Entrevista Com Marty Lacker




Lacker (1937-2017) foi um dos membros da Máfia de Memphis. Foi secretário pessoal de Elvis na década de 1960, padrinho de seu casamento e grande amigo do Rei – desde a juventude de ambos.


Você conheceu Elvis no último ano do colegial; então, você estava presente quando as coisas começaram a melhorar para Elvis. O que você recorda dessa época?
Ele estava muito feliz com o que estava acontecendo com ele e com as oportunidades de uma vida mais confortável para seus pais, especialmente sua mãe.

Quando Elvis lançou seu primeiro sucesso, você foi para o exército. Quando você voltou, foi até à nova casa de Elvis, Graceland, e lhe foi oferecido um trabalho. Qual era esse trabalho? Quais eram suas funções no grupo?
Quando voltei do exército em 1957, ele havia acabado de se mudar para Graceland e comecei a me enturmar com ele e os outros caras que estavam lá. No ano seguinte ele foi para o exército e eu me tornei diretor de programação de rádio. Quando ele voltou, em 1960,  eu voltei a me encontrar com eles e ele logo me chamou para trabalhar com ele. Tornei-me uma espécie de secretário particular. Naquela época Joe Esposito, que Elvis conhecera na Alemanha no ano anterior, era o seu secretário. Quando Joe e Elvis tiveram um desentendimento, tornei a desempenhar essa função. Meu trabalho era fazer com que os caras fizessem tudo o que fosse necessário para facilitar a vida de Elvis e assegurar que ele pudesse fazer seu trabalho. Também servia como intermediário entre Elvis e o Coronel e com os estúdios de filmagem. Entretanto, eu era inteligente o suficiente (ao contrário de Joe) para saber que não era mais importante ou próximo de Elvis do que os outros membros do grupo. Sempre tive a convicção de que era um amigo próximo, como um irmão, para Elvis, assim como os demais.

Como era viver próximo a uma pessoa tão famosa? O que Elvis pensava sobre tudo o que estava acontecendo em sua vida, naquele momento?
Elvis era grato por tudo o que a vida lhe oferecera, mas nunca tomou isso como algo garantido. Era divertido e interessante a maior parte do tempo, mas, como qualquer outro ser humano, tinha suas falhas, fragilidades e problemas.

Depois que sua carreira musical finalmente decolou e ele tornou-se um sucesso mundial, veio a convocação para o Exército e o arrebatou por dois anos. Essa decisão do Coronel Parker é vista por muitos como ilógica e é tema de discussões há muitos anos. O que você acha dessa decisão e o que Elvis comentou sobre seus temores de que sua popularidade acabaria com sua ausência na mídia?
Elvis não gostou de ir para o Exército, embora ele fosse muito patriota.  É fácil entender  porque ele sentia essa recusa. Ali estava ele, curtindo sua vida de super astro e de repente eles tiraram isso dele por um tempo. Ele temia que, enquanto estivesse fora, as pessoas o esqueceriam, colocando outro em seu lugar. Ele obviamente não podia queixar-se sobre isso em público porque iria repercutir negativamente; então ele aceitou os planos do Coronel. Felizmente, uma das poucas coisas boas que Parker fez foi lançar discos enquanto Elvis estava no Exército para mantê-lo em evidência na mídia. O fato dele ter servido o seu país tornou-se um fator positivo para os fãs. Ele ficou extremamente feliz quando tudo acabou e ele voltou para casa.

Após sua saída do exército, as expectativas para seu retorno eram enormes. A RCA lançou um álbum fantástico marcando seu retorno e o futuro prometia muito. Entretanto, ele logo foi chamado por Hollywood e começou a filmar G. I. Blues. Deu-se início a uma série de filmes e após alguns papéis sérios como em Flaming Star e Wild In The Country, ele logo se viu preso em papéis de qualidade continuamente inferiores. Quais são suas lembranças das opiniões e sentimentos de Elvis neste período de sua carreira? Você acredita que era responsabilidade de Elvis exigir do seu empresário mais qualidade tanto para os scripts quanto para as canções?
Elvis se desgostou dos [seus] filmes porque eles se tornaram nada mais que aventuras musicais. Ele se cansou de cantar nos filmes,  queria muito se tornar um ator dramático. Entretanto o Coronel estava interessado apenas no dinheiro e, como  Elvis ganhava bem, Parker o manteve no mesmo padrão de filmes. Sim, era responsabilidade de Elvis dizer “chega”, o que ele finalmente fez em 1968. Quando Parker fez o acerto com o especial de 1968, ele conseguiu fazer com que Elvis aceitasse fazer mais um último filme. O trato de Parker era: sem filme, sem especial.

Você não acha irônico que este último filme tenha sido o tipo de papel que ele sempre procurou? O que ele achou de Change Of Habit? Embora não fosse um filme digno do Oscar, deu a ele a chance de atuar em um papel sério.
Ele achou legal. Mas o script era fraco e tudo o que ele queria era se livrar dos contratos [dos filmes] e voltar a cantar ao vivo.

Durante esse período de sua vida, Elvis parece ter perdido o controle de sua carreira,  confiando cegamente em seu empresário. Porque você acha que Elvis era tão leal ao Coronel, mesmo quando era óbvio que este não estava tomando as melhores decisões?
Porque Parker instilou nele uma espécie de controle e temor de que se ele não seguisse o que Parker queria, sua carreira poderia acabar.

Durante a execução destes filmes, a única coisa que parecia motivar Elvis era suas atrizes coadjuvantes. Seus envolvimentos românticos devem ter lhe custado muitos problemas com Priscilla. Como ele fazia para escapar das confrontações dela sobre esses casos, especialmente com Ann-Margret?
Ele teve um confronto com Priscilla sobre Ann-Margret, mas ameaçou mandá-la de volta aos pais dela, então ela se calou. Ele disse a ela que era apenas publicidade para o filme, mas não era verdade. Elvis e Ann se gostavam muito. Muitos de nós preferíamos que ele tivesse ficado com ela, ao invés de Priscilla.

Você acha que ele se arrependeu de tê-la trazido para morar em sua casa e de ter assumido um compromisso com ela?
Eventualmente ele se arrependeu, mas ele se importava com ela, assim como se importava com as suas namoradas. Ele casou porque foi forçado pelo pai dela. O próprio Elvis me disse isso, no dia que ele me convidou para ser seu padrinho.

Também foi durante essa fase de sua vida que ele adquiriu um novo brinquedo -  uma câmera Sony -,  que, acredito, tenha sido uma das primeiras. Há rumores de que ele teria feito muitos filmes eróticos com essa câmera, inclusive de Priscilla com outra mulher. Após sua morte, essas filmagens teriam sido entregues a Priscilla por Bel Smith. É verdade?
Fui eu quem adquiriu essa câmera diretamente da Sony, na Califórnia, enquanto ele filmava Tickle Me.  Sim,  ele fez esses vídeos e o que você mencionou na pergunta é tudo verdade.

Durante esse período de grande stress, em que sua carreira estava decaindo, seus filmes e canções perdendo qualidade e os lucros começando a cair, ele se envolveu com estudos espirituais. Por favor, conte-nos sobre esse período de sua vida, o que o levou a esses estudos e se isso trouxe algum benefício para Elvis.
Ele começou com esses estudos graças à influência de Larry Geller, seu cabeleireiro da Califórnia. Larry começou a ter conversas com Elvis e a trazer livros sobre o assunto,  deixando muitos de nós preocupados. Isso estava mexendo com a cabeça de Elvis e ele sabia que não gostávamos. Elvis logo se cansou e começou a perceber as intenções de Larry. Larry é um cara bacana, mas não devia ter tentado levar Elvis naquela direção. Essa é a minha opinião e da maioria dos  caras que cresceram com Elvis.

Você acredita que Elvis teve seu coração partido com o divórcio de Priscilla ou seria uma questão de “ego ferido”?
Seria “ego ferido” e não “coração partido”, como muitos fãs pensam. Especialmente porque ela o deixou por outra pessoa.

Após essa fase ruim da sua carreira, Elvis deu a volta por cima e se tornou novamente uma força respeitada no campo musical, com seu especial para a NBC e, em seguida, com as sessões de gravação em Memphis. Ele voltou aos palcos, tornou-se um rei em Vegas e tudo parecia grandioso novamente. Mas à medida que os anos 70 foram avançando ele começou a ficar imensamente entediado com a rotina dos shows. Ele alguma vez expressou descontentamento com o esquema desses shows? Sentia uma falta de desafios neste ponto de sua carreira?
Sim, ele queria fazer uma turnê mundial. Cansou-se de cantar nas mesmas cidades nessas turnês e a culpa disso cai, lógico, sobre o  Coronel. Elvis disse uma vez que teria que cantar para sempre em Vegas para pagar as dívidas de jogos do Coronel.

Esse cansaço e falta de desafios levou Elvis a um abuso de pílulas que parece ter saído de controle após a segunda temporada em Las Vegas, em Setembro de 1974. No show de encerramento, ele despejou sua indignação contra as especulações da imprensa de que ele estava viciado em heroína. Você se recorda dessa noite em particular e se ele discutiu com vocês o quanto esses rumores o irritavam? Mais importante: esses rumores eram verdadeiros?
Elvis nunca usou heroína. Ele tomava pílulas e uma única vez experimentou cocaína. Ele estava furioso porque a imprensa estava especulando sobre seu vício em remédios. Não me lembro se ele tomou conhecimento desses rumores sobre heroína. Se ele soubesse teria ficado louco de raiva, porque não era verdade.

Algo anormal aconteceu com Elvis na turnê seguinte, em setembro/outubro de 1974. Ele parecia estar fora de controle, incoerente, com a fala arrastada e a voz afetada, apresentando-se, algumas vezes,  tão debilitado física e emocionalmente. Seria isso resultante de um consumo excessivo de estimulantes?
Ele tomou mais do que estimulantes naquela época. Ele tomou, também,  analgésicos e pílulas para dormir. Esse tipo de coisa faz você arrastar as palavras porque você não se livra dos efeitos a tempo. Falo por experiência própria porque eu também as tomei.

Também foi nessa época que ele apareceu como uma ferida na mão, a qual cobria com bandagens. Ele explicou em alguns shows que uma fã mais exaltada o arranhou e o feriu na mão, e que na noite seguinte outra fã o arranhou novamente no mesmo local, causando uma infecção. Isso é verdade ou ele estava tentando esconder algo?
Era verdade.

Muitos fãs culpam seu médico, Dr. Nick,  como responsável pelo vício de Elvis em remédios. Em sua opinião o Dr. Nick é herói, vilão ou nenhum dos dois?
O Dr. Nick acabou envolvido num estilo de vida que não devia. Ele deveria ter continuado a exercer sua profissão. Ele é basicamente uma boa pessoa.

Após esse período conturbado, ele foi hospitalizado e submetido a uma desintoxicação. Ele voltou muito melhor e com renovado interesse pela música, o que resultou no álbum “Today”.  Entretanto, o que parecia ser um bom ano (1975) terminou de maneira negativa quando o Coronel acabou com os planos de Elvis em estrelar no drama “A Star Is Born”. Porque o Coronel recusou a oferta e como isso afetou Elvis?
Mais uma vez o controle de medo imposto pelo Coronel foi a causa. Ele não gostou do fato de Barbra Streisand ter passado por cima dele e ter ido diretamente a Elvis com a proposta. Ele também receava que Streisand  mostraria algumas coisas a Elvis relativas às negociações do showbizz , que poderiam levar Elvis a questioná-lo sobre suas decisões. Elvis queria fazer o filme, mas novamente cedeu à imposição de Parker.

Falando sobre o Coronel, que parece ser a causa de muitos dos problemas de Elvis, quais são suas opiniões sobre ele como pessoa e empresário? Você acredita que Elvis deveria ter se livrado dele, digamos, depois do “Aloha From Hawaii”?
O Coronel foi bom com Elvis nos primeiros anos mas foi ficando pior porque ele não queria ou não foi capaz de mudar com o tempo. Na minha visão, ele tratava Elvis como um de seus [antigos] shows de circo. Parker era um circense trapaceiro, daqueles com o firme propósito de coletar a grana e correr. Se a carreira de Elvis tivesse ido por água a baixo, sem perspectivas de lucro, Parker o teria descartado. Felizmente Elvis exercia grande fascínio em milhões de pessoas ao redor do mundo e por causa deste carisma e magnetismo, os fãs não o deixavam, não importando o que ele fizesse.

Ele demitiu Parker em setembro de 1973, após o show de encerramento. Você se lembra dessa discussão e porque Elvis voltou atrás em sua decisão?
Elvis se enfureceu e disse algumas coisas pesadas contra os executivos do Hilton no palco do Hotel e Parker então  começou a gritar com Elvis. Elvis não estava de bom humor e retrucou para o Coronel que, se ele não estivesse gostando,  ele estava demitido. Houve idas e vindas com ameaças do tipo: “Você está demitido“,  “Não, eu me demito”. Elvis mandou Parker cair fora. No dia seguinte Parker apresentou ao pai de Elvis uma conta de dois milhões de dólares por despesas anteriores, entre outras coisas. Isso assustou Vernon porque ele sempre temia que Elvis fosse à falência. Ele disse a Elvis que era melhor se entender com o Coronel e infelizmente, mais uma vez, Elvis cedeu. Pra  falar a verdade, no final das contas, era Parker quem devia isso (e muito mais) a Elvis.

Com o Coronel tentando exercer um controle tão forte na vida e carreira de Elvis, ele nunca o confrontou sobre seu abuso de remédios?
Não. Uma única exceção foi em Las Vegas, quando Elvis estava muito mal e estavam tentando fazê-lo ficar coerente, 15 minutos antes do show. Parker se enfureceu quando entrou no camarim e disse a eles que, não importava o que tinha que ser feito, eles deveriam deixar Elvis pronto para  o show porque ele não iria falar aos dirigentes do Hotel para cancelar o show ou que o show seria cancelado para o público. Claro, isso mostra que ele estava apenas interessado no dinheiro,  não no bem estar de Elvis. Depois que Elvis morreu,  ele disse que não sabia dessas coisas, mas era mentira.

A última vez que você viu Elvis  foi em julho de 1976. O que você falou com ele e qual foi a impressão que ele lhe deixou?
Ele estava de mau humor e não falou muito com ninguém, apenas fez o show em Memphis e foi pra casa. Quando voltei a Graceland depois do show, ele já tinha ido dormir e o restante do pessoal tinha ido para casa.

A última conversa que você teve com ele foi em julho de 1977. Você se lembra de algum assunto interessante abordado nessa conversa?
Eu estava morando na Califórnia naquela época, e apenas perguntamos um ao outro como estávamos. Eu já tinha ouvido de outros caras que ele tinha se afastado de todos, menos de Billy Smith, seu primo. Billy me disse que, basicamente, ele só via os outros caras quando estava em turnê.

Com tanta coisa escrita sobre seus últimos dois anos, dá-se a impressão de que Elvis estava acabado, afundado em drogas e apenas esperando a morte. Entretanto você deu uma entrevista para a Elvis Information Network dizendo que “na maioria das vezes ele estava bem”.  Além disso, recentemente tivemos acesso a várias fotos dele andando de moto em Memphis e, no geral, aproveitando os bons momentos. Você acredita que a mídia e alguns biógrafos tendem a exagerar a condição de saúde dele, mesmo que ele realmente tivesse problemas com  medicamentos e de saúde?
Sim, de certa forma. Mas ele não estava em tão boa forma quanto nos anos anteriores.

Após sua morte, muitos rumores sobre câncer começaram a aparecer. Certamente não são verdadeiros, mas como você acha que esses rumores começaram e porque pessoas próximas a ele, como Kathy Westemoreland, continuam insistindo na veracidade desses rumores?
Depois da morte de Elvis, Vernon botou na cabeça que  alguém em Graceland estava vazando informações particulares sobre os acontecimentos em Graceland.  Ele pediu a Billy Smith que contasse a Charlie e Dick Grob que Elvis tinha câncer. Não deu outra. Era o jeito que Vernon encontrou para testá-los. Eu imagino que Charlie contou a Larry Geller e, como Kathy era amiga íntima deles, eu acho que eles contaram a ela, embora ela afirme que foi Elvis e seus médicos que contaram a ela. Nós não acreditamos nisso e se os médicos contaram isso a ela, isso seria violação das leis médicas. Elvis não tinha câncer.

Sabe-se que Elvis teve casos com muitas mulheres. Não parece surpreendente o fato dele nunca ter tido um filho fora do casamento?
Não, pois ele era muito cuidadoso e felizmente nenhuma delas engravidou propositadamente. Ele, com toda certeza, não teve nenhum filho além de Lisa. Digo porque, se ele tivesse tido, elas certamente divulgariam.

Numa recente entrevista você disse: “A única vez que ouvi Elvis pedindo desculpas foi para mim, numa discussão, a única discussão que tivemos. Fiquei chocado quando ele fez isso, porque ele não pedia desculpas; ele ia e te comprava alguma coisa”. Você se lembra dessa discussão, que levou Elvis a fazer algo tão incomum para ele?
Sim, foi por causa de uma mentira que o pai dele contou sobre minha irmã e meu cunhado, que projetaram e construíram o Jardim de Meditação em Graceland e também o quarto de Elvis. Vernon não gostou porque não tinha controle sobre isso e, para piorar, ele era antissemita e nós éramos judeus. Elvis começou a xingar minha família mas ele logo percebeu que fez algo muito errado e foi aí que ele pediu desculpas. Depois que ele nos xingou, mandei ele e o pai dele para “aquele lugar” e ficamos sem nos ver por quatro dias. Quando voltei, ele me disse que sentia muito e me convidou para ser seu padrinho de casamento. Eu o perdoei.

Qual era a melhor parte de ser amigo de Elvis?
Simplesmente  ser seu amigo e ser como um irmão para ele e os caras da máfia original.

Qual sua lembrança mais querida dele?
Seu sorriso.

Como você acha que devemos lembrar dele?
Como uma boa pessoa,  que mudou a cultura do mundo nos anos 1950 e continuar a apreciar sua música.

 Isto é um trecho de meu e-book "Conhecendo Elvis Por Quem o Conheceu", que você pode adquirir diretamente comigo aqui.


*Essa entrevista foi feita por Sergio Biston em 2007, para o site Elvis Collectors Brasil.

Comentários

  1. Essa entrevista foi feita por mim em 2007. Peço por Favor colocar o devido crédito: Marty Lacker entrevistado por Sergio Biston para o site Elvis Collectors Brasil.

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