OUVINDO E APRENDENDO
Algumas das minhas
melhores recordações vêm das vezes em que me sentava no balcão da cozinha de
Graceland, tomando café da manhã com tia Delta.
Muitas vezes éramos
as primeiras a tomar o café da manhã; logo em seguida as outras empregadas
também sentavam e comiam com ela, ou, se já tínhamos comido, tomavam uma xícara
de café com ela enquanto ela comia um pouco mais.
Ela normalmente comia
ovos, bacon, torradas, café com creme e açúcar. Comumente ela se levantava para
tornar a encher sua xícara com café fresco.
Às vezes parecia que
ela estava esperando por nós assim como frequentemente esperávamos por ela –
como uma verdadeira família.
Em seguida, após a
refeição matinal e várias xícaras de café, intercaladas com a programação da TV
em cima do balcão do outro lado de onde estávamos sentadas (que ainda hoje pode
ser vista nas excursões), tia Delta saía para cuidar das atividades diárias que
visavam o bom funcionamento da casa.
Um pouco mais tarde,
ainda de manhã (geralmente em torno das dez)
Dodger entraria na cozinha, com ótima aparência. Sempre vestida
impecavelmente, usando um dos seus lindos vestidos com um lenço combinando,
usando também um avental de marca. Ela se orgulhava de estar sempre paramentada
como uma típica e vaidosa senhora sulista.
A sua presença
iniciava a segunda rodada do "clube do café da manhã”. Deveríamos trazer
para ela café, um prato com biscoitos e uma tigela de molho de carne, para ela
derramar sobre os biscoitos. Poderíamos, então, sentar e beber mais café com
ela. Muitas vezes pensei que éramos as principais mantenedoras da indústria do
café e dos negócios de Memphis!
Foi durante aqueles
tempos, sentadas ao redor do balcão branco e bebendo café, que Dodger
compartilhou tantas lembranças da família Presley.
Ela me disse uma vez:
"Foi um pecado o irmão gêmeo de Elvis não ter sobrevivido. Foi culpa do
médico. Ele não teve competência suficiente para identificar a presença de dois
bebês ao invés de um. Eu disse a Vernon que o médico não era bom, mas Vernon
era jovem e não entendia dessas coisas. Eu pessoalmente teria corrido para
buscar outro médico fora da cidade, mas Vernon não me deixou fazer isso”.
Ela nos contou
histórias do tempo em que Elvis crescia. Ele pode ter se tornado uma estrela
quando adulto, mas o fato é que ele cresceu como qualquer outra criança pobre
que nasceu durante a Grande Depressão em Tupelo, Mississippi.
Dodger nos contou
como Vernon e Gladys não puderam pagar os remédios quando Elvis ficou doente.
Quando ele tinha dores de estômago, por exemplo, davam a ele doces de hortelã
com pimenta (embebidos durante a noite em aguardente) para acalmar-lhe o
estômago. O médico provavelmente não teria aconselhado isso, mas aparentemente
funcionava.
Dodger nos disse que
quando Elvis era pequeno, ela morava bem ao lado deles em Tupelo. "Ele era tão bonitinho”, contou. “Ele
costumava ficar bravo com Gladys por qualquer motivo e ia a pé até à minha
casa. Eu já sabia que ele estava chateado porque ele vinha com algumas de suas
roupas enroladas num saco de papel. Contava-me que havia fugido”.
“Quando Gladys
descobria que ele estava comigo, eu pedia para deixá-lo sob meus cuidados; eu o
levaria de volta depois que ele ficasse mais calmo”.
“Eu lembro que quando
Elvis era pequeno, ele brincava com algumas das crianças do lugar. Bem na
frente da casa deles havia uma vala com água. Um dia, Elvis, em um
"desafio," sentou-se na vala e ficou com a roupa toda encharcada. Eu
estava cuidando dele naquele dia, e quando ele entrou eu bati nele com uma
palmatória. Ele chorou e me prometeu que isso não aconteceria novamente. Ele
pareceu tão triste [e arrependido] que acabei chorando também”.
“Noutra ocasião eu vi
Gladys batendo nele. Quando perguntei o
que ele tinha feito para merecer as palmadas, ela me disse que ele chamara o
pai de ‘Vernon’ em vez de ‘pai’. Eu não suportei vê-lo levando a surra, então
implorei a Gladys que parasse de bater nele. Acredito que nunca mais Elvis
chamou seu pai de ‘Vernon’ novamente – pelo menos até à idade adulta”.
Dodger contou que
quando Elvis era bebê ele dormia metade do dia, se ninguém o acordasse. Muitas
vezes me perguntei se isso não seria um prenúncio de seus hábitos de sono, anos
mais tarde.
Ela nos disse que
Elvis tinha medo de seu avô, Jessie Presley, porque ele bebia muito. Ele chegava em casa
tarde da noite, depois de beber, e Elvis sempre tentava se esconder e ficar
longe dele. Ela disse que foi provavelmente por isso que Elvis nunca gostou de
estar perto de pessoas bêbadas. Não importa se fosse ou não da família, Elvis
se sentia muito desconfortável perto de bêbados. Ele quase enxotou tia Delta de
Graceland por causa das várias explosões de bebedeira dela na frente de Elvis e
seus amigos. Elvis a deixou ficar somente depois de um apelo choroso de Dodger.
Dodger contava-nos
várias histórias sobre Elvis cantando quando criança. "Nós sempre levamos
Elvis à igreja e ele cantava e batia palmas com suas pequenas mãos e gritando
‘aleluia’. Ainda posso vê-lo tão animado
quando o canto começava que ele corria até à frente da igreja perto do coro e
ficava simplesmente louco de emoção! Ele ficava ali, de frente para o público,
balançando para trás com a batida da música, totalmente alheio aos olhares
sorridentes de todos”.
Ela continuou:
"Ele cantava naturalmente. Tanto Gladys quanto Vernon tinham belas vozes
cantando. Ambos foram muito talentosos musicalmente, em seu tempo. Gladys fora
também uma excelente dançarina em sua mocidade, e tenho certeza que isso teve
algo a ver com a maneira como Elvis aprendeu a se requebrar.
Soube, de Dodger, que
Gladys tinha sido uma excelente cozinheira. Ela explicou, com orgulho, como
ajudou e ensinou Gladys a cozinhar depois de seu casamento com Vernon.
Dodger revelou como
ela mesma fora forçada a aprender a cozinhar muito jovem, porque a família dela
era tão pobre que ela precisou ajudar no sustento, cozinhando para pessoas doentes do bairro, que estavam
impossibilitadas de cozinhar.
Lembro dela me
dizendo certa manhã: "Eu cozinhei para pessoas negras e brancas, da mesma
forma, e isso não importa. Quando se é pobre, como nós éramos, todos tentamos
ajudar uns aos outros. Eu tive que aprender a cozinhar, pois só assim
poderíamos sobreviver”.
Ela me contou sobre a
primeira vez que tentou cozinhar. Ela tinha sete ou oito anos de idade. A mãe
dela tinha ido visitar uma amiga e ela decidiu fazer uma surpresa para a mãe,
quando ela voltasse, fazendo alguns pães de milho.
"Eu não sabia
como preparar isso, mas eu lembrei como minha mãe misturava os ingredientes;
então misturei a farinha de milho com água e cozinhei. Quando minha mãe chegou,
eu disse: 'Fiz alguns pães de milho para você’. Minha mãe provou e, delicadamente,
disse: ‘Está muito bom, mas da próxima vez tente colocar alguma banha e farinha
neles’”.
“Depois disso, ela
decidiu que era hora de me ensinar a cozinhar. Ela me pôs sobre uma caixa de
madeira ao lado do fogão e me deixou vê-la enquanto ela preparava as refeições
para a família. Ela cozinhou no que eu chamo de velho estilo do Sul, ‘suave e
lento’. Eu ensinei esse método para Gladys e esse é o estilo de cozinhar que Elvis
conheceu desde pequeno. Ele amava esse estilo de cozinhar até o dia de sua
morte”.
Ao longo dos anos em
que estive em Graceland, Dodger me ensinou como cozinhar certos alimentos. Me
ensinou a fritar tomates verdes e fazer sopa de tomate à moda antiga. Ela
insistia em comer presunto defumado somente quando estavam frios. Ela me
ensinou que carne de porco só ficava boa quando cozida lentamente, até ficar bem
macia.
Em outra ocasião, ela
relatou como tivera diferentes desejos de comida com cada um de seus filhos
durante as gestações. Estávamos sentadas no balcão da cozinha tomando o café da
manhã quando ela me falou sobre isso.
"Quando eu estava
grávida de Vernon," disse, “tive ânsia de cheirar rapé. Com Gladys (uma de
suas filhas) foi peixe, enquanto Vester fez-me desejar uísque”. Ela então riu
ao concluir sobre outra filha, Nash. "Ela fez-me desejar sujeira!"
"Vernon e Delta
parecem mais com o pai deles; Jessie, Vester, Gladys e Nash parecem mais
comigo”.
"Minha mãe
sempre me chamava para fazer as coisas, já que eu não era preguiçosa. Eu sempre
era a primeira a levantar de manhã e acendia o fogo no fogão. Então nós todos
tínhamos que ajudar, serrando a madeira, alimentando e ordenhando as vacas,
recolhendo os ovos, alimentando as galinhas. Era uma vida difícil para quem
estava crescendo naquela época. O problema com as crianças de hoje é que elas
têm tudo muito fácil”.
Eu apenas sorria e
dizia: "Você está certa, vovó”.
Ela muitas vezes
falou sobre como lamentava não ter ido muito longe na escola. "Os pais, naquela
época", ela explicou, "acreditavam nas crianças que trabalhavam em
casa. Meu pai costumava sair para o trabalho no início da manhã para tentar
ganhar dinheiro que desse para termos roupa para vestir e alimentos para comer.
Ele cortava os nossos cabelos para poupar dinheiro, e eu estava sempre levando
uma surra porque não gostava da maneira como ele cortava. Eu queria cortar o
meu cabelo de uma forma diferente, e isso o deixava furioso. Ainda bem jovem
comecei a ficar com cabelos brancos e eu odiava isso”.
Acho que foi por isso
que ela começou a tingir de preto o cabelo em seus últimos anos, porque ela
estava determinada a nunca mais ter cabelos brancos de novo. Uma vez ela me
disse que aconselhara Elvis a pintar o cabelo dele também, o que, claro, ele
começou a fazer.
Dodger também falava
sobre Elvis e Vernon. Uma vez ela me disse: “Elvis me disse: ‘Eu quero que papai
seja feliz, mas não me agrada vê-lo casado com Dee. Ninguém jamais vai tomar o
lugar da mamãe’”.
Ela explicou que,
depois que Dee e Vernon se casaram em 1960, os dois se mudaram para o antigo
quarto de Gladys no andar de baixo, deixando Elvis louco de raiva. Ele não
podia suportar a ideia de outra mulher dormindo na cama de Gladys.
Depois foi decidido
que eles morariam na casa na rua Dolan, virando à esquina de Graceland. Dessa
forma, Vernon ainda ficaria por perto, mas pelo menos Dee ficaria morando em
Graceland.
Ela achava tão
irônico Vernon se preocupar tanto com Elvis e Elvis se preocupar tanto com
Vernon!
Nossas conversas muitas
vezes acabavam se voltando para a própria Dodger. Ela me contou sobre como
Jessie, seu marido, tinha outra namorada antes deles se casarem.
A garota fizera três
vestidos de noiva, esperando Jessie pedir para se casar com ela, mas Jessie
disse que Dodger era mais bonita, por isso acabou casando com ela. Ela passou a
dizer com tristeza como Jessie havia mudado; ela desejou que a outra tivesse
ficado em seu lugar. Ela disse: "Metade do tempo ele sumia, na outra
metade estava bêbado!"
"Ele nunca
deixava qualquer comida em casa, não ajudava a criar os filhos. Todos os meus
cinco filhos se casaram muito jovens apenas para ficar longe do pai deles,
porque ele os tratava tão mal”.
Compartilhávamos
histórias engraçadas também - como o tempo em que a filha dela, tia Delta, era
jovem e ganhou uma galinha. Por alguma razão a galinha começou a perder todas as
penas, e tia Delta fez um par de calças roxas para ela. Dodger descreveu a cena
de tia Delta perseguindo a galinha nua tentando colocar um par de calças nela.
Todos nós caímos na gargalhada com essa história.
Também cochichávamos
sobre os diálogos quase diários de Dodger com um velho jardineiro que fora
contratado por Elvis. O homem, embora muito agradável e atencioso, não escutava
direito e, quando ele perguntava como a “sra. Minnie” estava se sentindo (isso
acontecia praticamente todos os dias quando se viam), ela costumava dizer:
"Oh, eu não estou me sentindo muito bem hoje”. Sem entender direito ele
respondia: "Bom, eu estou feliz que hoje você está se sentindo
melhor". Ele então ia embora.
Chegou um tempo em
que Dodger apenas sorria e agradecia. Então, quando uma de nós passava, ela
sussurrava: "Esse pateta velho não ouviu absolutamente nada do que eu
disse!" Isso, claro, nos rendia muitas risadas ao longo dos anos.
Também discutíamos a
paixão de Dodger por roupas. Uma vez ela me disse que pensava muitas vezes em
ter vestidos para combinar com cada cor do arco-íris. Eu disse que o vestido
que casava-lhe melhor era um cor de rosa com renda branca na frente. Depois que
ela morreu, tia Delta lembrou o quanto eu o apreciava e me deu de recordação
para lembrar da mãe dela. Até hoje guardo esse vestido.
Algumas de minhas
valiosas lembranças de Dodger são de nós duas sentadas na varanda da frente,
observando os fãs se reunindo no portão principal. Ela amava contemplar todas
as flores plantadas ao redor do alpendre, e sempre comentava sobre a beleza
delas. Earl Pritchett, o jardineiro, plantava algumas flores à direita, fora da
janela do quarto dela, para que ela pudesse apreciá-las. Depois que ela ficou
um pouco mais velha, passava mais tempo confinada em seu quarto.
Dodger também gostava
de cantar. Em seu quarto sentávamos no banco do piano e cantávamos juntas, enquanto
ela tocava. Cantamos muitas músicas diferentes ao longo dos anos, mas parecia
que nossos "concertos” sempre terminavam com uma empolgante versão de "Jesus
é o amigo que nós temos”. Era uma de suas canções favoritas.
Ela tocava
praticamente qualquer tipo de instrumento. Brincando, eu sempre dizia a ela que
lhe tinha inveja por ela saber tocar tantos tipos diferentes; ela, por sua vez,
constantemente tentava me ensinar a tocar. Certa vez ela me deu uma gaita que
Elvis lhe dera, e tentou me ensinar a tocar. Mandou que eu levasse a gaita para
casa e treinasse à noite; no dia seguinte ela veria se eu tinha aprendido
alguma coisa. Naquela noite, de fato, eu tentei tocar (meu marido até ajudou),
mas eu não consegui manusear bem a gaita. No dia seguinte os meus dedos estavam
tão doloridos que mal consegui passar o dia trabalhando. Vovó apenas riu e me
disse para continuar praticando. Apesar de eu nunca ter aprendido a tocar a
gaita ou qualquer outro instrumento, Dodger insistia em me ensinar.
Embora não tão
beberrona quanto tia Delta, ela gostava de "tomar uns goles ocasionais
depois do café da manhã”, como ela costumava dizer. Ela então sentava na
cadeira do quarto para tirar um cochilo. Sempre tive o cuidado de acordá-la a
tempo para que ela assistisse sua novela preferida "Como Gira o Mundo”.
Quando eu gentilmente lhe cutucava o ombro, acordando-a para assistir a novela,
ela sempre dizia, disfarçando: "Eu não estava dormindo, só estava com os
olhos fechados por um tempo”.
Ela amava sentar em
sua cadeira de balanço, a poucos passos da porta de seu quarto, perto da sua cama.
Ela acabava dormindo lá à noite e então tínhamos que acordá-la e levá-la para a
cama. Mas ela não gostava de dormir na cama. Se ela amanhecia na cama era
porque estava doente; quando não, ela ia direto para sua cadeira – depois de se
banhar e maquiar.
Geralmente, pela
manhã, costumávamos fazer uma “brincadeira”:
Vovó perdeu os poucos
membros da família que ainda tinha, e não chegou a vê-los muitas vezes. Ela
tinha sete irmãos e irmãs, e todos eles continuaram a viver no Mississippi. Na
ocasião ela se sentia solitária, e fingia estar ainda vivendo em Tupelo, e que
estava apenas visitando Memphis. Após o nosso café da manhã, eu ia a outra
parte da casa para começar minhas tarefas, e ela dizia: "Bem, a visita foi
agradável, mas agora eu tenho que voltar para casa." E eu respondia:
"Claro, foi ótimo ter você aqui, volte sempre." Nós duas ríamos
muito, mas, de certa forma, ficava triste pelo fato dela realmente ter perdido
sua família.
Ela precisava usar
colírio várias vezes ao dia. Ela me disse que realmente apreciava a minha forma
de aplicar-lhe o colírio. Ela um dia me confidenciou: "Você faz um
trabalho tão bom; eu gostaria que você pudesse fazer isso o tempo todo. Delta
parece que se sente na obrigação de fazer isso por mim e eu não quero magoá-la.
As mãos dela tremem tanto que às vezes derrama o colírio todo em cima de mim”.
Quando ela ficou mais
velha e sua saúde começou a deteriorar-se, sua filha, Nash, uma ministra
ordenada, chamou todos nós para o quarto de sua mãe. Fizemos um semicírculo, de
mãos dadas, em torno de sua cama, enquanto Nash orava em voz alta pela cura de
Dodger.
Dodger, ao
envelhecer, me pedia para fazer-lhe canja de galinha, e eu cortava pedaços de
melão para ela comer. Ela disse que era a única coisa que sentia que podia
comer.
Ela comentou comigo
em diversas ocasiões que não estava certo que Elvis e depois o filho dela,
Vernon, tivessem morrido antes dela. “Eu deveria ter morrido antes deles”,
dizia. “Isso não está certo!" Às vezes ela ficava realmente angustiada por
isso.
Eu acho que ela nunca
superou a morte de Elvis. Várias vezes lhe sugeri que lhe faria bem se ela
fosse visitar o túmulo dele e o de Vernon, no Jardim da Meditação. Mas ela
respondia que não achava bom ficar vendo os dois túmulos, lado a lado.
Tia Delta e eu, numa
ocasião, finalmente a convencemos a levá-la, em sua cadeira de rodas, a uma
curta distância dos túmulos. O sol brilhava e era um lindo dia, e achei que ela
se sentiria melhor ao ver o belo aspecto dos túmulos. Mas, após alguns minutos,
ela ficou tão perturbada que tivemos de levá-la de volta para casa.
Demorou vários dias
para ela superar essa experiência. Felizmente, ela tinha a filha para cuidar
dela. Tia Delta procurava cuidar de sua mãe da melhor forma.
Tia Delta era bastante
espirituosa, às vezes. Era rápida em dizer o que pensava, muitas vezes dizendo
antes de pensar nas possíveis consequências.
Eu a conheci melhor
depois que passei a trabalhar em Graceland. Elvis tinha acabado de comprar o
rancho "Circle G" no Mississippi em 1967, e Priscila e todos os caras
[da Máfia de Memphis] passariam vários dias, às vezes semanas, nesse rancho.
Delta e eu íamos até o rancho em seu Cadillac branco para limpar tudo, depois
que Elvis e o grupo saíam de lá. Durante essas viagens diárias, tia Delta e eu
nos tornamos boas amigas e ela me confidenciou um monte de coisas.
Muita gente acha que
ela disse e fez coisas sem se importar com os sentimentos dos outros. Eu posso
entender porque eles acham isso, mas eu também vi o lado bondoso e terno dela.
Ela parecia não ser capaz de chegar perto de muitas pessoas e, consequentemente,
foi considerada por alguns como uma "mulher solitária". Então, muitas
vezes ela dizia coisas que me deixavam magoada, apenas para voltar mais tarde e
pedir desculpas; muitas vez ela me dava um pequeno presente para “compensar a
ofensa”. Uma vez ela me disse: "Às vezes não sei mesmo por que digo o que
digo e faço o que faço. Acho que apenas não penso”.
George Coleman me contou
sobre o tempo que ele e Patsy ficavam sentados no escritório conversando. Havia
uma câmera lá atrás para que eles pudessem ver quem estava entrando pelo portão
da frente.
George me disse que
havia uma mulher enorme e gorda que frequentemente entregava cartas na mansão.
Neste dia em particular, Patsy e George viram o "contorno
inconfundível" da mulher entrando na casa e depois saindo, e Patsy fez
então uma piada sobre o “contorno”. Ambos riram, coincidindo com o momento em
que tia Delta estava entrando no escritório; ela, erradamente, entendeu que estavam
rindo dela. George contou que ela explodiu de raiva e amaldiçoou os dois, antes
de sair do escritório. Patsy foi correndo atrás dela e finalmente a convenceu de
que eles não estavam rindo dela. Ela mais tarde pediu desculpas a eles.
Ela sempre procurou
garantir que tudo funcionasse bem em Graceland. Ela era rigorosa com detalhes,
e não tinha muita paciência quando as coisas não eram feitas do jeito que ela
achava apropriado. Em mais de uma ocasião, ela mesma, depois de alguns goles de
whisky, criava bagunças pela casa, jogando alguns itens dos móveis na parede.
Ela, então, chamava desesperadamente George Coleman, o habilidoso eletricista de
Graceland, para ele consertar os danos antes de Elvis chegar em casa (às vezes
ela o chamava no meio da noite).
George sempre consertava
tudo e cuidava para que todos os problemas fossem corrigidos. Essas coisas
sempre permaneceram estritamente entre ela e George.
Ela se vestia de
forma muito simples, geralmente usando calças e uma blusa, e, mesmo adorando
comprar roupas, ela tinha muitas roupas legais. Na verdade tinha tantas que não
cabiam completamente no seu armário de roupas. Nós guardávamos um monte delas
em outro armário, no final do corredor principal.
Ela era uma fumante
compulsiva, e andava tarde da noite com seu cachorro ao redor do quintal de
Graceland, enquanto fumava, assustando, às vezes, o guarda noturno que fazia a
ronda pela área dos fundos de Graceland. Um dos guardas me disse uma vez que
ela teve sorte de nunca ter sido baleada acidentalmente pelo guarda noturno, porque
ela não fazia nenhum barulho enquanto calmamente caminhava com seu cachorro e
fumava. Com frequência ela perambulava por todo o terreno atrás da propriedade.
Isso se tornou uma
preocupação para aqueles que trabalhavam no turno da noite, pois ela muitas
vezes esquecia de reiniciar o alarme de invasão na porta de acesso à Sala da
Selva, quando ela retornava dos passeios.
Tínhamos de verificar
constantemente para ter certeza de que o alarme fora reiniciado depois de ela
entrar, e para lembrá-la, com educação, que ela não esquecesse de ajustar o
alarme ao entrar. Tínhamos, às vezes, de lembrar a nós mesmas (especialmente
depois da morte de Dodger) que a casa agora “pertencia” a tia Delta, e usávamos
de cautela quando falávamos para ela sobre o alarme.
Uma pequena crise
começou quando Priscilla acatou a ideia de abrir Graceland para o público, no
início dos anos 1980.
Tia Delta considerava
que a casa lhe pertencia, dizendo para quem quisesse ouvir que Elvis tinha dito
isso a ela muitas vezes, enquanto ele ainda estava vivo, que ela poderia morar
em Graceland. Ela às vezes ficava muito chateada, e chamava nomes [feios] com
Priscilla, e dizendo: "Eu não posso acreditar que eles vão abrir a minha
casa para o público. Eles sabem que eu não terei mais privacidade! Minha vida
será miserável. vou ter que me mudar, talvez morar num trailer. Eu não posso
suportar isso!” Passamos muito tempo tentando confortá-la, e convencê-la de que ela não estava sendo
expulsa da casa. Com o tempo, ela finalmente entendeu que essa medida era
necessária - impediria a mansão de entrar em falência.
Tentar descobrir uma
maneira de guiar os turistas em torno da residência, no entanto, tornou-se uma
preocupação logística para todos os funcionários de Graceland.
Uma série de reuniões
de planejamento foi realizada na mesa da sala de jantar antes da casa ser
aberta para as excursões. Durante uma dessas reuniões, cozinhamos o jantar para
Priscilla, Todd Morgan, e vários outros funcionários, conforme eles discutiram
suas ideias sobre como abrir a mansão.
Priscilla tinha vindo
de Los Angeles na noite anterior, e Patsy, prima de Elvis, havia emprestado o
Cadillac branco de tia Delta para ir buscá-la no aeroporto. Quando tia Delta
descobriu que o carro dela estava sendo usado para conduzir Priscilla, ela teve
um ataque de raiva. Durante cinco minutos ela continuamente reclamou sobre ela
não ter mais nenhum direito na casa, agora que Elvis estava morto. Custou-nos
uma eternidade para acalmá-la.
No dia seguinte ela
ficou na cozinha, enquanto servíamos para eles frango frito, molho, salada de
batata, e vários tipos de sobremesa.
Tia Delta, que não queria
ver nenhum deles, me disse: "Nancy, quando você levar o café para eles,
tente ouvir o que dizem”. Eu deveria, então, voltar para a cozinha e enchê-la
de detalhes, à medida que a conversa se desenrolava. Fiquei me sentindo uma
espiã, correndo da sala de jantar para a cozinha, indo e voltando, a noite
toda.
Em certo ponto [da
reunião], convidaram-na para a sala de jantar e alguém lhe perguntou o que ela
achava da ideia de comprar-lhe uma nova casa para viver. Ela prontamente
respondeu: "Eu já tenho uma bela casa, obrigada”, e, de imediato, retornou
à cozinha.
Tudo foi finalmente
acertado e a mansão foi aberta ao público. Não quer dizer que não houve
problemas, especialmente no início.
Os planejadores
decidiram que os turistas não atravessariam a área da cozinha, já que era uma
área que tia Delta frequentava e onde ela fazia suas refeições. Estavam tentando
ser o mais justo possível com ela e não afetar o seu modo de vida, mais do que
já tinham afetado.
Mas a influência dela
não podia ser ignorada.
Em mais de uma
ocasião, especialmente depois de tomar alguns goles de whisky, tia Delta saía
para o corredor, muitas vezes vestida de roupão, com o cabelo cheio de bobes e
um cigarro pendurado na boca, vociferando contra os visitantes assustados:
"Deem o fora da minha casa!" Muitas vezes me perguntei que tipo de
pensamentos passou pela mente deles quando isso acontecia.
Ela não estava nada
feliz em ter que compartilhar o que ela considerava "sua casa" com
estranhos. Conforme o tempo passava, as coisas se acalmaram um pouco, mas
estávamos sempre atentas para garantir que ela não ofenderia um "convidado
pagante." (Um convidado uma vez perguntou a um dos seguranças como estava
indo a tia Delta, e o guarda respondeu: "Ela está bem, agora que
escondemos as armas e as munições da vista dela.")
As coisas mudaram
muito, pouco depois da morte de Dodger, à medida em que o funcionamento da casa
seguia como sempre. Todo o foco mudou para cuidar das necessidades da tia
Delta, e essas necessidades se tornaram mais críticas quando ela começou a
sentir os efeitos da velhice.
Nos últimos tempos,
ela não podia mais sair da cama e nós tivemos que fazer tudo por ela. Foi tão
triste vê-la definhar tão rapidamente. Ela era tão vibrante e tão cheia de energia,
quando comecei a trabalhar em Graceland!
Quando ela morreu, em
1993, a cozinha foi adicionada às excursões.
Uma parte de
Graceland morreu com tia Delta, a última ocupante de uma grande e antiga mansão
que tinha visto mais do que a sua quota de bons e maus momentos.
Permanece, até hoje, uma
mansão com muitas memórias para compartilhar.
Isto é um trecho de "Dentro de Graceland", de autoria de Nancy Rooks, ex-empregada de Elvis Presley, um testemunho precioso do dia-a-dia do rei do rock, cobrindo os últimos 10 anos de sua vida. A tradução em português é de Roseane Maria Silva, e eu tive o privilégio de revisar o texto e compilar o e-book em PDF. Baixe-o gratuitamente aqui.

Comentários
Postar um comentário