Dentro de Graceland - Capítulo 6




"SENHOR, POR FAVOR, SALVE MEU GAROTO!"

16 de agosto de 1977 começou apenas como mais um dia quente de verão em Memphis. Elvis estava prestes a começar outra turnê cansativa, e a agitação em Graceland era um reflexo disso. O tamanho e a complexidade de seus shows tinham crescido ao ponto em que se faziam necessárias muitas horas e dias de planejamento e coordenação para que tudo estivesse pronto a tempo.
Elvis era um superstar musical. Embora tivesse ganhado peso, e com alguns fãs se queixando sobre ele ter perdido um pouco de seu entusiasmo, ele ainda era imensamente adorado e seus concertos um grande sucesso de público e, geralmente, os eventos eram vendidos para fora. A geração que o viu surgir nunca desistiu dele e, agora, legiões de novos fãs vinham de toda parte apreciar suas inigualáveis e lendárias performances no palco.
Eu, bem como os demais funcionários de Graceland, nunca tivemos nada muito fora do comum para fazer, além de nossas funções habituais, mas sempre sentíamos a pressão e o estresse sobre Elvis e sua equipe enquanto se preparavam para pegar a estrada, às vezes semanas seguidas. Uma incrível quantidade de tempo, dinheiro e trabalho duro eram reservados para o planejamento e logística desses grandes eventos.
Quando iniciei meu trabalho na manhã daquela terça-feira, pensei como aquele seria mais um dia quente de verão em Memphis. Comecei meu expediente cedo (penso que por volta das seis horas), e o calor e a umidade já tinham começado a se formar. Uma chuva leve, pela manhã, não pôde esfriar as coisas.
Quando entrei, Pauline me informou que Elvis e Ginger estavam lá fora na quadra de raquetebol, jogando com o primo dele, Billy Smith, e sua esposa, Jo.
Coloquei minha bolsa no balcão da cozinha quando, pouco depois, Elvis entrou pela porta dos fundos. Billy e Ginger estavam com ele; lembro que isso foi por volta das 6:30. Elvis parecia estar um pouco agitado e transpirava muito.
Perguntei: “Sr. Elvis, eu posso preparar-lhe alguma coisa para comer?”
- "Não, obrigado, Nancy”, ele respondeu, e depois acrescentou: "Não estou com fome agora, mas com muita sede e gostaria muito de água gelada e, depois, tudo que eu quero fazer é dormir um pouco”.
Os três seguiram para o andar de cima e eu arranjei-lhe um copo com água gelada, que Pauline então levou para ele.
Quando voltou, ela disse algo que soou um pouco estranho para mim. "Ele praticamente arrancou o copo da minha mão!", contou – uma atitude incomum da parte dele. Ouvindo isso, eu não soube o que pensar.
Pauline foi embora, deixando-me sozinha com o turno do dia. Uma outra cozinheira deveria estar de plantão naquele dia para me ajudar, mas ela não apareceu. Tia Delta falou em me ajudar com a limpeza da casa, mas, como ela não gostava de cozinhar, eu sabia que teria de dar conta, sozinha, da maior parte das tarefas.
Assim, iniciei, como sempre, minha rotina diária. Limpei o quarto da sra. Minnie, enquanto tia Delta faxinou a sala da selva e a sala de estar no andar de baixo. Preparei o almoço da sra. Minnie, tomei uma xícara de café com ela, e ela então voltou para o quarto.
Pauline informara-me, antes de sair, que Elvis tinha tido uma noite "muito agitada”, como era comum nas vésperas de suas turnês. Ginger e ele tinham saído montados na moto dele pelas ruas ao redor de Graceland, matando o tempo e tentando relaxar para a próxima turnê dele.
Não era incomum para Elvis ficar fora por horas seguidas após escurecer, apenas circulando ao redor das ruas do bairro Whitehaven. Era algo que ele amava fazer, em parte (eu acho) porque isso oferecia a ele a rara oportunidade de sair de casa sem ser reconhecido e assediado por seus fãs sempre presentes.
Ele e Ginger teriam em seguida retornado para casa, em algum momento depois das dez da noite.
Elvis esperava poder locar um cinema para assistir, com toda privacidade, mais um filme (acho que era "MacArthur"), mas, por alguma razão, acabou não assistindo.
Ricky tinha ido à pizzaria Hut, descendo a avenida Elvis Presley, trazendo espaguete e almôndegas para todo o grupo, mas não tenho certeza se Elvis comeu alguma coisa.
Então, em algum momento por volta das dez e meia da noite, Elvis e Ginger foram ao dentista para um exame odontológico de rotina, e retornaram a Graceland cerca de uma hora mais tarde.
Ouvi de um dos membros da equipe (não lembro quem) que Elvis não estava de bom humor, e por várias razões.
Todos sabíamos que ele estava apreensivo com um livro recentemente lançado, algumas semanas antes, escrito por seus antigos guarda-costas.
A próxima turnê seria a primeira em que ele estaria cara a cara com seus fãs depois da publicação do livro, e ele estava preocupado com a reação de deles quando subisse ao palco.
Além da frustração de não poder locar o filme que ele estava ansioso para assistir, ele e Ginger também estavam se desentendendo sobre várias coisas.
Uma das empregadas, Mary Jenkins, percorrendo a mansão na noite anterior, encontrou-os sentados na penumbra, no quarto de Lisa, discutindo. Ela escutou quando Ginger, bastante enérgica, falou sobre não querer acompanhá-lo na turnê, no dia seguinte.
Assim, as coisas não correram bem para Elvis, naquela noite de segunda-feira.
Eles decidiram jogar uma partida de raquetebol - sem dúvida, para tentar ajudar Elvis a se acalmar, e foi nesse ponto que eles estavam quando eu cheguei pela manhã.
Depois do jogo de  raquetebol e de Elvis subir para seu quarto, não ouvi mais nada sobre ele. Só lembro vagamente de Ricky e, depois, tia Delta, levando alguns medicamentos para Elvis durante toda a manhã.
Até então, nada anormal.
Ao longo dos anos, Elvis desenvolvera uma série de problemas de saúde, além de um quadro muito grave de insônia.
Como muitos astros em suas carreiras estressantes, às vezes ele achava difícil, se não impossível, cair no sono. Com ajuda de seus médicos, ele desenvolveu um método de tomar medicamentos antes de tentar dormir.
Com o tempo, eles se tornaram mais fortes quando a sua tolerância a eles tinha mudado, e os remédios perderam o efeito sobre ele. Ele também sofria de uma variedade de doenças que o deixava às vezes com dores terríveis.
As pessoas têm me perguntado ao longo dos anos se eu percebera a gravidade do uso de medicamentos prescritos para Elvis. Ao recordar esse assunto, a única coisa que lembro é de vê-lo com dor a maior parte do tempo. E, observando sua resistência às tremendas tensões de conseguir manter uma agenda que teria sido impossível para a maioria das pessoas suportar, acho que isso acabou se tornando normal para ele.
Não é que tivéssemos perdido a preocupação por ele; é que tudo aquilo acabou caindo na rotina.
Lembro que tia Delta me contou seu receio, apenas alguns meses antes dele morrer, quando estávamos uma manhã na quadra de raquetebol: “Se ele não parar de tomar tantas drogas, tenho medo de um dia ele morrer”.
Ainda assim, ela continuava a levar-lhe os medicamentos sempre que ele pedia.
Simplesmente estávamos tentando tornar a vida dele mais confortável, no que estava ao nosso alcance.
De maneira que quando os medicamentos lhe foram entregues naquela fatídica manhã de terça-feira, não foi absolutamente nada incomum.
Não lembro [bem] quem estava em casa naquele momento. Parece que Ricky estava dormindo lá em baixo, na sala da piscina. Charlie estava em seu quarto, Dodger no dela. Eu tinha visto Al Strada carregando várias embalagens usadas para transporte das roupas do roupeiro de Elvis e que estavam espalhadas por toda parte, na sala da selva. Joe estava no escritório, localizado atrás da casa principal.
Eu tinha terminado minhas tarefas e estava sentada  perto do balcão da cozinha,  numa pausa, assistindo uma novela (acho que era "Como Gira o Mundo”), quando, de repente, o telefone do quarto de Elvis tocou.
Peguei o telefone, já esperando ouvir a voz ainda sonolenta de Elvis, pedindo o seu café da manhã de sempre.
Mas o que ouvi foi a voz de Ginger - ofegante e muito preocupada, como eu nunca ouvira antes.
Ela perguntou se Ricky, Al Strada, ou qualquer um dos guarda-costas estava por perto. Respondi que eu era a única na cozinha, que tia Delta tinha ido à loja de departamentos Lowenstein comprar alguns itens de última hora para Elvis e Al tinha ido à farmácia, e que ele estava para retornar a qualquer momento.
Logo em seguida Ginger começou a soluçar incontrolavelmente ao telefone, dizendo: “Algo está terrivelmente errado com Elvis!"
Tentei acalmá-la, mas quanto mais ela falava, mais perturbada ficava, soando quase histérica, chegando finalmente ao ponto de eu não conseguir entender suas palavras.
Minha primeira reação foi correr e verificar o que acontecera. Desliguei o telefone e corri o mais rápido que pude, subindo as escadas através do patamar e virando direto para o corredor, no andar de cima.
As portas pretas acolchoadas, à entrada de seu quarto, estavam fechadas, então  passei por elas, virei à direita, no corredor, e caminhei lentamente pela porta aberta, à esquerda, em direção a seu camarim.
Não vendo nada fora do comum, segui lentamente, atravessando o camarim em direção à abertura que dava em seu banheiro, sem saber o que estava mesmo procurando.
Meu coração batia a mais de mil.
Todos sabíamos que aquele era o seu santuário privado e, como tal, respeitávamos isso e procurávamos honrar a sua privacidade, sempre que ele estava em casa.
As portas não estavam trancadas no andar de cima porque ele sabia que nunca ninguém se atreveria a entrar a menos que convocado.
Comecei a indagar calmamente: "Sr. Elvis, você está bem, está tudo bem?"
Não obtendo resposta, caminhei para mais perto da entrada, chegando finalmente ao ponto onde eu poderia realmente o interior de seu banheiro.
Meu coração ficou soterrado quando o vi. Eu ainda não entrara no banheiro propriamente dito, mas podia ver seu reflexo em um espelho pendurado ao longo da parede que levava para a sala.
Elvis estava deitado ao chão, com o rosto afundado no grosso tapete vermelho do banheiro. Parece que ele estivera sentado no vaso sanitário e aparentemente tentou levantar-se, deu alguns passos e em seguida caiu para a frente, sobre o tapete. Seu pijama estava arregaçado para baixo, em torno de seus tornozelos, e eu pude ver o seu traseiro nu apontado ligeiramente para cima.
Meu primeiro pensamento foi de puro pânico. Acho que, instintivamente, sabia que ele estava morto, mas foi um choque encontrá-lo assim.
Aqui estava o artista mais famoso do mundo, numa posição tão desagradável e embaraçosa. Eu sabia que tinha de buscar ajuda.
Quando virei a cabeça para voltar lá ao térreo, notei que a porta que leva para o quarto de Elvis, o quarto em que Ginger aparentemente ainda estava, foi fechada de forma que eu não podia ver nada em seu interior.
Em estado de puro pânico eu não sabia exatamente o que fazer; então, como nada sabia de primeiros socorros, decidi que a melhor coisa a fazer seria pedir socorro. Por força do hábito, ainda estava me sentindo um pouco desconfortável por permanecer no andar de cima sem ter sido realmente convidada pelo próprio Elvis.
Apenas por força do hábito, eu acho.
Tão rápido quanto eu podia, voltei e desci as escadas, ficando muito aliviada ao ver Al Strada entrando pela porta dos fundos. Divisando o pânico nos meus olhos, ele entendeu de imediato que algo estava errado.
Gritei que ele precisava ir lá para cima e verificar Elvis, que ele estava inconsciente, prostrado no chão do banheiro. Ele passou voando por mim e subiu saltando dois degraus de cada vez.
Depois do que pareceram apenas alguns segundos, ele voltou e me encontrou na parte inferior das escadas, onde eu ainda estava de pé, sentindo-me impotente. Com voz ofegante, ele me disse que precisava de ajuda, e que Elvis estava com sérios problemas.
Ficando mais ansiosa a cada segundo eu gritei: "Faça alguma coisa, Al, faça alguma coisa!"
Nesse ínterim Joe Esposito veio correndo para dentro da casa. Ele deve ter vindo do escritório de Vernon, pois Ginger aparentemente tinha ligado para lá pedindo ajuda, depois que eu falara com ela.
Joe e Al correram de volta para cima e em seguida, bruscamente, Vernon entrou pela porta, com sua sobrinha, Patsy, literalmente o amparando.
Ambos estavam visivelmente trêmulos. Vernon, depois de ter passado por vários ataques cardíacos recentes, não estava com boa saúde e, quando os dois entraram pela porta do pátio, estavam de mãos dadas e Vernon chorava. Ele repetia: "Senhor, salva ele! Senhor, por favor, salve meu garoto!" Lentamente, com a ajuda de Patsy, ambos desapareceram pelas escadas.
Justamente quando Vernon e Patsy estavam vindo para a cozinha, Charlie Hodge chegou também, ainda sem saber o que estava acontecendo.
Charlie foi logo tomar uma xícara de café quando notou Vernon visivelmente chateado. Pensando que um de nós tinha feito apenas mais uma brincadeira com Vernon (algo bastante comum), Charlie começou a tirar sarro de Vernon.
Gritei: "Charlie, isso não é brincadeira! Algo está errado com o Sr. Elvis!"
Ao ouvir isso o rosto de Charlie enbranqueceu, e ele também disparou para o primeiro andar. (Mais tarde fiquei sabendo que Charlie estava se preparando para tentar prestar os primeiros socorros a Elvis, mas todos concordaram que era tarde demais para isso).
Apesar do unânime sentimento de que Elvis já estava morto, ainda tentamos nos agarrar à vã esperança de que ele poderia sair dessa se fosse logo conduzido ao hospital.
Tentando manter minhas emoções sob controle, fiquei lá em baixo, no que me pareceu ser uma eternidade, esperando a equipe médica chegar. Observei o monitor da pequena televisão acima do balcão da cozinha, até ver a ambulância passando pelos portões e dirigindo-se para a entrada circular na frente da casa.
Abrindo a porta da frente para os dois técnicos médicos entrarem na sala de estar e indiquei-lhes o acesso a onde estava Elvis.
Um dos paramédicos perguntou em que parte no andar de cima eles deviam ir. Respondi: "Coloque a maca sobre sua cabeça, suba as escadas e faça uma curva acentuada à direita, em seguida passe pela porta e escute a agitação na parte da frente da casa”. E assim eles fizeram. (Ironicamente, lembrei depois que um dos dois paramédicos que apareceram naquele dia e levaram Elvis para o hospital foi o mesmo que, anos mais tarde, levaria Vernon de carro para o hospital e, depois, levaria o corpo de Dodger após a morte dela).
Esperei lá embaixo no que pareceu ser uma eternidade. Eu não queria me intrometer no que estava acontecendo lá em cima e, além disso, eu já tinha visto mais do que devia. Eu sabia que, se eles precisassem de mim, seja lá para o que fosse, me chamariam.
Elvis era meu patrão, mas não somente isso. Ele também era como um irmão para mim, um bom amigo, e o simples pensamento de perdê-lo era mais do que eu podia suportar.
Ao mesmo tempo, no entanto, fico orgulhosa quando lembro daquele dia, quando fui capaz de manter a cabeça no lugar e fazer o que precisava ser feito. É aí que penso, com a consciência tranquila, que fizemos tudo o que podíamos para salvar Elvis. O resto estava nas mãos de Deus.
Como todos em Graceland naquele dia, no entanto, eu ainda me agarrei desesperadamente à esperança de que tudo ficaria bem. Afinal, Elvis ficara doente muitas vezes antes e tinha terminado completamente ok.
Depois de uns quinze minutos, ouvi uma agitação quando eles trouxeram o corpo de Elvis na maca. Devido ao seu peso e ao quarto pequeno, a manobra no topo das escadas não foi tarefa fácil.
Eu estava de pé, na sala de estar, quando eles o trouxeram para baixo. Notei que ele estava usando um pijama azul desabotoado, e que eles o tinham coberto até o peito com um fino lençol azul. Assim que vi seu rosto, quis virar as costas para não ver.
Estranhamente, por um lado, ele parecia estar dormindo. Por outro, no entanto, seu rosto estava azul, parecendo muito distorcido, e não tinha um único músculo em seu corpo se movendo, e ele não parecia estar respirando. Lembro que, naquele instante, em meu coração, eu já sabia que ele tinha morrido.
Palavras não podem descrever a dor que eu senti no íntimo, naquele momento. Foi como se cada pedaço de vida que estava em Graceland estivesse sendo sugado para fora da mansão, apenas para ser substituído pela fria realidade de que nada voltaria a ser o mesmo naquela enorme casa novamente.
Enquanto eles carregavam Elvis para a ambulância, estacionada no lado sul, em direção ao jardim da meditação, a corrida para o hospital começou. Al e Joe saltaram para a parte de trás da ambulância, junto com um dos paramédicos. O outro paramédico subiu ao volante. Os demais correram para encontrar os carros a fim de poder seguir a ambulância para o hospital.
Quando a ambulância estava prestes a partir, o Dr. Nichopoulos, médico pessoal de Elvis, chegou e pulou na parte de trás da ambulância com os outros. Eles fecharam a porta e a ambulância saiu em disparada descendo pela curva em espiral, atravessou os portões, virou à direita, e se dirigiu para o hospital.
O único som que podia ser ouvido na frente da mansão era o barulho da sirene quando eles seguiram para o Hospital Memorial Batista, com a super estrela mais famosa do mundo em seu interior.
Meu coração continuava acelerado.
Vernon não parecia ter força ou vontade de acompanhar o filho até o hospital. Acho que ele, assim como nós, estava lentamente perdendo a esperança de ver seu filho vivo novamente.
Algum tempo depois entramos e nos deparamos com Ginger descendo as escadas e chorando. Quando a vimos descer, ela estava completamente vestida e maquiada. Vernon e eu estávamos na parte inferior das escadas e Vernon perguntou a ela o que tinha acontecido.
Ginger contou que ela tinha ido dormir cedo, mas Elvis estava muito agitado e tinha se levantado para ir ao banheiro para ler. Quando ela acordou várias horas depois (à tarde), Elvis não estava na cama. Ela disse que gritou por ele e, não obtendo resposta, se levantou e caminhou em direção ao banheiro. Olhando pela abertura na parte inferior da porta do banheiro, Ginger viu a luz acesa, e achou que Elvis ainda estivesse lendo.
Ela disse que bateu na porta várias vezes e, então, como não obteve resposta, abriu a porta. Foi então que ela encontrou Elvis, deitado no chão do banheiro. Foi quando ela correu para o quarto e me chamou no interfone.
Olhei para ela e perguntei: "Ginger, por que você demorou tanto tempo para vê-lo?"
Ainda chorando, ela soluçou: "Eu não sei, eu não sei. Eu estava dormindo e não conseguia acordar!"
Vernon e Ginger, aparentemente, não se deram muito bem. Acho que Vernon a enxergava como alguém em quem Elvis não tinha interesse sério. Alguns dos outros funcionários a julgavam dessa forma também.
Ginger e eu almoçamos juntas vários meses depois que Elvis morreu, e eu ganhei uma melhor impressão dela. Penso que ela foi injustamente acusada em alguns aspectos e um pouco mal compreendida nos acontecimentos daquele dia.
Provavelmente, ela nada poderia ter feito para evitar a morte de Elvis, assim como qualquer um de nós. Elvis tinha uma personalidade forte e estava acostumado a fazer as coisas da maneira dele. Ginger era muito jovem na época. Às vezes, acho que alguém a influenciou para que aceitasse se relacionar com Elvis, sendo ela tão jovem.
Mas, naquele dia, Vernon estava determinado.
Naquele dia, mais tarde, estando eu mais uma vez na parte inferior das escadas, Vernon passou quando Ginger estava descendo as escadas.
Escutei Vernon dizendo a Ginger: "Você vai ter que sair agora. Você não é mais bem-vinda nesta casa”.
Agora, chorando ainda mais, Ginger correu de volta para cima, recolheu suas coisas, passou correndo por mim e Vernon e, saindo pela porta dos fundos, partiu.
Fiquei observando quando ela foi embora através da entrada lateral.
Ao contrário de Linda Thompson, que mantinha suas roupas, maquiagem e outros pertences em Graceland, Ginger sempre trazia apenas uma pequena bolsa branca para passar a noite. De fato, ela nunca "se mudou" para Graceland, como várias outras haviam feito ao longo dos anos.
Não lembro de ter lavado, em alguma ocasião, qualquer uma de suas roupas, apesar de ter lavado uma abundância de roupas de outras garotas ao longo dos anos.
Muitas pessoas me perguntam se Elvis tinha realmente a intenção de se casar com Ginger. Eu acho que não.
Acho que no início ele sentiu que poderia transformá-la em alguém que pudesse cuidar dele mas, como o tempo passou, ele percebeu que não poderia "moldá-la" do jeito dele. Ela era muito jovem e muito independente. O próprio Elvis comentara comigo, um ou dois dias antes [de sua morte], que, se ela não fosse com ele nesta turnê, ele estaria indo se encontrar com alguém.
Ele me disse: "Gastei mais de US$ 60.000 com ela e ela ainda não vai fazer o que eu quero que ela faça”.
Ele também chegara à conclusão de que ela ainda estava saindo com outra pessoa. Ele a tinha seguido em várias ocasiões depois que ela saía da mansão; ela alegava estar indo para casa, mas depois ele descobriu que ela estava indo para uma boate, na parte leste de Memphis.
Eu mesma liguei várias vezes para a casa dela, a pedido de Elvis, depois que ela deixava Graceland, apenas para que me informassem, do outro lado da linha, horas mais tarde, que ela não estava lá, [na casa dela]. Acho que ele já tinha chegado ao limite da paciência com ela.
Mesmo assim, fiquei com pena dela quando Vernon a mandou embora, mas acho que ela provavelmente sabia que isso aconteceria.
Então, quando ela deixou Graceland naquele dia, ela levou todas as suas coisas, já embaladas, naquela pequena bolsa branca.
Apesar de Vernon ter pedido para ela sair naquele dia, permitiram-na voltar a Graceland dois dias mais tarde para o funeral, para grande surpresa de muitas  pessoas.
Depois que a ambulância levou Elvis, tia Delta, Vernon, Patsy e alguns dos outros congregados ficaram no quarto de Dodger, chorando e tentando consolar uns aos outros, tanto quanto possível.
Dodger nunca deixou o quarto dela para ir lá em cima durante toda a comoção. Ela foi informada por Patsy e tia Delta do que tinha acontecido, e que Elvis não estava respirando quando foi levado.
Eu não sei se ela poderia mesmo ter subido as escadas, dada a sua fragilidade. Em vez disso, ela permaneceu em sua cadeira de balanço, num estado de profunda tristeza, prostrada com cada novo relatório que era-lhe trazido pelos outros.
Tia Delta provavelmente se manteve melhor do que os outros membros da família. Ela também percebeu que era necessário fazer certas coisas imediatamente, com seu jeito de tentar proteger Elvis.
Assim que Elvis foi levado de Graceland, ela me agarrou pelo braço e disse: "Vamos. Temos que ir lá em cima e livrar-nos de algumas coisas, antes que os investigadores cheguem aqui!"
Não entendi o que ela quis dizer, mas a segui, até o banheiro de Elvis.
Ela explicou que precisávamos nos livrar de quaisquer medicamentos, agulhas e outras coisas, no caso de Elvis morrer e a polícia aparecer para investigar as causas da sua morte. Ela disse que não ficaria bem qualquer uma dessas coisas serem encontradas no banheiro dele ou no quarto.
Como eu estava apenas fazendo o que tia Delta mandou, não achei nada disso ilegal. Ainda estava tentando entender o que tinha acontecido, não me permitindo pensar que Elvis poderia estar morto. Não poderia nem conceber esse pensamento. Acho que, com meu estado de medo e de choque, ela poderia ter me pedido para fazer praticamente qualquer coisa que eu teria feito, ou, pelo menos, eu tentaria fazer.
Recolhi uma lata de lixo do banheiro de Elvis. Sempre deixávamos sacos plásticos nas latas de lixo; então eu tirei o saco plástico e reuní todos os recipientes, frascos de comprimidos, aspirinas e até mesmo algumas seringas de todo o banheiro, colocando-os no saco plástico. Limpamos o banheiro e o quarto, procurando confirmar (em meio à pressa) que os balcões, gavetas e armários estavam completamente vazios e limpos.
Tanto tia Delta quanto eu estávamos com o coração aos pulos enquanto tentávamos verificar se conseguíramos nos livrar de tudo.
Na realidade não fizemos o melhor trabalho do mundo; várias agulhas foram encontradas, mais tarde, pelos investigadores.
Não questionei nada do que estávamos fazendo. Simplesmente fiz o que tia Delta me orientou fazer: "Jogue isso fora, apanhe isso, pegue aquilo lá em cima, pegue aquilo outro no balcão!"
Em seguida, trocamos os lençóis na cama de Elvis, espalhamos as cobertas e substituímos todas as toalhas do banheiro.
Lembro que tia Delta me pediu para olhar debaixo da cama de Elvis, mas estava tão escuro, que eu não quis meter a mão lá embaixo, então deixamos isso pra lá.
Sei que, com tudo isso, tia Delta estava tentando proteger Elvis. Tudo o que eu peguei tinha rótulos de prescrição anexados, então sei que todas as drogas eram legais. Se Elvis estava tomado muitas receitas diferentes isso provavelmente é outra questão. Mas, novamente, "Elvis era Elvis”. Não era nosso trabalho, nem era possível, para nós, protegê-lo de si mesmo.
Descemos as escadas e tia Delta levou os dois sacos plásticos que tínhamos acabado de encher, depositando-os nos principais recipientes de lixo, no quintal. Mais tarde soube que alguém foi lá em cima, no banheiro de Elvis, quando eles estavam tentando reanimá-lo, e também pegou várias agulhas e frascos de comprimidos, e depois os enterrou debaixo de uma árvore no quintal.
Enquanto eu tentava recuperar o fôlego, de repente percebi que não tinha visto Lisa depois de tudo isso. Ela era apenas uma menina, e meus pensamentos começaram a focar em como ela estava lidando com tudo o que estava acontecendo. Deixei de lado meus sentimentos de angústia e decidi que precisava ter certeza de que ela estava bem.
Depois de procurá-la em vão no andar de baixo,  subi as escadas. Ela ainda estava no quarto dela, com a porta fechada. Ela tinha uma prima e um amigo lá dentro com ela.
Bati na porta e a ouvi chorando baixinho dentro do quarto.
Implorei: "Lisa, por favor, saia, querida. Eu preciso falar com você!"
Do outro lado da porta trancada, ouvi sua voz assustada dizendo: "Não, não quero sair. É meu pai, não é? "
Não encontrando outra forma de lidar com a situação, respondi: "Sim, querida, é. Mas eu não posso te dizer nada agora. Você precisa descer comigo”.
Finalmente, depois de alguns minutos a porta se abriu e ela correu soluçando para meus braços. A Segurei por alguns minutos e então caminhamos com meu braço em torno de seu pequeno ombro através do corredor. Descemos as escadas e entramos na cozinha.
Senti que seria melhor para ela estar perto de pessoas como sua avó, tia Delta e Vernon, até que pudéssemos ter certeza do que acontecera [a Elvis]. Ela se animou um pouco junto deles e, eventualmente, saiu para passear com seu carrinho de golfe.
Depois do que pareceu ser uma eternidade, o Dr. Nick, juntamente com dois paramédicos, voltaram a Graceland com a notícia que todo mundo suspeitava  ser verdade. Os dois paramédicos, eu descobri depois, voltaram com o médico para Graceland  pelo receio de que poderiam ser necessários para atender Vernon  quando ele ouvisse a triste notícia da morte de seu filho.
Quando o Dr. Nick entrou no quarto de Dodger, eu acompanhei os paramédicos até a sala de jantar, onde eles  sentaram à mesa da sala de jantar. Os servimos com limonada enquanto eles esperavam o Dr. Nick.
O doutor entrou no quarto de Dodger, onde a família estava reunida, e anunciou que Elvis fora declarado morto no hospital. Repetiu várias vezes que sentia muito, mas o fato é que Elvis tinha morrido. Acho que ele estava tentando dar a notícia tão gentilmente quanto podia, tentando, de alguma maneira, talvez, suavizar o golpe da morte de Elvis.
Mas não funcionou. Após o anúncio, o caos imediatamente irrompeu em toda a casa. Todo mundo começou a chorar e gritar, e alguns até correram de sala em sala como se estivessem tentando encontrar algum conforto, indo para outro lugar.
Lembro que Vernon caiu em uma cadeira no corredor, com o braço esquerdo apoiado no suporte da mesa. Ele estava chorando: "Meu bebê se foi... meu bebê se foi!"
Ele parecia tão frágil e perdido. Meu coração estava de luto por ele, sabendo que não havia nada que alguém pudesse dizer ou fazer naquele momento para confortá-lo.
Foi um dia tão triste, que eu sei que nunca vou esquecer. Diante daquela terrível notícia,  todos tiveram que lidar com sua dor da melhor maneira que podiam.
Levou um longo tempo antes de todos eventualmente se refazerem. Acho que muitos de nós teríamos chorado até não termos mais lágrimas para chorar.
Aproximadamente às 3:30 da tarde o noticiário nacional transmitia a notícia da morte de Elvis. Em menos de um minuto os telefones começaram a tocar.
Chamadas vinham de todas as partes da cidade, em seguida, do estado,  depois, do país, e, por fim, de todo o mundo, conforme a notícia de sua morte se espalhava como fogo.
Foram tantas chamadas que, em um ponto, o sistema telefônico se desligou completamente.
Elvis tinha ido embora. Tivemos de renunciar às nossas lágrimas por ele, para que o mundo inteiro pudesse dizer adeus a um dos talentos musicais mais originais que já existiu no mundo do entretenimento. Nos próximos dias, manifestações de simpatia e de luto teriam lugar, vindas do presidente dos Estados Unidos, de capitais e de governos ao redor do mundo. E isso se daria em Graceland, um lugar que nos últimos dez anos se tornara uma segunda casa para mim.
As homenagens mais bonitas e sinceras vieram de seus fãs, aqueles que o amavam e à sua música. Milhares de arranjos de flores que chegavam em Memphis, cada um representando uma homenagem silenciosa para a estrela cadente. Uma estrela de magnitude sem precedentes que tinha brilhado muito antes do que deveria.
Estou certa de que Elvis teria ficado impressionado e profundamente tocado em saber que tantas pessoas o amavam e apreciavam o seu talento. O rei se foi, e nunca haverá outro como ele.
Ele se foi, mas o restante do mundo  permanecia. Precisávamos continuar, mesmo em meio às lágrimas. Um funeral tinha que ser planejado e Graceland, a casa de Elvis, teria de acomodar a magnitude desse funeral.
Também lembramos que agora a pequena Lisa Marie exigia nossa atenção imediata. Tão ruim quanto foi para o resto de nós, ela tinha acabado de perder seu pai, e sua mãe estava a meio caminho, do outro lado do país, em Los Angeles.
Deve ter sido uma provação terrível para Lisa, aquele momento.
Ela tinha idade suficiente para entender que algo terrivelmente ruim acontecera a seu pai, mas, ao mesmo tempo, ela era muito jovem para poder compreender plenamente o significado disso. Nenhum de nós foi capaz de ajudá-la a compreender, já que estávamos tão chocados quanto ela com o que tinha acontecido.
Acho que Lisa realmente não ouviu o Dr. Nick fez o anúncio da morte do pai dela. Ela poderia estar lá fora, tendo felizmente sido capaz (como somente uma criança pode fazer em um momento como esse) de desviar-se e montar em seu pequeno carrinho de golfe azul e dirigir em torno do terreno e assim escapar de uma cena que ela não conseguia entender.
Em algum momento ela voltou para casa e, ao deparar-se com todo aquele surto emocional, começou a correr de sala em sala, chorando e pulando.
Só mais tarde é que ela pôde se acalmar um pouco.
Ela entrou no quarto de Dodger e ligou para Linda Thompson, discando o número que sabia de cor. Foi ela quem contou a Linda que Elvis morreu. Foi assim que Linda soube da morte de seu ex-namorado.
Muitas vezes me perguntei o que ela lembra sobre esse dia. Meu coração estava partido por ela, e eu queria tanto poder voltar aos dias [felizes], quando ela e eu nos divertíamos tanto juntas.
Todas as recordações me vieram à tona, lembranças de todos os alegres momentos que ela e eu tínhamos em comum naquela grande e maravilhosa casa que havia se tornado uma parte de minha vida.
Mas, infelizmente, agora não era um dia feliz. Tínhamos um funeral para organizar.

Isto é um trecho de "Dentro de Graceland", de autoria de Nancy Rooks, ex-empregada de Elvis Presley, um testemunho precioso do dia-a-dia do rei do rock, cobrindo os últimos 10 anos de sua vida. A tradução em português é de Roseane Maria Silva, e eu tive o privilégio de revisar o texto e compilar o e-book em PDF. Baixe-o gratuitamente aqui.

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