Entrevista Com Billy Smith





Billy Smith (1943-) é filho de Travis, irmão mais velho da mãe de Elvis, Glayds. Ou seja, ele e Elvis são primos em primeiro grau. Nesta entrevista, datada de 12 de fevereiro de 2006, Billy compartilha um pouco de suas memórias sobre o primo famoso.



Qual é sua recordação mais antiga sobre Elvis? Lembra-se de Elvis cantar sozinho ou para a família antes de ficar famoso?
Lembro-me muito bem que ele cantava muito para a família e outras pessoas. Sempre teve paixão pela música, desde a mais tenra idade. Lembro bem uma ocasião, quando eu era bem pequeno, quando Elvis me tirou de um caixote de lixo! Eu caíra de ponta cabeça na caixa. Na tentativa de sair eu procurava retirar algumas bananas que o homem da frutaria tinha jogado fora. A sorte é que Elvis me viu cair enquanto passava, foi lá e me tirou.

Como a maior parte das pessoas sabe, o pai de Elvis, Vernon, foi para a cadeia por falsificar um cheque. É verdade que o seu pai também foi para a penitenciária, mas que o avô de Elvis pagou a fiança para Travis sair e deixou lá o próprio filho? Isso parece muito estranho.
Bem, é verdade que o meu pai, Travis, foi para a penitenciária com Vernon, mas Vernon saiu da prisão uns meses antes do meu pai por bom comportamento. Quando isso aconteceu da primeira vez, o avô de Elvis tirou meu pai da cadeia, mas deixou Vernon lá. Ele disse que era para lhe ensinar uma lição.

Quando chegou pela primeira vez a Memphis, viveu na mesma casa que os Presley, em Washington Street. Do que se lembra desse tempo e quão diferente era de Tupelo? Lembra-se de como a mudança para a cidade afetou Elvis?
Lembro-me que levou tempo até todos nós conseguirmos emprego, e que um dos primos do meu pai roubou todo o dinheiro que tínhamos, além das meias novas do meu pai. Ele ficou mais chateado e zangado por causa das meias. Meu pai e tio Vernon procuraram emprego e até gastaram as solas dos sapatos só nessa procura. Lembro-me de vê-los cortar cartões para pôr dentro nos sapatos para tapar os buracos. Tivemos de comer nabos durante um mês. Elvis jurou que nunca mais tocaria num nabo depois disso e acho que realmente nunca mais o fez.

Talvez a casa mais famosa onde Elvis morou antes de ficar famoso seja o apartamento de Lauderdale Courts. Muitas vezes fala-se de Elvis ter ensaiado com Johnny Burnette e o seu irmão nessa época. Lembra-se de alguma coisa sobre isto e teve a sorte de ir ver Elvis tocando ao vivo com alguma banda de rock’n’roll?
Não me lembro de nada sobre ele a ensaiar com Johnny Burnette ou seu irmão. Sempre que podíamos, íamos sempre vê-lo [Elvis], especialmente perto de casa. Elvis sempre foi o meu herói. E sempre fomos amigos próximos, mesmo apesar da diferença de idade de oito anos. Ele sempre cuidou de mim e eu sempre quis ficar perto dele.

Lembra-se do que aconteceu até Elvis gravar o seu primeiro disco, ou de ensaiar com Scotty Moore e Bill Black? Isso era comentado na família ou foi uma surpresa para vocês quando ouviram Elvis cantando no rádio?
Ele ensaiava, mas no estúdio. Falava do disco com os seus pais, e sabíamos que ele ia gravar um, mas quando saiu, ficamos muito entusiasmados. Lembro-me da minha família ter ido até à casa dele para ouvir o disco passando na rádio naquela primeira vez.

O que nos pode dizer sobre a sua tia Gladys? Ela parecia ser às vezes uma pessoa triste, pois tem sempre esse ar nas fotos em que aparece com Elvis depois dele ficar famoso.
A tia Gladys era uma boa pessoa. De fato, lembro-me dela como uma pessoa extrovertida, divertida e amorosa… Andava sempre a rir-se e a brincar. Mas nessas fotos dos seus anos finais, ela parece mais triste porque já estava doente, e triste por saber que Elvis tinha de ir para o exército. Ela era generosa como Elvis, mas também tinha um temperamento difícil. Elvis e Vernon sabiam muito bem quando tinham de sair de perto dela, em certas ocasiões. Ela preocupava-se muito e não estava bem de saúde. Sempre foi muito dedicada à família, mas Elvis era o seu grande amor. Adorava-o.

Elvis era um homem deveras atraente. Supostamente algumas das suas características deviam-se ao fato de ter tido, entre seus ancestrais, uma índia Cherokee, do seu lado da família. Alguém, na sua infância, contava histórias sobre Morning White Dove, a avó de vocês em quinto grau?
Sim, Elvis era um homem atraente. O nosso avô era um homem atraente. O meu pai (Travis), a minha tia Gladys, tia Clettes, tio Johnny e tia Lillian, todos têm aquele ar Cherokee… pele escura, olhos escuros e ossos faciais elevados. A tia Lavelle e o tio Tracy pareciam-se muito com o pai deles… olhos azuis e pele clara. Ouvimos contar histórias sobre Morning Dove, mas não muito. Mas sempre nos disseram que ela tinha sido uma linda mulher.

É óbvio que Elvis era temperamental. É verdade que a sua tia Gladys era do mesmo jeito? Você alguma vez viu o “lado mau” da personalidade deles?
Sim. Elvis e a tia Gladys tinham um temperamento difícil e vi o “lado mau” de ambos quando estavam zangados ou preocupados. Elvis tinha muita dificuldade em esconder se algo o perturbava.

E que dizer de Vernon? Será que ele era assim mesmo tão preguiçoso como tantas vezes o descrevem? Pode fazer algum comentário sobre uma citação retirada do livro “Elvis and the Memphis Mafia” que “Vernon sempre queria mais de tudo, exceto responsabilidades”?
Ele nunca gostou de trabalhar. Chegava muitas vezes atrasado no trabalho. Só trabalhou nuns dois sítios antes de Elvis ficar famoso, ao contrário da tia Gladys, que trabalhou em muitos locais antes de Elvis ficar famoso.

A mim sempre me pareceu que foi um erro Elvis ter designado Vernon como seu gestor financeiro. Se Elvis tivesse contratado um supervisor financeiro profissional, não teria de ter trabalhado tanto nos seus últimos anos de vida.
Numa coisa que o tio Vernon era bom era em números, especialmente se os cifrões estivessem à frente deles. E Elvis confiava nele. Ele visava mesmo os melhores interesses de Elvis e dos seus.

Assim que Elvis comprou Graceland, você se mudou com sua família para lá?
O meu pai, Travis, foi o primeiro porteiro que Elvis teve. Por isso, quando nos mudamos para Graceland, Vernon pediu ao meu pai para ser o chefe de segurança dos portões, como já havia sido na casa de Elvis em Audubon Drive. Vivíamos numa grande casa branca que ficava na propriedade [em Graceland]. Era a mesma casa que Elvis e eu demolimos [posteriormente] com um trator para arranjar mais espaço para podermos cavalgar.

Poucos fãs sabem a história do seu tio, Tracy Smith. Por favor, partilhe essa história conosco.
O tio Tracy teve uma febre quando criança e isso fez com que ficasse com um desenvolvimento cerebral lento. Tinha o raciocínio de uma criança de 12 anos, mas era um homem bom. E tinha uma força inacreditável. Às vezes Tracy ficava nos portões com o pai e fingia que era um guarda dos portões. Ele vivia conosco naquela casa por trás de Graceland. A tia Gladys cuidou dele enquanto viveu e depois da sua morte, viveu conosco e, depois, com algumas das suas irmãs. Ele adorava Elvis e Elvis providenciou para que nunca lhe faltasse nada.

O seu irmão Bobby morreu jovem?
Sim, o meu irmão mais velho, Bobby, morreu em 1968. Naquela altura eu morava no Circle G, quando não estávamos em Los Angeles. O Bobby e eu estávamos sempre apenas a uma milha ou duas de distância de Elvis. Crescemos com ele e nos mudamos para Graceland ainda adolescentes. Lembro que uma vez Elvis levou-nos às compras e nos comprou um guarda-roupa completo pouco depois de irmos para Graceland. Consegue imaginar a sensação de morar num sítio como aquele?

E o que tem a dizer de Gene Smith? Ainda é vivo?
Gene era primo de Elvis em primeiro grau. Era irmão do Junior. Elvis e Gene tinham praticamente a mesma idade e eram muito chegados, especialmente nos primeiros anos. Elvis e Gene até trabalharam juntos na Precision Tool. Gene trabalhou para Elvis durante alguns anos e foi um dos primeiros integrantes da Máfia de Memphis, bem como Red West e Junior. Gene morreu há poucos anos.

Fale sobre o primo Billy Mann. No livro “Elvis and the Memphis Mafia” sugere-se que foi ele quem tirou a fotografia de Elvis dentro do caixão. Isto parece ser mais do que uma coincidência, uma vez que já em 1957 ele também esteve envolvido num incidente que envolveu notas de 1.000 dólares. Pode confirmar a história?
Sim, Billy Mann foi quem tirou a fotografia de Elvis dentro do caixão.

Billy, você teve um relacionamento particularmente especial com Elvis e era mais próximo dele do que qualquer outra pessoa da Máfia de Memphis. Por favor, fale-nos disso.
Sempre fui chegado a Elvis, já que eu era seu parente. Muitos no nosso grupo foram chegados a Elvis, num ou noutro nível. Eu sempre estive próximo de Elvis desde criança. Ele sempre quis que ficasse perto dele e sempre me protegeu. Sempre gostei muito de Elvis e era capaz de fazer tudo para lhe agradar e estar com ele. Podíamos falar de tudo e falávamos mesmo! Ele sentia-se à vontade comigo e confiava em mim. Pelo menos, é o que ele sempre me dizia. Quando ele ficava doente, normalmente eu ficava com ele. Quando ia para o hospital, eu ficava lá com ele. Tinha imenso respeito por ele. Ele fez muito por mim e pela minha família, nos primeiros anos e nos finais. Sempre disse que me amava. Talvez porque eu também tenha estado onde ele esteve antes de tudo ter acontecido e esse era o nosso elo  de ligação… éramos família. Ele era o meu herói.

O seu relacionamento com Elvis está provavelmente mais bem simbolizado na “promessa”. Como é que isso surgiu?
A “promessa” surgiu porque tivemos um acidente quando éramos garotos e jurámos nunca contar isso a ninguém. Prometemos um ao outro. Só que mais tarde Elvis contou a alguém e isso magoou-me profundamente, e ele soube. Ele assegurou que isso não voltaria a acontecer e foi assim que a promessa surgiu. Era um fato sabido entre os rapazes que Elvis não era capaz de guardar um segredo, mas se fosse algo realmente importante, não contava a ninguém. Nunca mais me voltou a trair, nem eu a ele. Depois disso choramos juntos como dois malucos e é algo de que sempre me lembrarei.

Penso que foi você que trouxe Jerry Schilling para o grupo. Ainda o vê ou mantém algum contato com ele?
Vi o Jerry no funeral do Richard Davis há dois anos. Todos os rapazes do nosso grupo eram extremamente próximos. Éramos como irmãos. Alguns mais do que outros, mas ajudávamo-nos mutuamente, custasse o que custasse. Era um elo muito forte e Elvis era o centro de tudo. Todos nós o amávamos e tínhamos um trabalho a fazer. Alguns faziam melhor que outros, mas cada um de nós tinha um propósito. Falei com Elvis sobre contratar Jerry. O Jerry sempre foi simpático para mim, para a minha família, mãe e pai, e sempre me lembrarei disso.

Há histórias sobre Joe Esposito ser pago tanto por Elvis como pelo Coronel Parker e que o Coronel Parker o usava para espiar Elvis. Pode dizer-nos se isto é verdade?
Não sei se o Joe era pago pelo Coronel. Mas sei que o Coronel tentava obter informações de nós todos. O Joe se dava bem com o Coronel melhor do que alguns dos outros.

Qual é a sua opinião acerca de Larry Geller?
O Larry Geller é porreiro. Não concordo com algumas das histórias que conta, mas o Larry esteve presente por uns tempos. Ele parece lembrar-se da importância que teve melhor do que alguns dos outros rapazes se lembram. Mas para quê estragar o seu sonho? Tal como disse, todos tinham um trabalho a fazer. Larry era o cabeleireiro de Elvis.

Em meados dos anos 60 Elvis parecia ter uma nova necessidade de exploração ou interesse. Ler parece ter sido uma das suas maiores atividades. Qual era a sua opinião em relação à busca pessoal dele e às visitas que fazia ao “jardim da meditação”?
Elvis adorava ler. Tinha sede por aprender coisas novas. Ficava deslumbrado com algumas das suas descobertas e certificava-se de que nós todos tivéssemos conhecimento delas. Passávamos dias em casa a ler e a estudar. Elvis era muito inteligente. Ele gostava do jardim da meditação. Afirmava lhe dar paz de espírito, o que era bom. Ele merecia ter paz de espírito. Elvis nunca mudou a sua crença em Deus ou Jesus Cristo. Falávamos muito acerca de religião. Mas ele também nunca criticou as outras religiões. Elvis era uma pessoa de mente muito aberta.

É verdade que em 1977 Elvis lhe pediu para se tornar seu braço direito e que considerou livrar-se do Coronel de uma vez por todas e até de Joe Esposito? Ele falou realmente a sério sobre mudar as coisas?
Elvis chegou mesmo a pedir-me para ser o “capataz” e falou sobre livrar-se de um monte de gente. Sei que Elvis gostava o Coronel, mas também se ressentia por ele impedi-lo de fazer certas coisas que ele queria fazer. Uma delas era fazer uma turnê pela Europa. Ele falava nisso muitas vezes e todos nós sonhávamos com isso. Infelizmente, nunca viria a acontecer.

Sempre viajou com Elvis quando ele ia fazer os filmes?
Viajei com Elvis em quase todos os seus filmes. Não pude ir a alguns por motivo de doença na família. Eu, tal como a maioria dos rapazes, participei em muitos dos seus filmes. Elvis tentava certificar-se de que todos nós trabalhássemos nos seus filmes. Gostava de ter os seus rapazes por perto. Confiava em nós.

Que recordações você tem sobre o tempo em que trabalhava [com Elvis] nos filmes? Foi divertido ou foi aborrecido?
Com Elvis, os filmes eram todos divertidos. Ele transformava tudo em bons momentos. Toda a equipe o adorava e eles eram sempre muito simpáticos conosco. Tivemos tantos momentos memoráveis nos estúdios!

Lembra-se de quando Elvis começou a queixar-se sobre a piora da qualidade dos seus filmes?
Sim, lembro-me quando ele se sentia desencorajado com a qualidade dos seus filmes. Dizia que eram basicamente todos iguais. Queria papéis mais exigentes. Mas os seus filmes faziam dinheiro e o Coronel não queria mudar o formato.

Depois de Elvis regressar do exército e de você ter casado com a Jo, como é que equilibrou os seus meses em Hollywood com o seu relacionamento em casa? Elvis compreendia isso?
Ser casado às vezes não era nada fácil. Houve muitos dias e noites solitários até a Jo começar a viajar com a gente. Quando era bom, era bom, mas quando era mau, era péssimo. No início nenhuma esposa tinha permissão para ir, mas, depois, quando a Priscilla começou a andar pra lá e pra cá, as esposas começaram a fazer o mesmo. E continuaram nisso mesmo depois da Priscilla ir embora. Também levávamos os filhos conosco, o que facilitava tudo muito mais. E depois, andávamos quase sempre todos juntos. Elvis era mais compreensivo e também queria alguém sempre com ele.

Alguma vez visitou os estúdios para estar presente nas sessões de gravação de Elvis? Alguma vez Elvis comentou como achava horríveis as canções dos filmes – ou você testemunhou algumas das más reações dele?
Sim, estive com ele em muitas das sessões de gravação. A Máfia de Memphis estava com Elvis quase 24 horas por dia, pelo menos um ou dois deles.

Você esteve em Nashville para as sessões de “Guitar Man” com Jerry Reed. Elvis fez algum comentário, percebendo que estava prestes a fazer um bom trabalho musical, ou será que não mudou de ideia até chegar às sessões no American Studios?
Elvis gostou das sessões de Guitar Man em Nashville com Jerry Reed. Sempre achámos que fazia uma música fabulosa, fizesse ele o que fizesse.

Todo mundo sabe da visita que os Beatles fizeram a Elvis, e você esteve lá. Como foi essa noite para vocês – e porque motivo não gravaram nada?
Quando os Beatles vieram, estávamos todos muito entusiasmados para conhecê-los. Mas cuidávamos para que Elvis não percebesse isso. Elvis sempre gostou de ser o “evento principal.” Todas as nossas esposas estavam lá. Os Beatles vieram até à casa de Elvis no  525 da Perugia Way, em Bel Air, e sentamo-nos todos a conversar. Eles foram extremamente simpáticos. Nunca vou esquecer aquela noite e sei que Elvis gostou muito deles. Os Beatles estavam empolgados por conhecê-lo; quando chegaram estavam todos um tanto calados, como que esperando Elvis falar primeiro. Elvis disse: “Se vocês não vão dizer nada, vou para a cama”. Todo mundo riu. Isso quebrou o gelo e depois disso conversaram durante horas. Foi uma ótima reunião.

Depois do acidente de Elvis (durante as filmagens de “Clambake”), o coronel exigiu que ele queimasse todos os seus livros espirituais. Também tentou  afastar vocês todos de Elvis, fazendo de Joe Esposito o “capataz”. Será que pode descrever sucintamente o que aconteceu e como se sentiu acerca disto, sendo parente de Elvis?
Estávamos em Rocca Place, na sala, quando Elvis veio a nós e disse: “Caí e bati com a cabeça. Acho que preciso de um médico”. Estava com um grande galo na parte de trás da cabeça. Após esse acidente, fiquei com ele noite e dia. Eu sabia que ele estava irritado com o coronel sobre algo, mas ele nunca me disse o que era. O coronel tentou livrar-se de alguns dos rapazes, mas isso não teve qualquer efeito sobre mim. Elvis é que fazia as regras e tomava as decisões no que tocava a mim e à maioria dos rapazes. Éramos todos escolhidos a dedo por Elvis e ele sempre nos protegeu muito.

Há um monte de publicações acusando Elvis de racismo, algumas derivadas de uma citação falsa que foi publicada num jornal nos anos 1950. Pode dizer se alguma vez viu em Elvis alguma atitude racista?
Elvis era sulista e, como tal, por vezes brincava. Mas Elvis tinha todo tipo de pessoas trabalhando para ele – negras, brancas, judias, italianas, mexicanas, gregas… Elvis olhava sempre para a pessoa, não para a raça.

Você tem idade muito próxima à de Priscilla; por isso, como era o seu relacionamento com ela quando ela chegou pela primeira vez a Graceland?
Quando Priscilla veio para Graceland pela primeira vez, era um bocadinho tímida. Mas acho que sempre nos demos bem.

Como é que a sua mulher, Jo, se dava com Priscilla? Eram boas amigas? Quando foi a última vez que Jo viu Priscilla?
Jo e Priscilla eram amigas íntimas nos primeiros tempos. Costumavam ir a lugares juntas enquanto estávamos fora da cidade e quando vinham até Los Angeles. Jo e eu ficávamos na casa de Elvis, com Priscilla. Elas iam às compras juntas e eram muito amigas. Em Graceland faziam muitas coisas juntas, juntamente com Patsy Lacker, a mulher do Marty. Marty e Patsy também viviam em Graceland naquela época. As três ficaram muito amigas e Jo e  Patsy ainda são amigas. São amigas até hoje. No entanto, a última vez que a Jo viu Priscilla foi depois de Graceland ter sido aberta ao público.

Poucas pessoas devem ter ouvido falar do caso de Priscilla com o cantor Mylon Lefevre em meados dos anos 60. Pode falar-nos sobre isto, e se foi algo mais que um simples caso?
Pelo que sei, ela só o conheceu. Não sei o suficiente para comentar sobre isso, pois nesse tempo estávamos em Los Angeles.

O que achou de Ann-Margret? Chegou a ver ela e Elvis juntos? Durou quanto tempo o relacionamento deles? Ela era a companheira certa para Elvis? Acha que Elvis chegou a pensar em deixar Priscilla para ficar com ela?
A Ann-Margret era maravilhosa! Não era possível conhecer pessoa mais simpática. Era tão doce e linda, e Elvis adorava-a. Tinha uma alcunha para ela. A maior parte das pessoas pensa que é “Rusty”, mas não. Ele tinha um nome especial pelo qual a chamava. Todos  adorávamos a Ann. Acho que lhe passou pela cabeça, ficar com ela.

Como é que você e Jo se deram com Linda Thompson? Ela foi boa para Elvis?
Adóravamos a Linda Thompson. A Jo e a Linda eram amigas, juntamente com a Patsy Lacker. As três entendiam-se às mil maravilhas. Mas também a Linda dava-se bem com todo mundo. Foi ótima para Elvis! Cuidou sempre dele enquanto esteve presente.

Ainda tem notícias de Linda Thompson e ainda costuma encontrar-se com ela?
Há um bom tempo que não falo ou vejo a Linda. Ela vive em Los Angeles e eu vivo no Mississippi, mas a Linda era ótima. Acho que todo mundo gostava dela.

O que acha de Ginger Alden? Acha que Elvis e ela teriam casado?
A Ginger sempre pensou que sim. Mas Elvis tinha uma forma de colocar as coisas. Ele dizia sempre: “quando for a hora certa.” E depois ria-se… a hora nunca era certa. Não acho que teriam casado.

O Dr. Nick é algumas vezes considerado o maior culpado pelo problema de drogas com Elvis, mas havia muitos outros médicos. Que opinião você tem do Dr. Nick, boa ou má?
O Dr. Nick tentou ajudar Elvis. Elvis era uma pessoa com personalidade muito forte e fazia exatamente aquilo que queria, na maior parte dos casos. Na minha opinião, o Dr. Nick era bom.

Quando ia em turnê com Elvis, qual era seu principal trabalho?
Basicamente apenas fazer-lhe companhia. Nos anos finais, muitas vezes éramos só eu e ele. Eu era o parente e a pessoa mais próxima dele. Houve noites em que passávamos horas e horas no quarto dele, só conversando. Só eu e a Jo, com Elvis e a Linda.

Elvis alguma vez lhe sugeriu a ideia de viajar além-mar? Acha que foi uma oportunidade perdida?
Claro, Elvis queria muito fazer turnês fora dos Estados Unidos. Mas o coronel sempre se opôs a isso.

Então acha que o seu relacionamento com o coronel mudou ao longo dos anos?
Acho que sim. No início eu admirava muito o coronel. Tinha um olhar muito forte e olhos azuis penetrantes. Via-se logo que era uma pessoa sob  controle. Quando fiquei mais velho, vi que as coisas começaram a mudar entre Elvis e o Coronel. Ele começou a embirrar com os rapazes, incluindo eu, para obter informações da nossa parte. O Coronel sempre gostou de mim e da minha família, mas a minha lealdade era sempre para com Elvis.

De quais shows guarda excelentes recordações?
De todos!

Você visitou Elvis durante o período em que não estava trabalhando para ele e esteve a cuidar do seu pai doente?
Visitei sempre Elvis quando ele estava em Memphis, enquanto o meu pai esteve doente. Também fui a Vegas vê-lo e sempre pudemos conversar sobre tudo. Conversávamos sempre sobre a família. Acho que era por isso que éramos tão amigos… sempre tivemos a família e os primeiros anos em comum. Elvis era uma forma de vida para mim, para a Jo e os nossos dois filhos. Às vezes foi difícil, mas também tivemos muitas oportunidades que nunca teríamos tido se não tivesse sido por Elvis. Adoramos ter participado do seu mundo. Sentimo-nos abençoados por ter estado com ele. E ele permanecerá para sempre nos nossos corações.

Como parente, alguma vez conseguiu falar com Elvis sobre seu consumo de medicamentos? O que ele dizia?
Elvis evitava falar sobre o seu consumo de medicamentos, porque, para Elvis, isso não era um problema. E também nos dizia que o melhor era cuidarmos de nós mesmos. Ele dizia: “Sei o que é melhor para mim.”

Sabe por que motivo Vernon não se impôs perante o consumo de drogas de Elvis? Não teria sido ele a pessoa a quem Elvis teria dado  mais ouvidos?
Não sei por que razão o tio Vernon não se esforçou mais para fazer Elvis mudar. Todos nós tentámos à nossa maneira, mas Elvis não queria mudar. Ele mesmo é quem devia se ajudar. Mas não o fez.

Em 1975 Elvis fez uma cirurgia plástica nos olhos. Acha que isso mudou o seu aspecto e é verdade que tentou convencê-lo a não fazer a cirurgia?
Sim, Elvis fez a operação e a Linda, a Jo e eu ficamos com ele no hospital. Sim, eu tentei mesmo convencê-lo a não fazer a operação. Ele não precisava daquilo, tinha um aspecto ótimo. Como se pode melhorar a perfeição? Até mesmo o médico lhe disse isso. Mas ele queria fazer e fez!

É óbvio que Elvis confiava muito em você. Pode contar-nos sobre o fato dele se deitar com você e Jo para partilhar os seus pensamentos?
Muitas vezes deitávamos juntos em Graceland quando passávamos a noite no quarto da Lisa, ou em turnê no hotel. Por isso, sim, acredito que ele depositava uma grande confiança em mim, como eu também depositava nele. Às vezes ele tinha um pesadelo e vinha me contar e depois acabava adormecendo ao nosso lado, na cama. Isso aconteceu muitas vezes e não nos importávamos com isso. Sabia bem que precisava de mim por perto.

Quando se escutam as gravações das sessões feitas em Graceland, há vezes em que Elvis parece feliz e outras vezes não. Do que se recorda destas sessões de gravação feitas em Graceland?
Acho que as sessões em Graceland foram boas. Por algum motivo Elvis decidiu tocar baixo em “Blue Eyes Crying in the  Rain” e lembro-me de Elvis se rir quando o J.D. atingiu uma nota bem baixa em “Way Down”. Elvis divertiu-se nessas sessões.

Como foram as últimas férias no Hawaii?
Isso foi em Março de 1977. Divertimo-nos à beça. Elvis pareceu gostar muito. Mas levou areia num olho e ficou com uma infecção, por isso tivemos de regressar mais cedo que o planejado.

Que opinião tem do livro de Red e Sonny, “Elvis: What Happened”? Elvis falou-lhe sobre isso e tentou impedir a sua publicação?
Sim, li o livro do Red e do Sonny e contei a Elvis sobre o conteúdo. Ele ficou aborrecido com isso. Conversamos muito sobre o livro e ele não queria que fosse publicado.

Na última noite da vida de Elvis, você jogou raquetebol com ele e depois ele sentou-se e tocou piano. “Blue Eyes Crying in the  Rain” foi a última canção que ele cantou ao piano? Ele estava bem disposto?
Elvis parecia estar lento e não na melhor das formas. Tentava fazer as coisas e manter-se ativo, mas não conseguia direito. Às vezes Elvis ficava indisposto, mas estava ansioso pela turnê que estava próxima. Na sua última noite, Elvis, Ginger, Jo e eu fomos para o edifício do raquetebol e jogámos um ou dois jogos. Ele estava muito bem disposto, mas não chegou a jogar nenhuma partida a sério. Na maior parte das vezes tentou foi atingir-me com a bola. Nos sentamo-nos à volta do piano e, sim, ele cantou “Blue Eyes Crying in the  Rain”. Brincava e ria-se. Depois voltamos para casa. Fui para o andar de cima com ele e o ajudei a preparar-se para ir deitar. Ele abraçou-me e disse, “Adoro-te e boa noite… esta vai ser uma turnê excelente!”

Ninguém consegue entender porque, em seu testamento, Elvis não teria deixado algo para você, depois de todo o tempo que cuidou dele. O que sente em relação a isto?
Sim, eu vi um testamento diferente. Elvis atualizou o seu testamento antes de ir para o Hawaii em Março de 1977. Me entregou para que eu lesse para ele em voz alta. Depois de ele morrer a minha prima Patsy ligou perguntando se eu sabia onde estava esse testamento. O tio Vernon andava à procura dele. Cometei que Elvis tinha-me dito a mim e à Jo que, enquanto vivêssemos com ele, cuidaria sempre de nós. E foi o que fez.

Depois de Elvis morrer você trabalhou como guia turístico em Graceland por uns tempos. O que aconteceu ali e o que sente em relação a Graceland agora?
Sim, ajudei a montar a sala dos troféus e fui supervisor dos guias turísticos por uns tempos em Graceland. Fui, posteriormente, despedido – tentei telefonar para Priscilla, mas ela nunca retornou às minhas chamadas. Não tenho boas recordações de tudo dessa época. Mas eles fizeram o que entenderam ser melhor. Graceland foi a minha casa durante muitos anos e adorava-a enquanto Elvis viveu ali. Era uma casa com uma grande sensação de amor. Depois de Elvis ter morrido, deixou de ser uma casa, e essas sensações também desapareceram.

O que acha da forma como Priscilla lidou com a gestão do patrimônio após a morte de Elvis?
Acho que Priscilla fez um excelente trabalho. Fez muito dinheiro!
[...]
Não sei nada dos negócios de Graceland e realmente, nem me interessa. Tivemos Graceland durante os bons tempos e as recordações que tenho dela ficarão comigo para sempre. Tenho tantas. Toda a família, os fãs, os rapazes – não trocaria nada disso por nada neste mundo. Lembro-me quando nos mudámos para lá pela primeira vez. Eu achava que tinha ido para o Céu. A tia Gladys, os meus pais e irmãos, todos os meus primos, Elvis, todos os meus muito amigos – divertimo-nos tanto. O Natal era sempre incrível. Elvis adorava Graceland e sei que qualquer pessoa que ali tenha passado algum tempo, também a adorou.

Qual é a sua recordação favorita de Elvis, e que sempre lhe traz felicidade?
Oh, não seria capaz de escolher uma recordação favorita. Tenho tantas. Ficaria aqui para sempre só para responder a isso! Adorava o tempo que passávamos em casa, quando nos juntávamos todos para nos divertir e fazer as coisas malucas que fazíamos. Tudo o que fizemos se destaca!

Sonha com Elvis? Ele ainda fala com você?
Às vezes sonho com ele e ele fala comigo a toda a hora de muitas maneiras. Não há um dia que passe em que não pense nele e em algo que ele me disse. E isso ocasiona um sorriso ou uma lágrima. Seja como for, sinto-me grato!

Muito obrigado por reservar este tempo para responder a todas estas perguntas; sabe que os fãs apreciam muito este seu gesto. É um verdadeiro sobrevivente e um autêntico cavalheiro.
Muito obrigado por me ter feito as perguntas!


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