, pouco antes das duas etapas que conduzem para dentro da sala, o animal fez bem em cima do tapete o que naturalmente todo pônei faz!... E você pode adivinhar quem teve de limpar!
Peguei um jornal no balcão da cozinha e terminei o serviço com um rolo inteiro de toalhas de papel, que foram imediatamente jogados na lixeira lá fora.
Graças a Deus que essa foi a última vez que ele decidiu trazer um animal, desse jeito, para dentro da casa.
Muito tem sido escrito sobre o cavalo de Elvis, "Rising Sun” (Sol Nascente). Ele foi um dos mais belos cavalos que já vi. Por alguma razão, porém, eu tinha medo dele. Pode ser porque eu tinha ouvido várias histórias sobre como ele tinha mordido uma ou duas pessoas no passado. Além disso, um monte de pessoas não percebe o quão grande ele era. Ele era muito grande e alto.
Uma senhora teve sua orelha gravemente mordida pelo Rising Sun, mas, com toda a justiça para o cavalo, ela mesma provocou isso. Ela colocou o rosto na frente do cavalo, tentando fazer o cavalo "beijá-la”. Ela conseguiu um ótimo beijo.
Eu lembro de uma tarde, em que Elvis me enviara à casa de Vernon na “Dolan Street” para pegar alguma coisa e trazer de volta para ele. Eu estava andado pelo pasto na parte de trás de Graceland, ao longo da cerca, e perto do portão que dá para a propriedade de Vernon.
Quando comecei a voltar, entrei no pasto e fui rapidamente recebida por Rising Sun, em pleno galope, em minha direção. Aterrorizada, dei meia-volta, abri o portão que leva à propriedade de Vernon e corri até à casa.
Fiquei tão assustada que Vernon chamou tia Delta para me acompanhar a Graceland. Eu vi Rising Sun a alguns metros de distância, parado no meio do pasto, me encarando. Eu não tenho certeza, mas acho que ele estava “sorrindo”.
Muitos fãs não sabem que Rising Sun, após a sua morte, foi enterrado no pasto, perto do grande celeiro  no canto da propriedade. Em 1993, o pônei de Lisa lhe fez companhia.
Muita gente não sabe quantas pessoas eram necessárias para manter Graceland funcionando. Parecia um pequeno exército de trabalhadores que estavam sempre de plantão, apenas para ajudar a manter as construções e os terrenos em forma.
Havia homens no quintal, empreiteiros, eletricistas, pintores, carpinteiros, empregadas domésticas, cozinheiras, secretárias, seguranças, protetores de animais e as pessoas da manutenção constantemente de plantão.
Tentar encontrar um bom funcionário foi sempre um problema. Essa foi uma das razões que fez Elvis ter muitos parentes trabalhando para ele, em várias funções. Ele assumiu, nem sempre corretamente, que podia confiar em seus familiares.
Parecia que as contratações e as demissões estavam sempre ocorrendo. Quando estávamos nos acostumando com alguém por perto, ele ia embora, demitido por uma ou outra razão. Jardineiros e guardas de segurança pareciam ser particularmente difíceis de manter.
Uma vez, por exemplo, dois jardineiros convenceram Vernon a cultivar uvas em torno da área da piscina. As uvas parecia boas como paisagismo, mas logo foi descoberto que os homens pegavam as uvas para fazer vinho. Vernon prontamente os demitiu.
Em outra ocasião, um segurança no portão da frente, que estava no trabalho há algumas semanas,  permitiu a um casal, que o tinha convencido serem membros da família e que estavam distantes há muito tempo, subir para a varanda, onde em seguida, entraram pela porta da frente e prontamente subiram as escadas e entraram no quarto de Elvis. Felizmente, Elvis estava em Hollywood. Tia Delta subiu lá em cima e encontrou-os pensativos olhando o quarto. Ela ligou para o segurança e eles rapidamente foram escoltados para fora. Felizmente, nada foi roubado. O segurança foi demitido na hora.
Outro  segurança foi demitido depois que ele foi descoberto "expondo-se" para Lisa e as amigas dela no celeiro que fica atrás do pasto. Vernon não disse a Elvis o que tinha acontecido com receio do que ele poderia ter feito com o homem.
Outra violação mais grave de segurança aconteceu alguns anos depois da morte de Elvis. Isso foi relativamente tarde da noite e eu tinha ido à sala de troféus.
Eu estava ocupada arrumando algumas coisas quando, de repente, tia Delta e outra das empregadas chegaram gritando na sala. Percebi, por seus olhares, que elas estavam apavoradas. Também notei que tia Delta carregava uma pistola pequena que ela normalmente guardava no criado-mudo ao lado de sua cama.
A outra empregada imediatamente fechou a porta atrás delas quando elas entraram correndo na sala, enquanto tia Delta foi direto para o telefone e ligou para o portão da frente.
Eu soube mais tarde que as duas estavam assistindo TV na sala da selva quando, sem aviso, um homem enlouquecido, que mais tarde descobrimos estar drogado, quebrou uma das janelas do fundo da sala. Ele tinha usado algo como um pé-de-cabra para forçar as hastes da janela e entrou quebrando o vidro, enquanto as duas mulheres estavam assistindo TV. Elas então correram para o quarto de tia Delta, localizado à direita da cozinha. O homem as seguiu até o quarto, onde tia Delta agarrou a arma de sua gaveta no criado mudo e ameaçou matá-lo.
A outra empregada me disse que a mão de tia Delta tremia quando ela apontou a arma para o intruso. Tia Delta gritava: "Eu vou te matar se você não sair daqui”, e o homem (obviamente ele não estava em seu juízo perfeito)  ficava mandando ela ir em frente e matá-lo. As duas mulheres então conseguiram correr em torno do homem e sair do quarto, passando pela porta até à sala de troféus.
O segurança apareceu na sala de troféus, dentro de um ou dois minutos, seguido de mais luzes azuis que eu já tinha visto na minha vida. Soube mais tarde que finalmente o homem foi enviado para um sanatório.
Um outro incidente teve lugar (eu realmente fiquei com medo) enquanto trabalhava em Graceland. Aconteceu vários anos após o incidente envolvendo o homem invadindo o quarto da selva. E esse também foi perto da sala de troféus.
Eu estava limpando ao redor da área da piscina no início de uma noite e andando na parte de trás da casa, em direção à entrada para a sala da selva, quando eu parei para usar o banheiro localizado atrás da casa. É o mesmo banheiro utilizado hoje pelos hóspedes nas excursões, fora da sala de troféus. Eu não notei nada fora do comum quando fui para o banheiro e fechei a porta do lado de fora atrás de mim.
Eu só fiquei lá por alguns minutos e, quando saí, imediatamente vi algumas letras grandes que tinha sido pintadas com spray na parede externa. Apenas algumas palavras obscenas, mas isso foi o suficiente para me deixar em pânico, quase até à morte. A polícia foi acionada e fizeram um pente fino na casa, mas nenhum intruso foi encontrado e nunca descobrimos a razão ou o significado disso. Mas o fato me deixou visivelmente abalada por algum tempo.
Após esses incidentes mais guardas foram contratados, especialmente à noite, para patrulhar a propriedade de forma regular. Eu levei bastante tempo antes de me sentir totalmente confortável depois disso.
A maioria das minhas lembranças, no entanto, foram muito boas. Lembro-me de Elvis e sua família de uma forma acolhedora e solidária. Ao longo dos anos, eu fui tratada como membro da família e não como uma empregada. Elvis sempre foi um perfeito cavalheiro comigo. Ele sempre me fez sentir segura e confortável perto dele.
Em uma ocasião, minha filha me ligou e me disse que tinha caído e torcido o pé gravemente. Sabendo que havia uma clínica ortopédica localizada na rua à direita, próxima de Graceland, (que inclusive Elvis frequentava), eu liguei para eles tentando marcar uma consulta para minha filha. Eles me disseram que o médico estava ocupado demais para vê-la. Elvis ficou sabendo e ligou de volta para o médico. Após uma breve conversa com ele, Elvis sorriu para mim e disse que o médico estava esperando para ver a minha filha. Ela não apenas teve  o melhor tratamento, como Elvis pagou a conta inteira.
Em outra ocasião, meu carro tinha saído da oficina e meu marido o conduziu à mansão para me buscar depois do trabalho. Elvis saiu e começou a conversar com ele, enquanto esperava eu pegar minhas coisas. Antes que acabasse, os dois estavam no quintal em uma partida de futebol. Eu acabei sentada no carro esperando eles se divertirem itensamente por mais de uma hora.
Elvis era esse tipo de homem. São lembranças assim que eu sempre vou recordar.
Sempre existirão  defeitos na personalidade de alguém, e às vezes pode haver um pouco de escuridão em sua vida. Dada as enormes tensões que Elvis sofreu, no entanto, e a dependência que ele foi forçado a manter com medicamentos prescritos para mantê-lo acordado de manhã, para mantê-lo dormindo à noite,  para mantê-lo “para cima" em todas as suas performances esgotantes, muitas vezes fico maravilhada com tudo o que ele fez, assim como ele fazia bem feito. Um homem fraco nunca teria sobrevivido por tanto tempo como ele sobreviveu e nunca teria continuado a dar tudo para seus fãs da mesma forma que Elvis fez.

Isto é um trecho de "Dentro de Graceland", de autoria de Nancy Rooks, ex-empregada de Elvis Presley, um testemunho precioso do dia-a-dia do rei do rock, cobrindo os últimos 10 anos de sua vida. A tradução em português é de Roseane Maria Silva, e eu tive o privilégio de revisar o texto e compilar o e-book em PDF. Baixe-o gratuitamente aqui.

Comentários

  1. Amei muito esse 4 capitulo , muito , muito obrigaga pela postajem , espero que tenha mais capitulos......

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