Dentro de Graceland - Capítulo 3




OUVINDO E APRENDENDO

Algumas das minhas melhores recordações vêm das vezes em que me sentava no balcão da cozinha de Graceland, tomando café da manhã com tia Delta.
Muitas vezes éramos as primeiras a tomar o café da manhã; logo em seguida as outras empregadas também sentavam e comiam com ela, ou, se já tínhamos comido, tomavam uma xícara de café com ela enquanto ela comia um pouco mais.
Ela normalmente comia ovos, bacon, torradas, café com creme e açúcar. Comumente ela se levantava para tornar a encher sua xícara com café fresco.
Às vezes parecia que ela estava esperando por nós assim como frequentemente esperávamos por ela – como uma verdadeira família.
Em seguida, após a refeição matinal e várias xícaras de café, intercaladas com a programação da TV em cima do balcão do outro lado de onde estávamos sentadas (que ainda hoje pode ser vista nas excursões), tia Delta saía para cuidar das atividades diárias que visavam o bom funcionamento da casa.
Um pouco mais tarde, ainda de manhã (geralmente em torno das dez)  Dodger entraria na cozinha, com ótima aparência. Sempre vestida impecavelmente, usando um dos seus lindos vestidos com um lenço combinando, usando também um avental de marca. Ela se orgulhava de estar sempre paramentada como uma típica e vaidosa senhora sulista.
A sua presença iniciava a segunda rodada do "clube do café da manhã”. Deveríamos trazer para ela café, um prato com biscoitos e uma tigela de molho de carne, para ela derramar sobre os biscoitos. Poderíamos, então, sentar e beber mais café com ela. Muitas vezes pensei que éramos as principais mantenedoras da indústria do café e dos negócios de Memphis!
Foi durante aqueles tempos, sentadas ao redor do balcão branco e bebendo café, que Dodger compartilhou tantas lembranças da família Presley.
Ela me disse uma vez: "Foi um pecado o irmão gêmeo de Elvis não ter sobrevivido. Foi culpa do médico. Ele não teve competência suficiente para identificar a presença de dois bebês ao invés de um. Eu disse a Vernon que o médico não era bom, mas Vernon era jovem e não entendia dessas coisas. Eu pessoalmente teria corrido para buscar outro médico fora da cidade, mas Vernon não me deixou fazer isso”.
Ela nos contou histórias do tempo em que Elvis crescia. Ele pode ter se tornado uma estrela quando adulto, mas o fato é que ele cresceu como qualquer outra criança pobre que nasceu durante a Grande Depressão em Tupelo, Mississippi.
Dodger nos contou como Vernon e Gladys não puderam pagar os remédios quando Elvis ficou doente. Quando ele tinha dores de estômago, por exemplo, davam a ele doces de hortelã com pimenta (embebidos durante a noite em aguardente) para acalmar-lhe o estômago. O médico provavelmente não teria aconselhado isso, mas aparentemente funcionava.
Dodger nos disse que quando Elvis era pequeno, ela morava bem ao lado deles em Tupelo.  "Ele era tão bonitinho”, contou. “Ele costumava ficar bravo com Gladys por qualquer motivo e ia a pé até à minha casa. Eu já sabia que ele estava chateado porque ele vinha com algumas de suas roupas enroladas num saco de papel. Contava-me que havia fugido”.
“Quando Gladys descobria que ele estava comigo, eu pedia para deixá-lo sob meus cuidados; eu o levaria de volta depois que ele ficasse mais calmo”.
“Eu lembro que quando Elvis era pequeno, ele brincava com algumas das crianças do lugar. Bem na frente da casa deles havia uma vala com água. Um dia, Elvis, em um "desafio," sentou-se na vala e ficou com a roupa toda encharcada. Eu estava cuidando dele naquele dia, e quando ele entrou eu bati nele com uma palmatória. Ele chorou e me prometeu que isso não aconteceria novamente. Ele pareceu tão triste [e arrependido] que acabei chorando também”.
“Noutra ocasião eu vi Gladys batendo nele. Quando  perguntei o que ele tinha feito para merecer as palmadas, ela me disse que ele chamara o pai de ‘Vernon’ em vez de ‘pai’. Eu não suportei vê-lo levando a surra, então implorei a Gladys que parasse de bater nele. Acredito que nunca mais Elvis chamou seu pai de ‘Vernon’ novamente – pelo menos até à idade adulta”.
Dodger contou que quando Elvis era bebê ele dormia metade do dia, se ninguém o acordasse. Muitas vezes me perguntei se isso não seria um prenúncio de seus hábitos de sono, anos mais tarde.
Ela nos disse que Elvis tinha medo de seu avô, Jessie Presley,  porque ele bebia muito. Ele chegava em casa tarde da noite, depois de beber, e Elvis sempre tentava se esconder e ficar longe dele. Ela disse que foi provavelmente por isso que Elvis nunca gostou de estar perto de pessoas bêbadas. Não importa se fosse ou não da família, Elvis se sentia muito desconfortável perto de bêbados. Ele quase enxotou tia Delta de Graceland por causa das várias explosões de bebedeira dela na frente de Elvis e seus amigos. Elvis a deixou ficar somente depois de um apelo choroso de Dodger.
Dodger contava-nos várias histórias sobre Elvis cantando quando criança. "Nós sempre levamos Elvis à igreja e ele cantava e batia palmas com suas pequenas mãos e gritando ‘aleluia’. Ainda posso vê-lo  tão animado quando o canto começava que ele corria até à frente da igreja perto do coro e ficava simplesmente louco de emoção! Ele ficava ali, de frente para o público, balançando para trás com a batida da música, totalmente alheio aos olhares sorridentes de todos”.
Ela continuou: "Ele cantava naturalmente. Tanto Gladys quanto Vernon tinham belas vozes cantando. Ambos foram muito talentosos musicalmente, em seu tempo. Gladys fora também uma excelente dançarina em sua mocidade, e tenho certeza que isso teve algo a ver com a maneira como Elvis aprendeu a se requebrar.
Soube, de Dodger, que Gladys tinha sido uma excelente cozinheira. Ela explicou, com orgulho, como ajudou e ensinou Gladys a cozinhar depois de seu casamento com Vernon.
Dodger revelou como ela mesma fora forçada a aprender a cozinhar muito jovem, porque a família dela era tão pobre que ela precisou ajudar no sustento, cozinhando para  pessoas doentes do bairro, que estavam impossibilitadas de cozinhar.
Lembro dela me dizendo certa manhã: "Eu cozinhei para pessoas negras e brancas, da mesma forma, e isso não importa. Quando se é pobre, como nós éramos, todos tentamos ajudar uns aos outros. Eu tive que aprender a cozinhar, pois só assim poderíamos sobreviver”.
Ela me contou sobre a primeira vez que tentou cozinhar. Ela tinha sete ou oito anos de idade. A mãe dela tinha ido visitar uma amiga e ela decidiu fazer uma surpresa para a mãe, quando ela voltasse, fazendo alguns pães de milho.
"Eu não sabia como preparar isso, mas eu lembrei como minha mãe misturava os ingredientes; então misturei a farinha de milho com água e cozinhei. Quando minha mãe chegou, eu disse: 'Fiz alguns pães de milho para você’. Minha mãe provou e, delicadamente, disse: ‘Está muito bom, mas da próxima vez tente colocar alguma banha e farinha neles’”.
“Depois disso, ela decidiu que era hora de me ensinar a cozinhar. Ela me pôs sobre uma caixa de madeira ao lado do fogão e me deixou vê-la enquanto ela preparava as refeições para a família. Ela cozinhou no que eu chamo de velho estilo do Sul, ‘suave e lento’. Eu ensinei esse método para Gladys e esse é o estilo de cozinhar que Elvis conheceu desde pequeno. Ele amava esse estilo de cozinhar até o dia de sua morte”.
Ao longo dos anos em que estive em Graceland, Dodger me ensinou como cozinhar certos alimentos. Me ensinou a fritar tomates verdes e fazer sopa de tomate à moda antiga. Ela insistia em comer presunto defumado somente quando estavam frios. Ela me ensinou que carne de porco só ficava boa quando cozida lentamente, até ficar bem macia.
Em outra ocasião, ela relatou como tivera diferentes desejos de comida com cada um de seus filhos durante as gestações. Estávamos sentadas no balcão da cozinha tomando o café da manhã quando ela me falou sobre isso.
"Quando eu estava grávida de Vernon," disse, “tive ânsia de cheirar rapé. Com Gladys (uma de suas filhas) foi peixe, enquanto Vester fez-me desejar uísque”. Ela então riu ao concluir sobre outra filha, Nash. "Ela fez-me desejar sujeira!"
"Vernon e Delta parecem mais com o pai deles; Jessie, Vester, Gladys e Nash parecem mais comigo”.
"Minha mãe sempre me chamava para fazer as coisas, já que eu não era preguiçosa. Eu sempre era a primeira a levantar de manhã e acendia o fogo no fogão. Então nós todos tínhamos que ajudar, serrando a madeira, alimentando e ordenhando as vacas, recolhendo os ovos, alimentando as galinhas. Era uma vida difícil para quem estava crescendo naquela época. O problema com as crianças de hoje é que elas têm tudo muito fácil”.
Eu apenas sorria e dizia: "Você está certa, vovó”.
Ela muitas vezes falou sobre como lamentava não ter ido muito longe na escola. "Os pais, naquela época", ela explicou, "acreditavam nas crianças que trabalhavam em casa. Meu pai costumava sair para o trabalho no início da manhã para tentar ganhar dinheiro que desse para termos roupa para vestir e alimentos para comer. Ele cortava os nossos cabelos para poupar dinheiro, e eu estava sempre levando uma surra porque não gostava da maneira como ele cortava. Eu queria cortar o meu cabelo de uma forma diferente, e isso o deixava furioso. Ainda bem jovem comecei a ficar com cabelos brancos e eu odiava isso”.
Acho que foi por isso que ela começou a tingir de preto o cabelo em seus últimos anos, porque ela estava determinada a nunca mais ter cabelos brancos de novo. Uma vez ela me disse que aconselhara Elvis a pintar o cabelo dele também, o que, claro, ele começou a fazer.
Dodger também falava sobre Elvis e Vernon. Uma vez ela me disse: “Elvis me disse: ‘Eu quero que papai seja feliz, mas não me agrada vê-lo casado com Dee. Ninguém jamais vai tomar o lugar da mamãe’”.
Ela explicou que, depois que Dee e Vernon se casaram em 1960, os dois se mudaram para o antigo quarto de Gladys no andar de baixo, deixando Elvis louco de raiva. Ele não podia suportar a ideia de outra mulher dormindo na cama de Gladys.
Depois foi decidido que eles morariam na casa na rua Dolan, virando à esquina de Graceland. Dessa forma, Vernon ainda ficaria por perto, mas pelo menos Dee ficaria morando em Graceland.
Ela achava tão irônico Vernon se preocupar tanto com Elvis e Elvis se preocupar tanto com Vernon!
Nossas conversas muitas vezes acabavam se voltando para a própria Dodger. Ela me contou sobre como Jessie, seu marido, tinha outra namorada antes deles se casarem.
A garota fizera três vestidos de noiva, esperando Jessie pedir para se casar com ela, mas Jessie disse que Dodger era mais bonita, por isso acabou casando com ela. Ela passou a dizer com tristeza como Jessie havia mudado; ela desejou que a outra tivesse ficado em seu lugar. Ela disse: "Metade do tempo ele sumia, na outra metade estava bêbado!"
"Ele nunca deixava qualquer comida em casa, não ajudava a criar os filhos. Todos os meus cinco filhos se casaram muito jovens apenas para ficar longe do pai deles, porque ele os tratava tão mal”.
Compartilhávamos histórias engraçadas também - como o tempo em que a filha dela, tia Delta, era jovem e ganhou uma galinha. Por alguma razão a galinha começou a perder todas as penas, e tia Delta fez um par de calças roxas para ela. Dodger descreveu a cena de tia Delta perseguindo a galinha nua tentando colocar um par de calças nela. Todos nós caímos na gargalhada com essa história.
Também cochichávamos sobre os diálogos quase diários de Dodger com um velho jardineiro que fora contratado por Elvis. O homem, embora muito agradável e atencioso, não escutava direito e, quando ele perguntava como a “sra. Minnie” estava se sentindo (isso acontecia praticamente todos os dias quando se viam), ela costumava dizer: "Oh, eu não estou me sentindo muito bem hoje”. Sem entender direito ele respondia: "Bom, eu estou feliz que hoje você está se sentindo melhor". Ele então ia embora.
Chegou um tempo em que Dodger apenas sorria e agradecia. Então, quando uma de nós passava, ela sussurrava: "Esse pateta velho não ouviu absolutamente nada do que eu disse!" Isso, claro, nos rendia muitas risadas ao longo dos anos.
Também discutíamos a paixão de Dodger por roupas. Uma vez ela me disse que pensava muitas vezes em ter vestidos para combinar com cada cor do arco-íris. Eu disse que o vestido que casava-lhe melhor era um cor de rosa com renda branca na frente. Depois que ela morreu, tia Delta lembrou o quanto eu o apreciava e me deu de recordação para lembrar da mãe dela. Até hoje guardo esse vestido.
Algumas de minhas valiosas lembranças de Dodger são de nós duas sentadas na varanda da frente, observando os fãs se reunindo no portão principal. Ela amava contemplar todas as flores plantadas ao redor do alpendre, e sempre comentava sobre a beleza delas. Earl Pritchett, o jardineiro, plantava algumas flores à direita, fora da janela do quarto dela, para que ela pudesse apreciá-las. Depois que ela ficou um pouco mais velha, passava mais tempo confinada em seu quarto.
Dodger também gostava de cantar. Em seu quarto sentávamos no banco do piano e cantávamos juntas, enquanto ela tocava. Cantamos muitas músicas diferentes ao longo dos anos, mas parecia que nossos "concertos” sempre terminavam com uma empolgante versão de "Jesus é o amigo que nós temos”. Era uma de suas canções favoritas.
Ela tocava praticamente qualquer tipo de instrumento. Brincando, eu sempre dizia a ela que lhe tinha inveja por ela saber tocar tantos tipos diferentes; ela, por sua vez, constantemente tentava me ensinar a tocar. Certa vez ela me deu uma gaita que Elvis lhe dera, e tentou me ensinar a tocar. Mandou que eu levasse a gaita para casa e treinasse à noite; no dia seguinte ela veria se eu tinha aprendido alguma coisa. Naquela noite, de fato, eu tentei tocar (meu marido até ajudou), mas eu não consegui manusear bem a gaita. No dia seguinte os meus dedos estavam tão doloridos que mal consegui passar o dia trabalhando. Vovó apenas riu e me disse para continuar praticando. Apesar de eu nunca ter aprendido a tocar a gaita ou qualquer outro instrumento, Dodger insistia em me ensinar.
Embora não tão beberrona quanto tia Delta, ela gostava de "tomar uns goles ocasionais depois do café da manhã”, como ela costumava dizer. Ela então sentava na cadeira do quarto para tirar um cochilo. Sempre tive o cuidado de acordá-la a tempo para que ela assistisse sua novela preferida "Como Gira o Mundo”. Quando eu gentilmente lhe cutucava o ombro, acordando-a para assistir a novela, ela sempre dizia, disfarçando: "Eu não estava dormindo, só estava com os olhos fechados por um tempo”.
Ela amava sentar em sua cadeira de balanço, a poucos passos da porta de seu quarto, perto da sua cama. Ela acabava dormindo lá à noite e então tínhamos que acordá-la e levá-la para a cama. Mas ela não gostava de dormir na cama. Se ela amanhecia na cama era porque estava doente; quando não, ela ia direto para sua cadeira – depois de se banhar e maquiar.
Geralmente, pela manhã, costumávamos fazer uma “brincadeira”:
Vovó perdeu os poucos membros da família que ainda tinha, e não chegou a vê-los muitas vezes. Ela tinha sete irmãos e irmãs, e todos eles continuaram a viver no Mississippi. Na ocasião ela se sentia solitária, e fingia estar ainda vivendo em Tupelo, e que estava apenas visitando Memphis. Após o nosso café da manhã, eu ia a outra parte da casa para começar minhas tarefas, e ela dizia: "Bem, a visita foi agradável, mas agora eu tenho que voltar para casa." E eu respondia: "Claro, foi ótimo ter você aqui, volte sempre." Nós duas ríamos muito, mas, de certa forma, ficava triste pelo fato dela realmente ter perdido sua família.
Ela precisava usar colírio várias vezes ao dia. Ela me disse que realmente apreciava a minha forma de aplicar-lhe o colírio. Ela um dia me confidenciou: "Você faz um trabalho tão bom; eu gostaria que você pudesse fazer isso o tempo todo. Delta parece que se sente na obrigação de fazer isso por mim e eu não quero magoá-la. As mãos dela tremem tanto que às vezes derrama o colírio todo em cima de mim”.
Quando ela ficou mais velha e sua saúde começou a deteriorar-se, sua filha, Nash, uma ministra ordenada, chamou todos nós para o quarto de sua mãe. Fizemos um semicírculo, de mãos dadas, em torno de sua cama, enquanto Nash orava em voz alta pela cura de Dodger.
Dodger, ao envelhecer, me pedia para fazer-lhe canja de galinha, e eu cortava pedaços de melão para ela comer. Ela disse que era a única coisa que sentia que podia comer.
Ela comentou comigo em diversas ocasiões que não estava certo que Elvis e depois o filho dela, Vernon, tivessem morrido antes dela. “Eu deveria ter morrido antes deles”, dizia. “Isso não está certo!" Às vezes ela ficava realmente angustiada por isso.
Eu acho que ela nunca superou a morte de Elvis. Várias vezes lhe sugeri que lhe faria bem se ela fosse visitar o túmulo dele e o de Vernon, no Jardim da Meditação. Mas ela respondia que não achava bom ficar vendo os dois túmulos, lado a lado.
Tia Delta e eu, numa ocasião, finalmente a convencemos a levá-la, em sua cadeira de rodas, a uma curta distância dos túmulos. O sol brilhava e era um lindo dia, e achei que ela se sentiria melhor ao ver o belo aspecto dos túmulos. Mas, após alguns minutos, ela ficou tão perturbada que tivemos de levá-la de volta para casa.
Demorou vários dias para ela superar essa experiência. Felizmente, ela tinha a filha para cuidar dela. Tia Delta procurava cuidar de sua mãe da melhor forma.
Tia Delta era bastante espirituosa, às vezes. Era rápida em dizer o que pensava, muitas vezes dizendo antes de pensar nas possíveis consequências.
Eu a conheci melhor depois que passei a trabalhar em Graceland. Elvis tinha acabado de comprar o rancho "Circle G" no Mississippi em 1967, e Priscila e todos os caras [da Máfia de Memphis] passariam vários dias, às vezes semanas, nesse rancho. Delta e eu íamos até o rancho em seu Cadillac branco para limpar tudo, depois que Elvis e o grupo saíam de lá. Durante essas viagens diárias, tia Delta e eu nos tornamos boas amigas e ela me confidenciou um monte de coisas.
Muita gente acha que ela disse e fez coisas sem se importar com os sentimentos dos outros. Eu posso entender porque eles acham isso, mas eu também vi o lado bondoso e terno dela. Ela parecia não ser capaz de chegar perto de muitas pessoas e, consequentemente, foi considerada por alguns como uma "mulher solitária". Então, muitas vezes ela dizia coisas que me deixavam magoada, apenas para voltar mais tarde e pedir desculpas; muitas vez ela me dava um pequeno presente para “compensar a ofensa”. Uma vez ela me disse: "Às vezes não sei mesmo por que digo o que digo e faço o que faço. Acho que apenas não penso”.
George Coleman me contou sobre o tempo que ele e Patsy ficavam sentados no escritório conversando. Havia uma câmera lá atrás para que eles pudessem ver quem estava entrando pelo portão da frente.
George me disse que havia uma mulher enorme e gorda que frequentemente entregava cartas na mansão. Neste dia em particular, Patsy e George viram o "contorno inconfundível" da mulher entrando na casa e depois saindo, e Patsy fez então uma piada sobre o “contorno”. Ambos riram, coincidindo com o momento em que tia Delta estava entrando no escritório; ela, erradamente, entendeu que estavam rindo dela. George contou que ela explodiu de raiva e amaldiçoou os dois, antes de sair do escritório. Patsy foi correndo atrás dela e finalmente a convenceu de que eles não estavam rindo dela. Ela mais tarde pediu desculpas a eles.
Ela sempre procurou garantir que tudo funcionasse bem em Graceland. Ela era rigorosa com detalhes, e não tinha muita paciência quando as coisas não eram feitas do jeito que ela achava apropriado. Em mais de uma ocasião, ela mesma, depois de alguns goles de whisky, criava bagunças pela casa, jogando alguns itens dos móveis na parede. Ela, então, chamava desesperadamente George Coleman, o habilidoso eletricista de Graceland, para ele consertar os danos antes de Elvis chegar em casa (às vezes ela o chamava no meio da noite).
George sempre consertava tudo e cuidava para que todos os problemas fossem corrigidos. Essas coisas sempre permaneceram estritamente entre ela e George.
Ela se vestia de forma muito simples, geralmente usando calças e uma blusa, e, mesmo adorando comprar roupas, ela tinha muitas roupas legais. Na verdade tinha tantas que não cabiam completamente no seu armário de roupas. Nós guardávamos um monte delas em outro armário, no final do corredor principal.
Ela era uma fumante compulsiva, e andava tarde da noite com seu cachorro ao redor do quintal de Graceland, enquanto fumava, assustando, às vezes, o guarda noturno que fazia a ronda pela área dos fundos de Graceland. Um dos guardas me disse uma vez que ela teve sorte de nunca ter sido baleada acidentalmente pelo guarda noturno, porque ela não fazia nenhum barulho enquanto calmamente caminhava com seu cachorro e fumava. Com frequência ela perambulava por todo o terreno atrás da propriedade.
Isso se tornou uma preocupação para aqueles que trabalhavam no turno da noite, pois ela muitas vezes esquecia de reiniciar o alarme de invasão na porta de acesso à Sala da Selva, quando ela retornava dos passeios.
Tínhamos de verificar constantemente para ter certeza de que o alarme fora reiniciado depois de ela entrar, e para lembrá-la, com educação, que ela não esquecesse de ajustar o alarme ao entrar. Tínhamos, às vezes, de lembrar a nós mesmas (especialmente depois da morte de Dodger) que a casa agora “pertencia” a tia Delta, e usávamos de cautela quando falávamos para ela sobre o alarme.
Uma pequena crise começou quando Priscilla acatou a ideia de abrir Graceland para o público, no início dos anos 1980.
Tia Delta considerava que a casa lhe pertencia, dizendo para quem quisesse ouvir que Elvis tinha dito isso a ela muitas vezes, enquanto ele ainda estava vivo, que ela poderia morar em Graceland. Ela às vezes ficava muito chateada, e chamava nomes [feios] com Priscilla, e dizendo: "Eu não posso acreditar que eles vão abrir a minha casa para o público. Eles sabem que eu não terei mais privacidade! Minha vida será miserável. vou ter que me mudar, talvez morar num trailer. Eu não posso suportar isso!” Passamos muito tempo tentando confortá-la,  e convencê-la de que ela não estava sendo expulsa da casa. Com o tempo, ela finalmente entendeu que essa medida era necessária - impediria a mansão de entrar em falência.
Tentar descobrir uma maneira de guiar os turistas em torno da residência, no entanto, tornou-se uma preocupação logística para todos os funcionários de Graceland.
Uma série de reuniões de planejamento foi realizada na mesa da sala de jantar antes da casa ser aberta para as excursões. Durante uma dessas reuniões, cozinhamos o jantar para Priscilla, Todd Morgan, e vários outros funcionários, conforme eles discutiram suas ideias sobre como abrir a mansão.
Priscilla tinha vindo de Los Angeles na noite anterior, e Patsy, prima de Elvis, havia emprestado o Cadillac branco de tia Delta para ir buscá-la no aeroporto. Quando tia Delta descobriu que o carro dela estava sendo usado para conduzir Priscilla, ela teve um ataque de raiva. Durante cinco minutos ela continuamente reclamou sobre ela não ter mais nenhum direito na casa, agora que Elvis estava morto. Custou-nos uma eternidade para acalmá-la.
No dia seguinte ela ficou na cozinha, enquanto servíamos para eles frango frito, molho, salada de batata, e vários tipos de sobremesa.
Tia Delta, que não queria ver nenhum deles, me disse: "Nancy, quando você levar o café para eles, tente ouvir o que dizem”. Eu deveria, então, voltar para a cozinha e enchê-la de detalhes, à medida que a conversa se desenrolava. Fiquei me sentindo uma espiã, correndo da sala de jantar para a cozinha, indo e voltando, a noite toda.
Em certo ponto [da reunião], convidaram-na para a sala de jantar e alguém lhe perguntou o que ela achava da ideia de comprar-lhe uma nova casa para viver. Ela prontamente respondeu: "Eu já tenho uma bela casa, obrigada”, e, de imediato, retornou à cozinha.
Tudo foi finalmente acertado e a mansão foi aberta ao público. Não quer dizer que não houve problemas, especialmente no início.
Os planejadores decidiram que os turistas não atravessariam a área da cozinha, já que era uma área que tia Delta frequentava e onde ela fazia suas refeições. Estavam tentando ser o mais justo possível com ela e não afetar o seu modo de vida, mais do que já tinham afetado.
Mas a influência dela não podia ser ignorada.
Em mais de uma ocasião, especialmente depois de tomar alguns goles de whisky, tia Delta saía para o corredor, muitas vezes vestida de roupão, com o cabelo cheio de bobes e um cigarro pendurado na boca, vociferando contra os visitantes assustados: "Deem o fora da minha casa!" Muitas vezes me perguntei que tipo de pensamentos passou pela mente deles quando isso acontecia.
Ela não estava nada feliz em ter que compartilhar o que ela considerava "sua casa" com estranhos. Conforme o tempo passava, as coisas se acalmaram um pouco, mas estávamos sempre atentas para garantir que ela não ofenderia um "convidado pagante." (Um convidado uma vez perguntou a um dos seguranças como estava indo a tia Delta, e o guarda respondeu: "Ela está bem, agora que escondemos as armas e as munições da vista dela.")
As coisas mudaram muito, pouco depois da morte de Dodger, à medida em que o funcionamento da casa seguia como sempre. Todo o foco mudou para cuidar das necessidades da tia Delta, e essas necessidades se tornaram mais críticas quando ela começou a sentir os efeitos da velhice.
Nos últimos tempos, ela não podia mais sair da cama e nós tivemos que fazer tudo por ela. Foi tão triste vê-la definhar tão rapidamente. Ela era tão vibrante e tão cheia de energia, quando comecei a trabalhar em Graceland!
Quando ela morreu, em 1993, a cozinha foi adicionada às excursões.
Uma parte de Graceland morreu com tia Delta, a última ocupante de uma grande e antiga mansão que tinha visto mais do que a sua quota de bons e maus momentos.
Permanece, até hoje, uma mansão com muitas memórias para compartilhar.


Isto é um trecho de "Dentro de Graceland", de autoria de Nancy Rooks, ex-empregada de Elvis Presley, um testemunho precioso do dia-a-dia do rei do rock, cobrindo os últimos 10 anos de sua vida. A tradução em português é de Roseane Maria Silva, e eu tive o privilégio de revisar o texto e compilar o e-book em PDF. Baixe-o gratuitamente aqui.

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