Dentro de Graceland - Capítulo 2




APRENDENDO O MEU CAMINHO DE VOLTA

Voltei ao trabalho no dia seguinte, cheia de expectativas e me perguntando o que o novo dia traria. Comecei o segundo dia do mesmo jeito que no anterior - varrendo, limpando, mantendo a casa em ordem de forma geral. Ao fim do dia eu estava na cozinha ajudando Daisy, quando Priscilla entrou.
Fiquei impressionada com o quão pequena e bonita ela era. Ela parecia tão jovem! Nós trocamos gentilezas e eu me apresentei. Notei que, embora educada, ela era um pouco mais reservada que os outros membros da família que eu conhecera no dia anterior. Lembro-me que ela estava de calça escura e uma blusa cor clara. Seu cabelo era de um escuro comprido e encaracolado.
Ela e Elvis tinham se casado há apenas algumas semanas e ela tinha vindo para a cozinha para ajudar com o café da manhã de seu jovem esposo.
Ajudei Daisy a preparar primeiro o café da manhã de Priscilla: torradas francesas, um ovo cozido, bacon e uma xícara de chá quente. Ela realmente amava chá quente, e eu aprendi a fazê-lo com uma colher de chá de açúcar e um pouco de leite (me custou algum tempo e várias tentativas antes de aprender a fazer a mistura de leite e chá do jeito que ela gostava, mas finalmente aprendi). Elvis tinha pedido para levar o café da manhã até seu quarto e, depois de terminar seu próprio café da manhã no balcão da cozinha, Priscilla queria nos ajudar a preparar o café da manhã dele. Ela cozinhou algumas coisas e me ajudou a carregar parte da comida numa bandeja separada, e então nós duas seguimos pelas escadas até o segundo andar e entramos no quarto.
Ele ficou agradavelmente surpreso quando Priscilla entrou no quarto comigo levando parte de sua comida. Ela estava determinada a ser a melhor esposa que pudesse, e isso incluía aprender quais os alimentos preferidos dele.
No segundo dia já começava a me sentir em casa naquela mansão e não tive problemas para entrar na rotina e saber o que era esperado de mim.
Realmente não havia nada programado; apenas, como tia Delta e Vernon tinham me dito no primeiro dia, era “fazer o que precisava ser feito”. Eu rapidamente me adaptei à programação de trabalhar para Elvis,  e estabeleci uma rotina diária de limpeza.
Um mês depois de contratada, Daisy precisou de uma licença para ir a um funeral de um parente distante. Mais tarde ela soube que tia Delta e Priscilla consideraram sua ausência demasiado longa, e por várias razões. Ela acabou ficando fora por vários dias após o funeral. Então, no dia em que voltou, ela estava fazendo algo na cozinha e eu estava ajudando.
Eu tinha acabado de levar a refeição de Elvis e Priscilla na sala de jantar e, ao voltar para a cozinha, comecei a falar com ela.
Foi quando Priscila entrou na cozinha e, na minha frente, disse a Daisy que seus serviços já não eram necessários, e que ela deveria pegar seu último salário imediatamente no escritório.
Daisy começou a chorar e foi para o quarto de Dodger. Eu a segui até o quarto e ouvi ela perguntando a Dodger se ela poderia fazer algo para ajudá-la. Dodger respondeu que sentia muito, mas ela não tinha controle sobre quem era contratado ou demitido.
Acho que Dodger teria gostado de poder pedir para ela ficar, porque ela e Daisy sempre se deram muito bem, mas ela aparentemente sentiu que não era de sua alçada interferir em assuntos dessa natureza. E ela não se achava em posição de ir de encontro à óbvia vontade de Elvis e Priscilla. Bem, como eu me lembro, Daisy saiu imediatamente e nunca mais voltou a Graceland depois disso.
Depois que Daisy foi embora, Priscilla me chamou à parte e me comunicou que eu ficaria no lugar de Daisy como cozinheira, além de manter os meus deveres como empregada, e que eu trabalharia lado a lado com Maria, a outra cozinheira do horário da manhã.
Portanto, em um mês, eu fora promovida de simples empregada para cozinheira. Eu realmente não gostei da demissão de Daisy, mas, olhando para trás, sei que isso me deu a oportunidade de me aproximar de Elvis e sua família.
Sempre havia mudanças ocorrendo no tocante ao pessoal da criadagem. Ao longo dos anos, Elvis empregou muitas e diferentes cozinheiras. Alberta, que Elvis provocativamente chamava de "Alberto V05" (nome de um creme de pentear usado após o xampu), tinha sido a primeira cozinheira/empregada da família Presley. Ela foi contratada quando a família ainda morava em Audubon Drive e mudou-se com eles para Graceland. Eventualmente, Pauline foi adicionada à equipe, juntamente com Maria, Lottie e eu.
Havia algumas outras que trabalharam dentro e fora ao longo dos anos. Graceland, mantendo uma programação de 24 horas, sete dias por semana, exigia um monte de gente, e também envolvia muita sabedoria para manter as coisas funcionando sem problemas. Eu procurava fazer o meu melhor para aprender tudo o mais rapidamente possível.
Conforme o tempo passava, eu acabei fazendo um pouco de tudo em Graceland. Aprendi o que era esperado de mim para manter a casa e o ambiente com seu melhor aspecto, e para ajudar a manter a casa funcionando sem problemas.
Depois de limpar as mesmas áreas repetidamente, você começa a ter uma ideia do que parece ser bom e o que não parece, do que funciona e o que não funciona.
Como tudo o mais, alguns aspectos do trabalho são sempre mais agradáveis que outros.
Uma das minhas tarefas mais agradáveis era a limpeza e a manutenção da sala de troféus. Ela reunia muitas das realizações feitas por  Elvis. Passei muitas horas limpando todos aqueles troféus, prêmios, apresentações e certificados emoldurados, ficando totalmente imersa na contemplação dos diversos prêmios já que lia cada um deles enquanto os limpava.
No final da década de 1960, seus macacões também foram guardados na sala dos troféus, e eu amava cuidar deles também.
Foi uma honra estar tão intimamente envolvida com alguns dos bens mais valiosos de Elvis, e tê-los sob os meus cuidados.
Falando de bens valiosos, eu quase fui responsável por danificar um dos bens mais caros de Elvis.
Um dia pedi a tia Delta para limpar a poeira do lustre que ficava acima da mesa da sala de jantar.
Cuidadosamente, tirei meus sapatos, peguei uma toalha e a estendi na mesa, fiquei de pé sobre a toalha e comecei a fazer a limpeza do lustre.
Limpei todas as luzes na primeira haste e então pensei que a maneira mais fácil de limpar o restante deles seria girando o tronco do lustre de cada vez, de pé em um ponto da mesa, conforme ia limpando. Para minha surpresa, descobri que poderia girar todo o lustre sem muita dificuldade.
Então assim eu fiz. Limpei todas as luzes em uma haste e, em seguida, girei o lustre para a esquerda para chegar à fileira seguinte. Dessa forma, pensei comigo mesma, eu não teria que andar sobre a mesa. Tudo estava funcionando sem problemas e fiquei surpresa com a facilidade com que o lustre girava.
No momento em que cheguei à última haste, e estando satisfeita com meu “plano” de limpeza, senti, de repente, o peso do lustre começando a escorregar para baixo levemente. Dentro de alguns segundos começou a deslizar ainda mais, até que, finalmente, eu tinha meus braços sob ele, temendo que a peça inteira estava prestes a cair do teto.
Comecei a gritar, e, em resposta, Mary, a outra cozinheira, veio correndo à sala. Ao me ver, disparou para fora, à porta da frente, e trouxe George Coleman, o eletricista, que, por sorte, estava fazendo alguns reparos na frente da casa. Depois de uma rápida olhada, pulou no lado oposto da mesa e começou a girar todo o lustre na direção contrária.
Como eu descobriria mais tarde, o lustre não tinha sido devidamente fixado no teto, e, conforme eu o rodei para limpá-lo, acabei, inocentemente, desacoplando-o do teto.
George, após o conserto, explicou-me que aquele lustre, particularmente, era o maior que havia na casa, e o mais caro. Ele também observou quão sortuda eu era pelo fato de não ter caído sobre mim. Eu poderia ter me machucado seriamente devido ao enorme peso, concluiu ele.
Elvis, felizmente, estava dormindo em seu quarto lá em cima quando tudo isso aconteceu, e, ao que parece, ele nunca ficou sabendo do incidente. George me garantiu que, mesmo se o lustre inteiro tivesse se espatifado (na hipótese de eu escapar ilesa), Elvis se limitaria a rir sobre o assunto. Ainda assim, fiquei aliviada em saber que Elvis nunca soube disso. E, claro, eu nunca mais limpei o lustre daquele jeito outra vez.
Já pensei muitas vezes, ao longo dos anos, como fui feliz por ter um emprego em algo que realmente gostei, por tanto tempo. Nos dez anos em que trabalhei em Graceland, enquanto Elvis vivia (eu continuei a trabalhar lá depois que ele morreu), eu só perdi cinco semanas de trabalho devido a uma operação de tireoide. Somente posso dizer que todos os dias foram divertidos.
Sempre procurei fazer como tia Delta e Vernon tinham me dito no primeiro dia – “tudo o que precisava ser feito." Isso incluía tudo o que se possa imaginar. Ajudava tia Delta no quintal a recolher os ovos no galinheiro, a pintar em torno da casa, varrer as folhas para fora da varanda, atendia os telefonemas, levava as roupas para a lavanderia. Eu era a atração de muitos olhares quando transportava um dos macacões de Elvis para o Sr. Acker, na Lavanderia Whitehaven e quando tomava conta de Lisa Marie. Lavei e encerei os famosos carros de Elvis, e até mesmo cheguei a costurar as calças de Elvis, enquanto ele ainda as vestia.
Não havia quase nada em Graceland que eu não tenha feito. Algumas das tarefas mais memoráveis para mim eram as que envolviam estar perto de Elvis durante os raros momentos em que ele só queria alguém para conversar. Como todo mundo, ele era humano, e às vezes ele só queria alguém para conversar, e eu tive a sorte de ser a mais próxima a ele, nesses momentos.
Eu limpava o escritório dele no andar de cima e ele entrava na sala, sentava em um dos sofás, e começava a falar comigo sobre coisas que o incomodavam. Às vezes, ele começava reclamando sobre como alguém estava se aproveitando dele, ou sobre um problema particular que ele estava tendo com outro dos seus funcionários.
Na maioria das vezes, no entanto, ele só queria falar sobre assuntos em geral. Outro tema frequente era sobre religião, e em várias ocasiões passamos várias horas discutindo seus pensamentos sobre a morte e o céu. Ele realmente acreditava na vida após a morte, e compartilhou comigo uma vez que ele passou muito tempo sentado na cama dele pensando como seria ver a mãe dele novamente depois que ele morresse.
Ele me disse, em várias ocasiões, que queria morrer em 14 de agosto, na  mesma data em que sua mãe morreu. (Eu mais tarde ficaria maravilhada com o quão perto ele chegou desse dia.) Nós compartilhamos vários desses momentos particulares juntos e são memórias muito valiosas para mim.
Eu também lembro com saudade das horas passadas na cozinha em Graceland. Nesses muitos anos passados ali, eu obtive uma rara visão do que o rei do Rock and Roll gostava de comer.
Como qualquer outra pessoa, havia alimentos que ele realmente gostava, bem como aqueles que não gostava. Muita gente não sabe, por exemplo, que ele tinha uma grande aversão a peixe. Eu nunca soube por que ele não gostava muito, mas desde cedo aprendi a não sugerir peixe para sua refeição. Ele me disse várias vezes que não gostava do cheiro de peixe na casa.
Enquanto ele estava fora, ou em Hollywood fazendo filmes, tia Delta ou Dodger diziam: "Estou com vontade de comer peixe esta noite e acho que podemos comer, já que Elvis está fora”. O único cuidado que tínhamos era consumir o peixe vários dias antes dele voltar, para que o cheiro fosse completamente extinto da casa.
Uma das perguntas que mais frequentemente me fazem é: “O que Elvis gostava de comer?”
Com algumas exceções, como peixe, cozinhar para ele era muito fácil. Ele gostava do que eu chamo de "estilo de comidas do Sul", que é o tipo de comida que eu tinha sido criada comendo.
Muito tem sido dito sobre ele ser parcial a este ou aquele tipo de comida, mas o fato é que ele gostava de uma grande variedade. Ele era fixado em um estilo simples de comidas do sul, o que significava grande quantidade de manteiga, molho de carne e gordura. Ele gostava de alimentos simples, não de alimentos formais.
Ele adorava frango frito, bolo de carne, carne assada, lasanha, e outras carnes de estilo saudável, servidos com creme de batata, ervilhas, feijão verde, milho, tomate e outros vegetais, tudo servido em grandes porções.
Todo mundo já ouviu as histórias dos sanduíches fritos de banana com manteiga de amendoim, dos grandes cheesburguers com batata frita e dos sanduíches de bacon gigantes. E, sim, era isso mesmo. Em suma, ele gostava de comer tudo isso, especialmente nos últimos anos. E, alguns podem dizer que, infelizmente, ele teve o luxo e os meios para ter tudo o que ele queria.
Desde a primeira vez que comecei a cozinhar para ele, fiquei preocupada com a saúde dele, vendo-o comer todos esses alimentos ricos e gordurosos que ele queria que preparássemos para ele.
Seu café da manhã normalmente consistia de uma enorme quantidade de bacon da marca "King Cotton", salsichas, ovos, torradas, café com doces, e suco de laranja. Eu vivia preocupada vendo ele comer todo aquele bacon gorduroso; uma vez, tentei tirar várias tiras de bacon do seu prato antes de levá-lo até seu quarto. Mas ele estava me observando pelo monitor de TV instalado em seu quarto e, quando eu entrei no quarto, advertiu-me que não fizesse mais isso.
Expliquei que só estava tentando cuidar de sua saúde, e ele respondeu: “Eu preciso disso para ter energia e me manter forte por causa da minha agenda, que é muito exigente. Eu tenho um monte de pessoas que depende de mim”.
Pelo menos eu tentei.
Ele também tinha uma enorme queda por doces. Aliás, ele provavelmente gostava de doces mais do que qualquer outra pessoa que eu já conheci.
Ao contrário de muitas pessoas que gostam de doces, ele não era muito de comer biscoitos ou bombons (embora ele tivesse predileção por copos de manteiga de amendoim da marca “Reese's”). Em vez disso, por exemplo, ele ficava sentado na cama, comendo grandes quantidades de caixas de sorvetes e tortas caseiras. Torta de creme de banana, de chocolate e torta de creme de ovo eram suas favoritas.
Ele também podia consumir inúmeros picolés ou sanduíches de sorvete de uma só vez, assim como todo tipo de bolos caseiros, desde que fossem feitos como Gladys fazia - com muito açúcar. Ele também amava melancia e melão, e nós devíamos manter, especialmente no verão, grandes tigelas dessas duas frutas cortadas em pequenas fatias na geladeira que ele tinha lá em cima.
Em várias ocasiões, especialmente em meados dos anos 1970, ele iria experimentar diferentes dietas que se tornaram populares. Em uma ocasião, ele ficou fortemente envolvido (por pouco tempo) em uma dieta de alimentos saudáveis que se tornou popular na Califórnia, enviada de uma loja de alimentos saudáveis, em Los Angeles.
Ele ficou tão convencido de que iria perder peso, que ele deu ordens à tia Delta para comprar muitas dessas comidas, que foram enviadas congeladas em recipientes especiais; mas, quando isso chegou, não havia espaço suficiente nas geladeiras de Graceland para armazenar. Tia Delta perguntou se eu poderia levar um pouco e guardar na geladeira de minha casa, e foi o que eu fiz.
Claro, Elvis rapidamente se cansou dessa dieta, e mudou-se para outras coisas, esquecendo os alimentos de dieta da Califórnia. Eu ainda tenho daquelas embalagens guardadas na minha geladeira. Não consegui jogá-las fora.
Conforme o tempo passou, comecei a assumir mais e mais responsabilidades. Fui ganhando o respeito de tia Delta, que supervisionava o serviço diário da mansão. Ela era a única que todo mundo procurava para saber o que precisava ser feito e mantinha um olhar atento para certificar-se de que tudo estivesse correndo tão bem quanto possível. Ela tinha o apoio de Vernon em tudo e, através dela, eu aprendi o "dentro e fora" de como as coisas se encaixavam ali.
Eu me tornei familiarizada com tudo naquela casa e com o terreno ao redor. A própria mansão tinha a autêntica aparência de  uma linda casa antiga. Fiquei sabendo que pertencera, anteriormente, a uma família muito rica de Memphis.
Pouco antes de ir para o trabalho em Graceland, conversei com meu sogro a respeito da casa. Ele me contou que, quando ele era mais jovem, trabalhava como lavrador em uma fazenda próxima à estrada Millbranch em Whitehaven (uma comunidade predominantemente afro-americana em Memphis, Tennessee). Disse que costumava ir a um dentista que, na época, morava em Graceland, e que o dentista uma vez lhe extraiu um dente que o incomodava muito.
Ele me contou que sentou-se no primeiro degrau descendo para o porão, enquanto o dentista arrancava o dente dele. Isso foi, obviamente, muitos anos antes de Elvis comprar a casa.
Elvis se mudou para a casa em abril de 1957, e imediatamente começou a reformá-la. Ele construiu o famoso muro de pedras e instalou os portões musicais assim que comprou o lugar.
Eu soube que, apesar de ter a casa pintada no mesmo dia em que foi comprada, Vernon tinha contratado uma equipe de pintores que não eram sindicalizados. Quando a Associação de Pintores local descobriu isso e ficaram cientes de que Elvis era um membro do Sindicato dos Atores de Cinema em Hollywood, eles montaram estacas fora da casa, e por vários dias perambularam em fileiras sobre o que levemente foi então uma viajem na rodovia 51. Felizmente Vernon, ao que parece, tinha pedreiros contratados do sindicato para construir o muro de pedra. Por um curto período de tempo havia um letreiro na coluna esquerda do muro dizendo que a parede tinha sido "orgulhosamente construída pelo sindicato dos pedreiros”.
A partir de então, Vernon procurou se certificar de que qualquer trabalho que precisasse ser feito na casa fosse executado por trabalhadores sindicalizados.
Eu lembro, sentada com a avó em uma tarde, enquanto estávamos assistindo TV no quarto dela, quando ela me contou sobre quando eles se mudaram para Graceland.
“Nós mudamos de Tupelo para Memphis quando Elvis tinha apenas 13 anos de idade”, começou. “Para falar a verdade nós não tínhamos nenhum dinheiro e tínhamos que continuar mudando de um lugar para outro. Tudo isso mudou quando Elvis começou a sua carreira e de repente ficou famoso."
Ela continuou: "Elvis tinha dito a Vernon e Gladys para encontrar uma casa maior; uma grande o bastante para não nos preocuparmos com vizinhos reclamando sobre as multidões, e tal. Bem, Vernon e Gladys finalmente encontraram este lugar e todo mundo amou o achado, especialmente Elvis.
“Naquele tempo, um médico era o dono da casa. Ao lado da propriedade havia uma igreja, usada pelos membros para guardar produtos enlatados. Então Elvis comprou a casa e nos mudamos. Vernon e Gladys ficaram no quarto no térreo e Elvis mudou-se para o quarto da frente no andar de cima. Eu também me mudei para um dos quartos no andar de cima. Então, depois que Gladys faleceu, eu me mudei aqui para o antigo quarto de Gladys e Vernon. Eu estou muito mais confortável aqui, porque não tenho que subir as escadas. E aqui é onde eu pretendo ficar”.
Quando comprada por Elvis, em 1957, a casa era bem diferente do que os visitantes veem hoje em suas excursões. Para começar, a casa havia sido abandonada por algum tempo antes de Elvis comprá-la. É difícil imaginar isso agora, uma vez que você já visitou o lugar e o viu por dentro. Mesmo antes de Elvis e sua família se mudarem, isto estava em um estado de abandono. Por um tempo ela tinha sido usada como uma igreja, e serviços havia sido realizados na parte da frente da casa. O porão, que na época era em grande parte inacabado, fora utilizado para várias funções. Quando Elvis se mudou para cá, havia letreiros em dois banheiros públicos indicando "Rapazes" e "Garotas” no que hoje é o principal corredor que liga até a escada de volta para a “sala da selva” nas excursões dos visitantes.
O que os visitantes veem agora no topo da escada é a famosa "sala da selva", que não estava lá quando Elvis comprou a casa. Ela foi construída muitos anos depois que ele se mudou. Antes era apenas um anexo fechado e escondido na varanda, uma área que tinha sido um espaço aberto na parte de trás da casa. Mais tarde, foi emparedado e as grandes janelas do pátio foram instaladas na parte de trás. E tinha móveis regulares apropriados para a época.
Então, na década de 1970, Elvis a decorou com o estilo atual, instalou um carpete felpudo verde no teto e uma cascata no final da sala. Os móveis de modelo polinésio comprados por Elvis no mesmo período foram colocados na sala. Elvis disse que isso o lembrava de suas visitas ao Hawaii, e que aqueles foram tempos felizes para ele.
A enorme cadeira assentada ao lado da cachoeira era o local favorito de Lisa Marie para dormir, enquanto ela crescia. Era tão grande que Lisa poderia facilmente se esticar sobre ela e tirar seus cochilos. Nós mantínhamos um pequeno cobertor por perto para cobri-la quando ela dormia lá.
Aquela cadeira era tão grande que a janela mais à direita (quando se entra dentro do quarto) teve de ser removida para que a cadeira entrasse. Um dos trabalhadores usou uma chave de fenda durante a tentativa para forçar o invólucro de janela para fora da estrutura, quebrando o vidro da janela, que teve de ser substituído.
Diz-se que foram necessários vários dias antes de Vernon parar de reclamar sobre o quanto custou a substituição dessa janela.
Elvis adorava a cachoeira, que tinha sido projetada e instalada pela "Bernie Grenadier” do cunhado de Marty Lacker, mas ao final acabou por não usá-la, porque ela tendia a jogar água sobre o tapete quando ligada. Ficávamos constantemente limpando o tapete molhado em torno dela depois que foi instalada pela primeira vez.
Outro quarto que é destaque especial nas excursões em Graceland e que não fazia parte da estrutura original é a sala de troféus. Ela foi originalmente revestida para fornecer um espaço para um conjunto de carros de brinquedo de corrida que Priscilla deu a Elvis como presente de Natal em um desses anos.
O que agora é a sala de troféus originalmente era uma área aberta coberta de grama, atrás e ao lado da sala de música, que continha duas grandes árvores de sombra. Elvis tinha uma churrasqueira fixada lá que, devido à sua proximidade com a piscina, foi palco de muitas noites divertidas de verão, e que eu presenciei. O que viria a se tornar a sala de troféus como hoje os fãs conhecem, começou como uma longa passagem revestida que leva da parte de trás da sala de música em toda a extensão da frente da sala atual para a piscina.
Cortinas foram adicionadas à parede traseira atrás do piano na sala de música para esconder as portas existentes que originalmente levaram para essa passagem. Essa passagem original é agora o corredor para o "Salão de Ouro" na sala de troféus.
Voltando à década de 1960, Elvis tinha um número enorme de condecorações e prêmios pendurados em torno das paredes do que é hoje a sala de TV, situada no porão. Isso foi antes de ter sido redecorada para ele; este projeto atual azul & amarelo relâmpago foi oferecido por Linda Thompson na década de 1970.
Eventualmente, à medida que mais e mais troféus chegavam, foi decidido transformar o primeiro andar em uma área de exposição, e é assim que ficou conhecida como a "sala de troféus."
Como mencionado anteriormente, o porão da casa era basicamente inacabado quando Elvis se mudou pela primeira vez.
A única coisa lá em baixo na época eram os dois banheiros públicos e algumas salas abertas. Elvis terminou essas salas, que são agora a sala de TV, a sala de bilhar, uma lavanderia e o que foi, por muito tempo, o quarto de Charlie Hodge (localizado atrás da sala de TV).
Em mais de uma ocasião, quando chovia forte, o porão inundava de água e Charlie saía da cama com as luzes apagadas e andava na água parada. Eu lembro em várias ocasiões de ouvir os gritos de Charlie vindos do porão, deixando-nos saber que ele tinha saído da cama antes de acender as luzes no quarto dele.
Ao longo do tempo, foram feitas alterações no primeiro nível da casa também. Quando Elvis comprou a casa havia uma garagem para 4 carros ligada a ela. Assim permaneceu até 1960, quando Vernon e Dee se casaram e se mudaram para Graceland com os três filhos de Dee -  Billy, Ricky e David Stanley.
Naquela época, Elvis converteu a garagem em dois quartos anexados com uma área de sala de estar. O "anexo" foi posteriormente modificado de várias formas e, ao longo dos anos, tornou-se uma casa para vários integrantes da "Máfia de Memphis". Creio que Priscilla ficou em um desses quartos quando ela veio da Califórnia por ocasião da morte de Elvis.
Finalmente, ele foi atualizado com uma cozinha moderna instalada quando Vernon se mudou para lá em 1978, um ano antes dele morrer. Ele tinha se mudado de volta para Graceland, da rua Dolan, para estar mais perto de sua mãe e sua irmã Delta.
Por causa de sua condição cardíaca, ele ficou no primeiro andar, para assim não ter que subir calçadas; ele morava no anexo, no momento de sua morte em 1979.
Outras alterações na casa ocorreram de forma bastante regular, com o passar dos tempos e as necessidades que surgiam. O banheiro de Priscilla foi redecorado duas vezes desde que ela saiu da casa no início dos anos 1970, uma vez para Linda e novamente para Ginger.
O banheiro de Elvis também tem uma nova aparência. No final dos anos 1960, ele o usava para lavar e cortar seu cabelo.
Havia uma velha cadeira de barbeiro, em que ele costumava sentar-se em frente à janela do pequeno banheiro, e que foi usado para essa finalidade. Uma das coisas feitas durante a reforma foi a instalação de um grande chuveiro arredondado no banheiro. A cadeira de barbeiro foi então movida para o banheiro perto da piscina na sala de troféus. Depois que ele tinha o seu cabelo cortado, eu entrava e varria o cabelo e me certificava de ser jogado fora; assim ninguém iria pegá-lo para vender.
O último quarto para ser reformado era o de Elvis. Ele tinha quase todo o quarto feito em couro escuro, incluindo o teto.
Uma vez ele me disse, brincando, que estava pensando em ter uma cozinha instalada lá em cima. "Dessa forma", falou, me provocando, "eu posso dizer antes de eu me casar novamente se ela pode cozinhar!"
Ele mantinha o quarto, que tinha as janelas bloqueadas, com cortinas pesadas, o que o tornava escuro permanentemente.
Se você não sabia que horas eram antes de entrar no quarto, você nunca seria capaz de saber, apenas ficando em pé nele. Isso foi feito dessa forma por Elvis porque ele viveu sua vida por um calendário completamente diferente do sol. Se ele queria ir para a cama ao meio-dia, ele não tinha que se preocupar com a luz solar para mantê-lo acordado. Assim, ele mantinha o quarto escuro o tempo todo e contava com a iluminação [artificial] quando ele queria luz no quarto.
Ele tinha uma habitual variedade de lâmpadas, mas a principal fonte de iluminação vinha de um conjunto de luzes de néon que corriam ao redor do topo de todas as quatro paredes do quarto. Havia, na verdade, duas cores de tubos de néon, que, quando iluminadas juntas, deixava uma luz suave muito agradável que brilhava no teto. Estas luzes foram embutidas atrás dos painéis no alto das paredes, criando um sistema indireto de iluminação. Aquelas luzes ficavam acesas 24 horas por dia.
O interruptor para aquelas luzes ficava na parede direita quando se entra pela primeira vez em seu quarto; fica próxima do monitor da TV de satélite, em cima de uma mesa.
Na mesma parede ele tinha pendurado uma placa emoldurada com um poema, que tinha sido escrito e dado a ele por um amigo da família de Tupelo, Janelle McComb.
Ele também tinha uma enorme cama "king-size" feita por encomenda, com um extravagante sistema de braços construídos na cabeceira da cama, que lhe permitia retirá-los e se sentar para assistir TV ou ler o jornal ou comer suas refeições, e depois empurrá-los para fora do caminho quando ele estivesse pronto para ir para a cama.
Quando chegaram para entregar a cama, eu lembro que o pessoal da entrega fez alguém assinar algo dizendo que a empresa de entrega não seria responsável por qualquer dano feito no colchão, porque era tão grande que tiveram que dobrá-lo à força no meio para subir a curva no topo das escadas e leva-lo para o quarto.
Felizmente, a cama não foi danificada. A curva apertada no topo das escadas também causou outro problema envolvendo um móvel, muitos anos depois.
Um longo sofá tinha sido construído no lugar em toda a parede de trás do seu escritório, atrás do local de sua escrivaninha, quando ele tinha comprado a casa. Um dia Elvis decidiu substituí-lo por um novo sofá. Então ele disse aos carpinteiros para removê-lo do escritório, levá-lo para baixo até o porão e colocá-lo na sala de bilhar.
O caso não foi assim tão simples. O que eles não levaram em conta foi que o sofá, que provavelmente tinha pelo menos dez pés de comprimento, inicialmente tinha sido construído no local e, assim, não poderia simplesmente passar pela porta, fazer a volta e descer as escadas em torno do pequeno patamar estreito.
Após várias tentativas infrutíferas, Vernon, finalmente, decidiu, desesperado, mandar cortar o sofá ao meio apenas para conseguir passar pelo pequeno corredor e levá-lo para fora da casa.
Assim, como só acontecia em Graceland, estávamos todos naquela tarde, na cozinha, ao som de uma serra elétrica no andar de cima cortando um sofá no meio. Se eu estivesse em qualquer outra casa além de Graceland, provavelmente teria ficado alarmada.
O sofá (ou, devo dizer, os sofás) nunca foi para a sala de bilhar. Vernon acabou dando uma metade para mim e a outra metade para uma das outras empregadas. Eu fiz bom uso dele por muitos anos na sala de estar da minha casa.
Tia Delta redecorou o quarto da mãe dela depois que a avó faleceu. Ela o refez num bonito esquema de cor verde ervilha.
No primeiro andar de Graceland, a cozinha praticamente permaneceu a mesma ao longo dos anos, exceto por uma ou duas restaurações ocasionais. Foram adicionados novos eletrodomésticos, substituindo as velhas geladeiras verdes e vermelhas que tinham lá, e os armários foram atualizados há muitos anos. Os tapetes também foram mudados algumas vezes.
Há peças de acrílico que agora protegem as gavetas e os eletrodomésticos dos turistas que caminha perto deles nas excursões. Muita gente não sabe que a cozinha e a sala de jantar ainda hoje são usadas por Priscilla e Lisa Marie. Em ocasiões especiais, quando qualquer uma delas ou ambas estão em Memphis, elas ligam uma para a outra e combinam para comerem juntas, como nos velhos tempos, ali mesmo na mansão.
Após a última excursão da noite, as peças de acrílico são retiradas em volta dos armários e as refeições são realizadas, como costumavam ser preparadas e servidas na sala de jantar.
A equipe de limpeza, em seguida, limpa e guarda tudo de volta em seus lugares originais, antes dos passeios serem realizados na manhã seguinte.
Originalmente, anos antes da “sala da selva” ter sido adicionada à casa, tinha uma pequena mesa de cozinha encostada a uma parede que estava localizada onde os poucos degraus que descem para onde a “sala da selva” se encontra agora.
Elvis comia muitas vezes suas refeições nessa mesa, junto com Vernon e Gladys. Essa mesa ficava localizada em frente à área do longo balcão que percorria a cozinha. A cozinha em Graceland, como na maioria das casas, sempre foi o centro das atividades. Também era o coração da mansão. Era trazida à vida todos os dias pelo calor da família Presley, sentados em torno desse balcão. Se as paredes da cozinha pudessem pelo menos falar, quantas histórias elas poderiam contar!

Isto é um trecho de "Dentro de Graceland", de autoria de Nancy Rooks, ex-empregada de Elvis Presley, um testemunho precioso do dia-a-dia do rei do rock, cobrindo os últimos 10 anos de sua vida. A tradução em português é de Roseane Maria Silva, e eu tive o privilégio de revisar o texto e compilar o e-book em PDF. Baixe-o gratuitamente aqui.


Comentários

  1. Fiquei encantada lendo cada palavra, gostaria de ler mais
    Sobre meu único amor Elvis Presley. Obrigado.

    ResponderExcluir

Postar um comentário