Dentro de Graceland - Capítulo 10



A VIDA DEPOIS DE ELVIS


Estávamos todos apreensivos, achando  que a morte de Elvis significaria o fim de nosso trabalho em Graceland. Felizmente, estávamos enganados.
Alguns dias depois da remoção do corpo de Elvis para Graceland, Vernon reuniu todos os empregados na cozinha.
Não apenas nossos receios foram aliviados, mas, na verdade, tivemos um novo alento com o comunicado de Vernon.
Ele explicou-nos que não tinha a intenção de fazer muitas mudanças em Graceland, de imediato. Sentado na cadeira, falou: "Vocês tem sido uma parte do mundo de Elvis por muito tempo, e nada vai mudar, esta casa ainda continua sendo dos Presley. Enquanto puder, pretendo mantê-la assim. Afinal de contas, minha mãe e minha irmã ainda vivem aqui, e isso não vai mudar”.
De fato, tudo praticamente permaneceu o mesmo enquanto a família  Presley morou ali. Como Vernon determinara, nossas funções não mudaram em nada. Até porque as mesmas atividades precisavam ser mantidas para que a mansão continuasse a “viver”.
No entanto, outros tipos de mudança foram feitos na casa, deixando alguns dos amigos de Elvis preocupados. Por exemplo, Charlie Hodge, que residira na mansão por tantos anos, e que tinha desejo de se tornar parte da família, foi mandado embora. Boatos diversos foram contados sobre as razões dele ser mandado embora por Vernon, mas tais boatos não correspondem à realidade dos fatos.
A verdade é que  Charlie precisava fazer jus aos pagamentos que recebia de Vernon.
Depois da morte de Elvis, as atividades de Charlie ficaram limitadas em Graceland.
Vernon então perguntou se ele queria trabalhar como segurança no jardim da meditação, para vigiar o túmulo de Elvis.
Charlie fez isso por um tempo, mas, com tanto tempo livre disponível, ele decidiu voltar a fazer o que queria.
Ele quis tentar gerenciar um pequeno grupo musical em Memphis e começou, de fato, a fazer isso.
Quando Vernon descobriu, ele solicitou a Charlie que escolhesse entre trabalhar apenas em Graceland ou seguir seu caminho. Então Charlie decidiu que era hora de seguir o próprio caminho.
Billy Smith, que havia se mudado com a família para uma casa móvel na parte de trás de Graceland (essa casa móvel lhe fora disponibilizada por Elvis), também foi mandado embora.
Houve alguma repercussão negativa sobre isso. Ele explicou a Vernon que Elvis tinha-lhe dado a casa móvel  e que planejava transferi-la do terreno para outro lugar.
Vernon, por sua vez, disse a Billy que Elvis nunca teve a intenção de dar-lhe a casa móvel  e informou que a casa deveria permanecer em Graceland.
Billy, um membro fiel da família, bem como amigo e empregado de Elvis por muitos anos, acabou saindo “de mãos abanando”,  por todos os anos de serviços prestados.
Vernon se mudou para o apartamento do anexo, depois que foi reformado, em 1978, quando se divorciou de Dee, sua segunda esposa.
O apartamento do anexo foi reformado com dois quartos, dois banheiros, uma cozinha nova e uma sala de estar. O apartamento ficou muito bonito depois de reformado.
Vernon continuou na administração dos negócios de Graceland no escritório atrás da propriedade, com a ajuda de várias assistentes.
Ele começou a namorar uma enfermeira chamada Sandy Miller, e os dois tornaram-se muito íntimos. Ela tinha três filhos de um casamento anterior e Vernon se deu muito bem com eles.
As coisas estavam começando a melhorar para ele novamente.
Sua saúde, no entanto, estava começando a se deteriorar. Seu coração continuou a incomodá-lo.
Em 26 de outubro de 1978, chamamos uma ambulância para ele porque ele estava se queixando de dores no peito.
Ele foi internado no Hospital Batista, o mesmo aonde Elvis fora levado.
E por volta das 03:30 daquela tarde, foi anunciado que ele sofrera outro ataque cardíaco. Os médicos informaram que a coisa foi séria, mas que ele estava estável.
Eu fui visitá-lo no dia seguinte. Ele me disse por telefone que estava faminto. Com voz fraca, ele riu e disse: "Nancy, você sabe o quanto eu odeio comida de hospital, e esta é uma das piores que  já comi. Eu com certeza gostaria de ter [aqui] um pouco da comida que você faz”.
Então eu levei o que ele me pediu: bife picado, feijão verde, mostarda, batata cozida e pãezinhos quentes.  Ele devorou tudo.
O médico nos disse que ele parecia estar melhorando.
No dia seguinte novamente honrei seu pedido de comida. Desta vez ele comeu frango frito, couve e broa de milho.
Enquanto ele comia, começamos a conversar sobre agricultura. "Eu sempre amei a agricultura", ele me disse. Ele me perguntou se meu marido ainda estava plantando muito; respondi que sim. Ele disse: "Você pede a ele para plantar algumas ervilhas e milho branco para mim?” Prometi que sim.
No início de novembro, Vernon estava bem o suficiente para receber alta. Mesmo parecendo muito frágil e cansado, ele estava muito contente de poder voltar para casa.
Ele tentou, a conselho dos médicos, fazer diariamente um pouco de caminhada, mas aos poucos, por causa da fraqueza. Tivemos de conduzi-lo  em torno da mansão, a maior parte do tempo em uma cadeira de rodas. O levávamos ao quarto de sua mãe, onde passavam muito tempo conversando.
Dodger não estava em melhor forma que ele; ela, também, começara a ficar confinada à cadeira de rodas.
Às vezes levávamos os dois juntos, cada um na sua cadeira de rodas, à volta de Graceland, para entretê-los.
Vernon chegou ao ponto de perder o apetite regularmente, começando, assim, a perder peso, ficando com uma aparência ainda mais frágil.
Diversas vezes pude fazê-lo comer alguns bolinhos, milho e ervilhas, (que ele sempre amou), nos dando um pouco de esperança de melhoras.
Infelizmente, no entanto, não foi o caso. Chegou uma hora em que se precisou  mantê-lo vivo com uma máquina de oxigênio.
A última vez que vi seus olhos se iluminarem foi quando Lisa Marie chegou de Los Angeles para visitá-lo. Ele realmente amava sua neta.
O sr. Vernon veio a falecer na manhã de 26 de Junho de 1979. Outra lenda de Graceland se fora.
Agora, como seu filho, ele estava num caixão, no mesmo lugar, na sala de estar, em frente às portas da sala de música.
Uma cerimônia foi realizada com amigos e familiares e, num dia quente e ensolarado, seu caixão foi conduzido pela porta da frente até uma sepultura que o esperava, entre seu filho e sua primeira esposa, no Jardim da meditação.
Menos de um ano depois, em uma noite de maio de 1980, Dodger morreu tranquilamente em sua cama, enquanto dormia.
Nós, as empregadas, tínhamos ficado [continuamente] em turnos, sentadas e conversando com ela durante todo o dia, no caso de ela precisar de alguma coisa. Eu tinha ido para casa no início da noite, e não estava com ela quando faleceu.
Eu não a vi outra vez, até que a trouxeram de volta para casa, deitada (assim como o filho e o neto) num caixão, na mesma sala. Esses funerais consecutivos já começavam a estressar e angustiar a todos nós.
Vovó parecia tão bonita, com um vestido azul e o cabelo preto. Tínhamos sido amigas muito próximas em todos aqueles anos, e ainda hoje sinto muito a ausência dela.
Embora não tendo uma grande multidão como no enterro do filho, um grupo considerável de amigos e parentes compareceu para dar-lhe o adeus. Ela, também, foi sepultada no Jardim da Meditação, completando, assim, o mausoléu.
A família estava reunida novamente.
Depois da morte de Dodger, o escritório na parte traseira de Graceland  foi fechado.
As assistentes foram, aos poucos, dispensadas, e nós começamos a fazer parte do trabalho delas, atendendo  a telefonemas.
Empregos, antes realizados por membros de confiança da família, foram ocupados por funcionários contratados, que nem sempre eram as pessoas certas para as funções certas.
Lentamente, Graceland  foi deixando de ser um lugar com calor humano e familiar e se tornando numa empresa, num grande negócio.
Começava a se extinguir os laços de amizade e confiança, de pessoas que trabalhavam unidas; o "toque humano" foi gradativamente desaparecendo.
Poucos meses antes de morrer, Dodger estava desgostosa em ver como as coisas estavam mudando em Graceland. Ela sentiu que as pessoas que estavam sendo contratadas não estavam ali por amor [a Elvis, seu legado e sua família].
E ela queria falar publicamente sobre isso.
Chegou o ponto em que ela ficou tão frustrada que contatou uma das estações locais de TV, solicitando uma equipe de reportagem para a varanda em frente a Graceland, onde então ela poderia dar um depoimento sobre seus sentimentos.
Ela já estava na cadeira de rodas e me dito para conduzi-la à porta da frente quando, no último instante, tia Delta pôde convencê-la a desistir. Mas ela permaneceu em seu pesar, até o dia em que morreu.
Vovó tinha sido a força estabilizadora, o toque feminino, que dera vida a Graceland, e agora ela se foi.
Tia Delta passou a residir sozinha em Graceland. Ela continuou no quarto dela, que ficava fora da cozinha, perto da garagem. O quarto era espaçoso, com uma cama "king size" e uma variedade de móveis. Originalmente tinha sido um quarto para empregados, e acabou se tornando de tia Delta quando ela se mudou para Graceland, em 1967.
O quarto dela tinha seus próprios armários de roupas e um banheiro com janela com vista para o gramado, na frente da mansão.
Muitos visitantes que fazem excursões pela casa nem sequer estão conscientes da existência do quarto, uma vez que ele não está aberto às visitas.
A porta que leva para o quarto está no fim da cozinha, ligeiramente para a direita quando se olha dentro da cozinha. Está localizado atrás da parede de cortina imediatamente à  esquerda enquanto se caminha pelo corredor para o quarto da selva à direita, após subir as escadas do porão.
Sentimos uma solidão ocasional em tia Delta, depois que Elvis, Vernon e Dodger morreram. Para ela, ser a última Presley ainda viva em Graceland deve ter sido uma sensação terrível.
Todos continuamos com nossos afazeres em Graceland - cozinhando, limpando, faxinando, mantendo tudo enfim funcionando como sempre fizemos. A decoração da mansão, quando da chegada do Natal, também foi mantida.
Tia Delta ocasionalmente recebia visitas de amigos, e nós lhes servíamos refeições. Mas a maior companhia dela era seu cãozinho, "Edmund”, um spitz que Elvis lhe dera.
Posterior e infelizmente, Edmund morreu e nós o enterramos com uma pequena lápide, na área de pastagem, próximo à cerca ao lado da propriedade.
Ela adquiriu outro spitz, a quem deu o nome de "Edmund II”.
Assim como seu antecessor, Edmund II viveu luxuosamente e sendo mimado com muito carinho. Alguns funcionários diziam brincando, para provocar, que na próxima reencarnação queriam voltar como um dos cachorrinhos da tia Delta.
Tia Delta sempre procurou se certificar de que todos tratavam bem o seu cãozinho.
Em 1993, tia Delta faleceu enquanto dormia. Ela, como Vernon, sofreu com o declínio da saúde e, ao final, ficou confinada à cama, a maior parte do tempo. Embora ela tenha feito muita falta, posso afirmar que sua morte foi uma benção, porque a livrou de seu sofrimento.
Seu funeral não foi realizado em Graceland, mas na capela do cemitério Forest Hills, e ela foi enterrada numa cova não muito longe de onde Elvis e Gladys originalmente haviam sido seputados.
Dezenas de familiares e amigos compareceram ao funeral para dar-lhe as últimas homenagens.
Após sua morte, a cozinha foi aberta como parte das excursões. É difícil caminhar pela mansão à noite, como às vezes eu faço, sabendo que os quartos estão todos vazios, exceto para o trabalhos ocasionais de manutenção ou limpeza.
Depois de tantos anos e tantas atividades, é difícil imaginar que não há mais ninguém.
Tenho certeza de que tia Delta nunca imaginou que seria a última Presley morando na casa, quando ela se mudou para lá em 1967.
Sua morte marcou o fim de uma magnífica lenda. Uma parte de Graceland morreu com ela, a última ocupante de uma grande e veterana casa que tivera sua quota de bons e maus momentos. É, hoje, uma mansão com muitas lembranças silenciosas.
Eu sou enormemente grata por ter sido parte de tudo que se deu dentro de Graceland.

                                                        FIM

Isto é um trecho de "Dentro de Graceland", de autoria de Nancy Rooks, ex-empregada de Elvis Presley, um testemunho precioso do dia-a-dia do rei do rock, cobrindo os últimos 10 anos de sua vida. A tradução em português é de Roseane Maria Silva, e eu tive o privilégio de revisar o texto e compilar o e-book em PDF. Baixe-o gratuitamente aqui.
                                                                         

                               

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