"QUE DIA TRISTE!"
A quinta-feira
chegou; a realidade de que Elvis realmente tinha partido começou a ser assimilada.
O choque e a descrença de todos estava lentamente se transformando na
compreensão de que Elvis, o ícone que todos tínhamos acreditado ser imortal,
seria posto hoje [na sepultura].
Cheguei ao
trabalho naquela manhã (passando o que parecia ser uma eternidade), dirigindo
lentamente meu carro através da pacífica multidão reunida em frente a
Graceland. Havia carros estacionados em todos os lugares em ambos os lados da
Elvis Presley Boulevard e até mesmo no meio da rua, enquanto dezenas de
policiais tentavam pacientemente manter em ordem os milhares de consternados
fãs. Seus olhares diziam tudo.
Custou-me uns
quinze minutos para atravessar a multidão [com meu carro], buzinando
constantemente para que me deixassem seguir meu caminho, lentamente, até o
portão da frente.
Tio Vester, ao
me ver, abriu o portão, permitindo-me dirigir pela mesma calçada da frente que
eu dirigira nos últimos dez anos.
Desta vez, no
entanto, era um mundo bem diferente. Fui tomada por um sentimento estranho,
sabendo que Elvis estaria deixando a casa que ele tanto amou, pela última vez
naquela tarde.
Tudo parecia
tão diferente naquela manhã. Não era incomum ver um ou dois carros estacionados
em frente a Graceland quando me dirigia para lá, todas as manhãs. Mas, nessa
manhã em particular, um monte de carros estava em todos os lados.
Dirigi pela
parte de trás da casa e fui surpreendida por uma variedade ainda maior de
carros estacionados por todos os lados. Pude, afinal, encontrar uma vaga no
estacionamento, bem longe de onde eu normalmente estacionava.
Mesmo antes de
sair do carro eu podia sentir uma sensação de perda e tristeza pairando sobre
toda a propriedade, como uma nuvem.
Após entrar e
falar com Pauline e Mary, que já estavam na cozinha preparando as refeições
para o longo dia que viria pela frente, fui ao quarto da vovó para ver como ela
estava. Encontrei-a sentada em sua cadeira de balanço conversando com tia
Delta, sentada em outra cadeira, ao pé da cama.
Estavam
somente as duas no quarto. Era evidente que vovó chorara há pouco, mas, com seu
típico temperamento forte, dava mostras de que iria aguentar. Os olhos de tia
Delta também estavam vermelhos.
Depois de
servi-las com café, e tendo a certeza que elas não precisavam de mais nada no
momento, limpei a sala de estar, a sala de jantar e o quarto da selva. Depois
desci ao porão, esvaziei cinzeiros, recolhi o lixo e dei uma faxina geral,
procurando deixar o lugar apresentável.
Nos dois
últimos dias tinha visto centenas de membros da família, amigos, conhecidos
empresários, policiais e pessoas que tiveram sorte o suficiente para passar
pelo segurança no portão da frente, e ali estavam para prestar condolências.
Naquela
ocasião todos tentavam ajudar da melhor maneira que podiam, o que significou um
monte de bagunça para limpar em todos os cantos da casa; e eu, assim como os
demais funcionários de Graceland, senti um profundo senso de obrigação de
manter aquilo que fora o orgulho e alegria de Elvis.
Tendo
terminado de limpar o porão, retornei ao primeiro andar.
Em algum
momento no decorrer do dia eu vi o Coronel Parker, empresário de Elvis, em
Graceland. Embora suas visitas não fossem tão incomuns, parecia estranho vê-lo
naquele dia.
Ele chegou,
vestido com sua habitual camisa e calças folgadas, ostentando um chapéu
esportivo de marca e mastigando um gordo charuto. Meu primeiro pensamento foi
que ele vinha prestar suas condolências. Ele e Vernon entraram na sala de
jantar, onde estiveram entre vinte minutos e uma hora. Enquanto eu lhes levava
algo de beber, notei que o Coronel estendera alguns papéis à frente de Vernon.
Apesar do
visível cansaço e angústia de Vernon, o Coronel parecia determinado a discutir
com Vernon sobre aquela papelada. Mais tarde descobri que, nessa reunião, o
Coronel tentara persuadir Vernon a assinar [os papéis], dando-lhe concessão
para administrar a comercialização de todos os produtos de Elvis que surgiriam
imediatamente após a morte dele.
Sempre senti
que Vernon não estava em condições, naquele dia, de tomar tais decisões.
Não lembro bem
se foi no dia da morte de Elvis ou no dia seguinte, que tia Delta (com o
consentimento de Vernon e vovó, acredito) decidiu fechar toda a área do segundo
andar, que tinha sido o santuário privado de Elvis. (Há muito que o andar de
cima tornara-se a área valorizada por
Elvis para sua privacidade, onde ele poderia retirar-se e onde ninguém o
incomodaria).
Há apenas uma
porta que conduz ao andar de cima, localizada na parte superior do patamar do
hall de entrada, e tia Delta mudou-lhe a fechadura. Estava em seu poder a única
chave para essa fechadura, e qualquer pessoa que quisesse ir ao andar de cima
tinha que pegar a chave com ela.
A razão
inicial dada para isolar o andar de cima foi que a família queria, por respeito
a Elvis, impedir que uma pessoa qualquer invadisse o local onde ele tinha morrido.
Uma outra
razão (que ninguém gostava de admitir) era que Vernon queria ter certeza de que
nada seria roubado dessa parte da casa, onde estava guardada a maior parte dos
itens pessoais de Elvis.
Na melhor das
hipóteses, Vernon não deu muita confiança às pessoas que se diziam
"preocupadas" com Elvis.
Após a morte
de Elvis, ele se tornou desconfiado a ponto de acreditar que alguém realmente
tenha assassinado seu filho. Até o dia em que morreu, ele acreditou piamente
nessa possibilidade, mencionando-a para mim em várias ocasiões.
Uma vez que o
andar de cima foi fechado, nunca houve qualquer razão para abri-lo novamente.
Ninguém além de Elvis e Lisa tinha quartos lá em cima e simplesmente não havia
motivo para mantê-lo aberto.
Até onde sei,
ninguém nunca dormiu no andar de cima depois que Elvis morreu. Até hoje, apenas
um punhado de pessoas tem acesso ao segundo andar, e é guardado como se fosse o
Fort Knox (pequena cidade americana e base do Exército dos Estados Unidos,
localizada no estado de Kentucky, ao longo do rio Ohio. Ela abriga importantes
unidades de treinamento e comando de recrutamento do exército).
Depois de
fazer uma verificação geral, voltei à cozinha para ajudar na preparação dos
alimentos para aquele dia.
Sabíamos que um
grande número de pessoas era esperado em Graceland naquele dia, e começamos
preparando tudo o que encontramos no freezer, geladeiras e armários.
Ao longo do
dia, tentou-se várias vezes ir ao supermercado, mas, devido ao grande número de
fãs bloqueando as portas e aglomerados em todos os lados de Graceland,
tornou-se um desafio tentar conseguir [mais] comida.
Entre outras
refeições, lembro que preparamos, naquele dia: espaguete, variedades de
saladas, churrasco, frango, feijão verde, “montanhas” de sanduíches e toda
sorte de lanches que foi possível preparar. Além disso, como o dia estava muito
quente, servimos às pessoas todo tipo de bebida.
Fora a comida
que preparamos naquele dia, uma grande quantidade de refeições foi enviada
pelos restaurantes locais, bem como alimentos [prontos] de familiares e amigos
bem-intencionados que levaram para a mansão.
Eu não tenho
certeza de como isso foi coordenado, mas um helicóptero fez vários pousos na
área do pasto, nos fundos, para ajudar a trazer a comida para nós.
Foi a primeira
vez que eu vi um helicóptero assim de perto. Parecia que o mundo inteiro estava
fazendo seu melhor para homenagear Elvis naquele dia.
Alimentamos
tanta gente naquele dia que perdemos a conta. Mas o que não contávamos era com
o “pequeno exército” de policiais, xerifes delegados, paramédicos e outros em
[Graceland] naquele dia, oferecendo a segurança necessária para controlar as
multidões que estavam em redor da propriedade.
Receou-se um
tumulto no dia anterior, quando Vernon tinha decidido permitir os fãs verem o
corpo [de seu filho] durante várias horas.
Diante disto,
e sem saber o que esperavam no dia do funeral, eles queriam ter a certeza de
que a segurança seria suficiente para lidar com qualquer imprevisto.
Como Elvis
sempre fora amigo e cumpridor da lei, foi-me dito que os oficiais saíram de
seus percursos, alguns deles trabalhando mesmo sem pagamento e em seus dias de
folga, considerando uma honra trabalhar em prol de alguém que eles consideraram
como sendo um deles.
Elvis, em sua
morte, foi efetivamente empossado xerife substituto do condado de Shelby.
À medida que o
dia passava e aumentavam o calor e a umidade, tornou-se evidente que
precisávamos fornecer alimentos e bebidas para os policiais posicionados por
toda a Graceland.
Começamos a
preparar pratos prontos para todo o pessoal uniformizado do lado de fora. Nos
revezamos fazendo entregas regulares, nos carrinhos de golfe, para todas essas
pessoas.
Toda vez que
pensei ter dado comida e bebida a todos os policiais em frente da casa naquele
dia, eu via mais um sobre uma árvore, ou em pé junto à parede, que tínhamos
esquecido. Sentimos grande alegria em fazer isso, e todos eles ficaram muito
agradecidos e contentes com o nosso trabalho e, claro, o fato deles elogiarem
nossa culinária ajudou bastante.
Eu mesma
preparei as comidas e bebidas para todos, no sentido de, em parte, amenizar a
dor que todos estávamos sentindo com relação ao funeral realizado na parte da
frente da casa.
Eu perdera a
noção do tempo, mas fui sacudida de volta para a realidade um pouco antes das
duas da tarde, quando funcionários da funerária começaram a reunir todo mundo
na sala da selva, em preparação para a cerimônia religiosa.
Um breve
silêncio teve lugar quando vovó, tia Delta, Lisa Marie, Priscilla e Vernon
foram escoltados para fora do quarto da vovó, onde eles se reuniram antes do
culto, pelo curto corredor até à sala onde ficaram sentados na primeira fila,
diretamente defronte do caixão.
O caixão de
Elvis tinha sido posicionado em frente à grande porta que liga a sala de estar
com a sala de música, para a realização do culto.
A maioria dos
móveis foram removidos da sala e do hall de entrada, e as cadeiras dobráveis
tinham sido colocadas nos dois quartos com um corredor no meio. As várias
centenas de enlutados excederam os assentos, ficando a maior parte [das
pessoas] na parte de trás da sala de jantar durante toda a cerimônia.
Mesmo com o
potente aparelho de ar condicionado virado para baixo, e no nível máximo, logo
todo o recinto tornou-se quente como forno, devido à enorme multidão que enchia
as salas.
Enquanto os
enlutados choravam na sala, reconheci, [em meio às muitas pessoas], James
Brown, George Hamilton, Ann-Margret e seu marido Roger Smith. Em condições
normais seria uma alegria para mim a aparição de todas essas estrelas.
Tornou-se
quase uma rotina, ao longo dos anos, ver (ainda que ocasionalmente) estrelas de
cinema e conhecidas personalidades em Graceland. Mas não naquele dia; não sob
aquelas circunstâncias.
Que dia
triste.
Enquanto
continuávamos com os preparativos da cozinha, pudemos ouvir quando começou o
culto funerário, na parte da frente da casa. O pessoal da manutenção tinha
montado um sistema de amplificação e distribuição de som eletrônico com
microfone, amplificador e alto-falantes mas, por causa de todo o barulho na
cozinha enquanto estávamos cozinhando, não fomos capazes de ouvi-lo muito bem.
Pouco depois
de o pastor começar a cerimônia, me dirigi até à pequena sala de armazenamento,
localizada no final do corredor, onde eu poderia ouvir melhor.
Passei a maior
parte do culto encostada, em posição vertical, numa máquina de gelo, que me
serviu de apoio. Parecia uma eternidade quando o calor aumentou com a enorme
multidão de pessoas que estava na casa.
Eu estava tão
angustiada que não guardei muito do que falaram no culto, naquele dia. Apenas
lembro que cantaram um monte de músicas, e vários pastores prestando
homenagens; o que realmente me lembro foi o sentido primordial de perda que
sentia. Foi esmagador o pensamento de
que nunca mais veria o sorriso brilhante de Elvis, nem ouviria sua bela voz
novamente.
Minha tristeza
foi logo substituída pelo pensamento de retomar o trabalho, quando do término
do funeral.
Antes que eu
percebesse, o culto havia acabado e os enlutados dirigiam-se para o carro funerário estacionado diante da
mansão.
Um sopro de ar
quente saiu do primeiro andar assim que a porta da frente foi aberta.
Os enlutados
foram conduzidos para fora, naquele sufocante calor de agosto, onde eles estavam
esperando para assistir à última saída de Elvis [no caixão].
Os
carregadores contorceram-se sob o enorme peso do caixão, mal conseguindo passar
com ele pela porta da frente da casa.
Com grande
esforço o caixão foi finalmente introduzido no carro funerário branco; sob o
sol quente da tarde, o caixão brilhou com perfeição.
Nesse ínterim
o silêncio foi quebrado por um estalo alto: um grande galho de árvore
misteriosamente se quebrou, caindo, aos pedaços, bem perto do carro reservado
para Ginger Alden e sua família.
Eu ouvi e
presenciei a estranha cena. Nunca fui capaz de explicar como isso aconteceu, e
nem me sinto à vontade quando tento explicar isso.
Os
funcionários do serviço funerário de Memphis fizeram o bom trabalho de
coordenar os enlutados nas várias caravanas de carros alinhados, que esperavam
para seguir o carro fúnebre até o cemitério.
Eles
organizaram os carros numa longa fila na parte de trás da propriedade e do lado
de fora do portão dos fundos. Num curto período de tempo, todos estavam acomodados
em seus respectivos veículos.
O cortejo foi
liderado pelo carro [com o caixão de] Elvis e escoltado por policiais em
motocicletas; em seguida, o cortejo iniciou lento e sombrio descendo pela entrada
da garagem e se dirigindo para a Elvis Presley Boulevard.
As multidões
eram tão grandes em torno dos portões da frente, que todos nós poderíamos ver,
enquanto víamos o pequeno monitor de circuito fechado na cozinha, o que parecia
ser uma parede sólida de pessoas em todas as direções, até onde a vista pudesse
alcançar.
Ao contrário
dos costumeiros aplausos a saudar Elvis quando ele aparecia, desta vez estavam todos
calados e melancólicos. Mesmo sem ouvir qualquer som vindo do monitor, sentimos
a quietude do momento. O único movimento, além do cortejo, veio de alguns
fotógrafos correndo ao lado do carro funerário, tentando registrar uma última
foto da estrela cadente.
Elvis, agora,
seguia para o cemitério a fim de ficar com sua mãe.
Enquanto eu
observava o carro fúnebre branco e brilhante descendo através da longa entrada
para os portões da frente, fui tocada pela atitude dos agentes da lei, que, à
passagem do carro fúnebre, bateram continência e fizeram uma rápida saudação -
uma apropriada homenagem para um homem que fora tão empenhado pela aplicação da
lei.
O longo cortejo
virou à direita, para a autoestrada que tinha sido nomeada em homenagem a Elvis,
vários anos antes.
Uma das muitas
homenagens que Elvis recebera enquanto estava vivo.
O cortejo
seguiu para o norte, em direção ao cemitério, a três milhas de distância.
Devido à baixa velocidade do solene cortejo, bem como o grande número de
veículos envolvidos, levou o que pareceu uma eternidade sair da entrada da
garagem e desaparecer de vista.
E então ele se
foi.
Acho que foi quando,
pela primeira vez, realmente “caiu a ficha” para mim, que ele nunca mais
voltaria.
Tudo que levou
a esse momento havia sido tão irreal.
Nós todos
estávamos tão ocupados na preparação para esse momento único, que isso foi como
um torniquete, mantendo nossas emoções um pouco em choque.
Tantos
detalhes para cuidar, tantas coisas a serem atendidas, outras tantas para se
preocupar, que todo o peso da morte de Elvis tinha sido empurrado para o
limite.
Fomos
abençoados por manter nossa mente [na direção] certa e continuar trabalhando.
Mas, agora,
assistindo o último carro do cortejo fúnebre desaparecer de vista do monitor
como um minúsculo pontinho preto, todo o impacto da morte que eu esperava me
sobreveio como uma tonelada de tijolos.
Lembro apenas
que fiquei lá, em transe, vários minutos depois de o último carro desaparecer
de vista.
Várias das
outras pessoas que estavam ao meu lado começaram a divagar lentamente, em seus
próprios mundos de tristeza.
Ninguém falava
nada, o silêncio era devastador.
Foi quando o
telefone tocou, finalmente me sacudindo de volta para a realidade.
Felizmente
outra pessoa atendeu, já que eu não sei como teria atendido naquele momento.
De repente,
senti um vazio que parecia me esmagar
completamente.
Por um breve
momento pensei em sair para escapar da
dor emocional que estava sentindo então.
Eu
simplesmente não conseguia entender que a vida pudesse de alguma forma
continuar, agora que Elvis estava morto.
Ele tinha
trazido tanta vida e emoção para Graceland sempre que estava lá, que
simplesmente não parecia possível que a vida poderia continuar sem ele.
Mas, claro, a
vida tinha que continuar, e continuou.

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